Eleições fraudulentas

O cenário prolongou-se durante meses, num espectro de falsidades que chegavam ainda antes das eleições. Vitórias precoces, votos trocados e cédulas ilegais: Donald Trump chegou a declarar que a única forma de perder seria através de "fraude maciça". Tal não se comprovou. Até o procurador-geral William Barr, nomeado por Trump, afirmou que os procuradores dos EUA e o Federal Bureau of Investigation (FBI) não detectaram "fraude numa escala que pudesse ter dado origem a um resultado diferente nas eleições".

Durante a contagem dos votos, Trump sustentou ainda a teoria falsa de que terão sido transferidos "milhares de votos" para Joe Biden. Tal como o Polígrafo verificou, as acusações referiam-se a estados que utilizam o sistema de votação eletrónico da Dominion Voting Systems, empresa que "negou categoricamente informações falsas sobre trocas de votos". Questionadas pelo Check Your Fact, as autoridades eleitorais de vários swing states - ou seja, estados que não têm um historial de tendência política fixa ao longo das décadas e se tornam fundamentais para definir o vencedor em eleições presidenciais - asseguraram a inexistência de evidências de fraude eleitoral generalizada nas respetivas jurisdições.

Estavam por contar milhões de votos quando Trump festejou vitória. Num discurso transmitido na manhã de 4 de novembro pediu ainda que todas as votações fossem interrompidas. Mais, alegou que era "estatisticamente impossível" perder a corrida presidencial, mesmo com a garantia do sucesso dos republicanos nas disputas para o Congresso dos EUA.

No Twitter, aliás, Trump voltaria a referir-se aos resultados eleitorais: "Nenhum candidato alguma vez ganhou na Florida e no Ohio e perdeu [as eleições]. Eu ganhei ambas por muito". Tal como o Polígrafo sinalizou, também esta afirmação é falsa, uma vez que há registo de precedente: as eleições de 1960 que colocaram frente-a-frente o democrata John F. Kennedy e o republicano Richard M. Nixon. O republicano venceu no Ohio e na Florida, mas acabou por perder as presidenciais para aquele que se tornou então no 35º Presidente dos EUA. 

Ao que acrescem também falsas comparações entre o desempenho de Biden e o dos dois últimos candidatos presidenciais democratas, falsas alegações sobre imagens de câmaras de vigilância na Geórgia - que teriam filmado boletins de voto ilegais - e, no pós-eleição, uma última fake-news sobre a integridade da contagem dos votos. 

Sinais de uma pandemia sazonal?

Estávamos em fevereiro, início da pandemia, quando Trump sugeriu que o vírus iria "desaparecer" em abril, como consequência do aumento da temperatura. Em maio, depois da permanência de infeções, Trump alegou, ainda sem bases científicas, que não haveria necessidade de uma vacina para pôr fim à pandemia. Em dezembro, o aumento de casos diários e de mortes provocadas pelo novo coronavírus atingiu novos recordes. São já 300.000 mortes e quase 20 milhões de casos de infeção diagnosticados nos EUA.

Depois de ter contraído o vírus em outubro, Trump continuou a menosprezar a Covid-19 e chegou a afirmar que houve anos em que as mortes por gripe alcançaram números acima dos 100 mil. Também esta tirada é falsa, uma vez que o maior número estimado de mortes causadas pela gripe na última década foi de 61 mil em 2017-2018; a média anual tem sido, por sua vez, de menos de 40 mil mortes.

Já em agosto o Polígrafo tinha averiguado que as estimativas do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA indicavam um maior número de mortes ligadas ao SARS-CoV-2 do que ao vírus influenza. Na temporada da gripe sazonal de 2018-19 morreram 34.157 pessoas nos EUA devido a essa doença. Em comparação, desde o início da pandemia de Covid-19 já morreram mais de 156 mil pessoas (dados de quinta-feira, dia 5 de agosto) infetadas com o novo coronavírus nos EUA. Um valor mais de quatro vezes superior.

O discurso foi semelhante e enganador quanto às mortes relacionadas com o vírus. Trump ampliou o seu portefólio de alegações falsas e infundadas quando, num comício de campanha em outubro, questionou os números reportados, insinuando a influência de um "incentivo" que provocaria um consequente aumento nos casos e nas mortes, ligado à mentira de que os médicos e os hospitais receberiam mais dinheiro.

Além de mentir sobre falsas descidas de mortes atribuídas ao Covid-19 pelo CDC, Trump foi pródigo no incentivo à não utilização de máscaras em público. Somam-se a outras intervenções um conjunto de comícios lotados, onde poucos participantes utilizavam máscaras.

Ventiladores e um stock alegadamente nulo

O discurso de Trump relativamente à escassez de ventiladores culpava a "Administração anterior", em alegações que incluíam armários "vazios" e falta de condições para tratamentos. Na verdade, em junho veio a público pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) dos EUA que, ao contrário do declarado por Trump, o governo federal tinha mais ventiladores armazenados, deixados por administrações anteriores, do que aqueles que tinha distribuído durante a pandemia. 

O Strategic National Stockpile tinha um total 16.660 ventiladores, nenhum deles comprado pela Administração Trump, quando começou a distribuir as máquinas em março. A 17 de junho, um porta-voz do HHS disse que o governo federal teria distribuído 10.640 ventiladores até àquele momento. 

Quanto a outros suplementos médicos, o governo federal dos EUA não divulga publicamente o conteúdo e o armazenamento, mas, segundo tudo indica, o repositório antes de Trump assumir o cargo continha grandes quantidades de materiais, incluindo vacinas contra agentes de bioterrorismo como a varíola, antivirais em caso de pandemia de gripe e equipamento de proteção para médicos e enfermeiros. Um embuste prontamente desmascarado pelo FactCheck.Org. 

Incentivo à utilização de hidroxicloroquina

Em março, Trump começou a promover a hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19, sob o argumento de que teria visto "coisas impressionantes" ligadas à utilização do medicamento.

Este medicamento pode servir para tratar doenças como a malária, lúpus e artrite reumatoide. Ainda assim, Trump foi mais longe e afirmou que pessoas com lúpus, a tomar hidroxicloroquina, não estariam expostas ao vírus. Mas isso simplesmente não é verdade, uma vez que foram registado vários casos de indivíduos com lúpus que contraíram Covid-19. Mais ainda, Trump citou estudos inexistentes para sustentar a sua teoria de que em países com malária havia poucos casos de Covid-19, supostamente consequência, mais uma vez, dos efeitos da hidroxicloroquina. A verdade é que, na maior parte do mundo, este medicamento não é utilizado contra a malária, o que resulta noutra alegação enganadora de Trump.

Depois de um grande ensaio clínico não ter encontrado nenhum benefício para pacientes com Covid-19 hospitalizados, a Food and Drug Administration (FDA) revogou a autorização do uso de emergência de hidroxicloroquina e cloroquina. A agência norte-americana concluiu que os medicamentos "dificilmente serão eficazes no tratamento de Covid-19 para os usos autorizados nos EUA" e que os "benefícios conhecidos e potenciais" dos medicamentos "não superamos riscos

Apesar disso, Trump continuou a apoiar o uso de hidroxicloroquina e chegou a publicar um tweet  em que alegava que vários médicos e estudos discordavam da revogação da FDA, seguido de um vídeo viral, cuja partilha levou à suspensão da conta de Trump, onde um grupo de médicos afirmava que a hidroxicloroquina seria uma cura para a Covid-19.

© Agência Lusa / EPA / Jim Lo Scalzo

Biden e as falsas críticas a Trump

Os EUA estavam perto de atingir as 200 mil mortes por Covid-19 quando Biden acusou Trump de ter feito uma má gestão da pandemia, afirmando que se o Presidente "tivesse feito o seu trabalho desde o início, todas as pessoas ainda estariam vivas. Basta olhar para os dados". O que é certo é que nenhuma pesquisa ou dados sustentam esta afirmação.

Biden não entrou em detalhes sobre quais as ações que poderiam ter impedido os milhares de mortos por Covid-19, mas a verdade é que, mesmo que os EUA tivessem implementado limitações de tráfego mais rígidas desde o início, as pesquisas mostram que o efeito seria apenas visível na disseminação do vírus, provocando um atraso, mas não o seu controlo.

Além desta afirmação, Biden foi mais longe e disse que a Administração de Trump "não fez nenhum esforço" para levar especialistas médicos dos EUA para a China "no início desta crise". No entanto, o CDC tentou levar especialistas para a China uma semana depois de o país ter relatado o surto à Organização Mundial da Saúde (OMS) a 31 de dezembro de 2019. Em meados de fevereiro, uma equipa da OMS, com dois membros dos EUA, foi autorizada pelas autoridades chinesas a visitar Wuhan, onde o surto terá começado.

Prisão de Biden na África do Sul

No início do ano, em fevereiro, Biden afirmou pelo menos três vezes que terá sido "preso" na África do Sul, enquanto tentava visitar Nelson Mandela na ilha-prisão de Robben, na década de 1970. Biden recuou nas afirmações, mais tarde, admitindo que na verdade foi "parado" e brevemente "detido" no aeroporto.

Desempenho da economia nos EUA 

Tanto Trump como outros funcionários do governo federal insistiram no falso argumento de que, antes da pandemia, a economia dos EUA era a "mais forte" e a "maior" da História mundial. Tal afirmação não é verdadeira. A economia dos EUA tinha obtido um melhor desempenho sob mandatos de outros presidentes, quer em termos de emprego, quer em termos de crescimento económico.

O melhor ano de Trump ao nível do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) real - ajustado pela inflação - foi 2018, em que se registou um aumento de 3%. O crescimento do PIB foi 17 vezes maior nos últimos 39 anos, incluindo mais recentemente, em 2015, sob a Presidência de Barack Obama. De notar também que o aumento do emprego durante os primeiros três anos de Trump - antes do surto de coronavírus - foi mais lento do que nos três anos que antecederam a sua subida ao cargo.

"Plandemic": 26 minutos de alegações falsas sobre o coronavírus

Depois de atrair centenas de milhares de visualizações, em maio, o vídeo "Plandemic" tornou-se uma grande fonte de afirmações falsas e enganadoras sobre o coronavírus. Grande parte do vídeo inclui uma entrevista a um polémico ex-investigador de fadiga crónica que tenta, em vários momentos, desacreditar a vacinação. 

Em "Plandemic" defende-se, ao contrário da pesquisa científica sobre o coronavírus, que este teria tido origem num laboratório e que não seria "de ocorrência natural". Tal como o Polígrafo já verificou, não se confirma que o novo coronavírus tenha sido criado artificialmente em laboratório, ao contrário do que se alega nesta e muitas outras teorias de conspiração que circulam nas redes sociais. 

Ainda no mesmo vídeo é sugerido que as vacinas contra a gripe contêm coronavírus e, ainda, que o uso de máscaras faciais pode levar a uma infeção do indivíduo através do seu próprio hálito. Uma segunda parte, lançada em agosto, trouxe à tona mais falsidades, sugerindo, novamente e sem provas, que o coronavírus terá sido criado pelo homem e espalhado intencionalmente.

Teorias da conspiração de Trump

Através do Twitter, como tem vindo a fazer desde há anos, Trump difundiu teorias da conspiração que não se limitaram às eleições.

Algumas semanas antes de ir às urnas, Trump partilhou uma teoria que sugeria, sem qualquer tipo de fundamento, que Biden teria mandado matar membros da equipa SEAL 6, de forma a encobrir o assassinato, supostamente fracassado, de Osama bin Laden em 2011. Quando questionado sobre a partilha, Trump alegou que esta era a "opinião" de alguém, acrescentando: "Vou colocá-la por aí e as pessoas podem decidir por si mesmas". A plataforma FactCheck.Org não encontrou qualquer corroboração dos elementos da teoria.

Ainda em maio, Trump defendeu outra teoria que estabelecia uma conexão entre o apresentador da MSNBC, Joe Scarborough, e a morte de um dos seus funcionários em 2001, quando Scarborough era congressista eleito pelo Partido Republicano. O médico legista determinou que a morte foi uma queda acidental causada por um problema cardíaco, mas Trump pediu a reabertura do caso. 

Ao promover a hidroxicloroquina, Trump partilhou no Twitter um post que afirmava que o medicamento estaria a ser "suprimido para manter um número alto de de mortes, de forma a que a economia possa ser fechada antes das eleições". A verdade é que não só não há evidências para tal afirmação, como já foi comprovado que a hidroxicloroquina não é eficaz no tratamento da Covid-19.

Distorções durante a campanha 

Numa junção das duas principais figuras políticas do ano, é de notar que tanto Trump como Biden distorceram as posições um do outro relativamente a várias questões durante a campanha.

Comecemos por Biden que afirmou falsamente que o "plano" de Trump iria "levar à falência" da Previdência Social em 2023. Um anúncio da campanha alegou que esses "cortes planeados" iriam pôr fim aos "benefícios" até então. Na realidade, Trump nunca propôs cortes de benefícios e chegou a dizer o seguinte: "Quando eu ganhar as eleições, vou perdoar completa e totalmente todos os impostos diferidos sobre a folha de pagamento, sem de forma alguma prejudicar a Previdência Social. Esse dinheiro virá do fundo geral".

Quanto a Trump, o ataque falso ao plano de impostos de Biden resultou numa das mentiras políticas mais flagrantes do ano. Segundo Trump, Biden queria aumentar os impostos de todos, incluindo a classe média. A verdade é que a proposta de Biden em nada dobraria ou triplicaria os impostos de pessoas com rendimento médio, mas antes previa um aumento dos impostos sobre indivíduos e corporações com rendimentos elevados.

Trump terá também distorcido o conteúdo de um documento, divulgado por aliados de Biden e por Bernie Sanders, de forma a fazer várias afirmações falsas sobre as posições de Biden no que diz respeito à imigração.

O documento pedia o fecho de centros de detenção com fins lucrativos, mas Trump assumiu o pedido como uma recomendação para o fim das detenções de imigrantes que entrassem ilegalmente no país. O documento apontava igualmente a necessidade de expandir o sistema de asilo, mas Trump disse que o intuito seria dar asilo a "todos os novos imigrantes ilegais". O relatório pediu foco nos processos de "traficantes de pessoas, contrabandistas" e outros criminosos graves, mas Trump alegou que isso poria fim aos processos contra quem cruza a fronteira de forma ilegal.

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network