Foi através de uma carta enviada ao filho e Rei de Espanha que Juan Carlos I comunicou a Filipe VI a decisão de deixar de viver no Palácio da Zarzuela e sair do país. O exílio foi forçado, explicou na missiva, “pela repercussão pública” de “certos eventos do passado”. 

Desde o verão de 2018 que o rei emérito de Espanha está envolvido numa investigação judicial. Na altura, agentes da polícia suíça analisaram as contas de uma empresa gestora de fundos alegadamente ilegais em paraísos fiscais, onde o monarca tinha investimentos pessoais. 

Recentemente, o jornal digital “El Español” avançou que Juan Carlos I teria pedido aos seus representantes que criassem uma estrutura onde fosse possível esconder 100 milhões de euros provenientes do então rei da Arábia Saudita, Abdalá bin Abdulaziz al-Saúd. A conta terá sido aberta a 6 de agosto de 2008 e o dinheiro foi apontado como sendo uma “prenda [dada pelo homólogo] segundo a tradição saudita”. 

El Español Rei Juan Carlos

As autoridades, porém, acreditam que se tratará de uma comissão paga pela Casa de Saud ao monarca por este ter servido de intermediário entre empresas espanholas de construção de linhas ferroviárias e o Governo saudita. O objetivo final era a construção de uma linha de alta velocidade entre Medina e Meca. 

A investigação está agora na fase de determinar se há indícios suficientes para poder acusar Juan Carlos I de ter cometido algum delito desde que deixou o trono em 2014.

A investigação está agora na fase de determinar se há indícios suficientes para poder acusar Juan Carlos I de ter cometido algum delito desde que deixou o trono em 2014.

 

Uma das figuras principais desta teia de problemas que tem afetado a família real espanhola é Corinna Larsen, uma alemã de 55 anos que foi amante do monarca e que disse às autoridades que os 64,8 milhões de euros depositados numa conta das Bahamas foram um presente "por amor e gratidão" de Juan Carlos I.

Do elefante aos quartos separados: as frases satíricas

Esta quinta-feira, 6 de agosto, como relata o site de fact-checking Maldita.es, começaram a circular no Twitter fotos das edições impressas de vários jornais com declarações atribuídas a Corinna Larsen. 

Juan Carlos maldita.es
créditos: Maldita.es
  • “Eu é que tive que matar o elefante, porque o senhorzinho tinha medo”; 
  • “Tinha sempre moedas de sem pesetas nos bolsos. À mínima coisa pegava nelas e dizia-me: ‘Sais em alguma moeada? Eu saio”; 
  • “Dá-se muito bem com o Alberto do Mónaco. São unha e carne”;
  • “Sim, claro que dormem separados há anos. Ele dorme no seu quarto e Sofia em Londres”.

As várias declarações atribuídas à empresária alemã foram publicadas pelo “El Mundo Today” em 2018. No seu aviso legal, o site explica que faz “jornalismo satírico”. Ou seja, as frases supostamente ditas por Corinna Larsen eram inventadas. 

jornal satirico Espanha
créditos: Maldita.es

Segundo conta o Maldita.es, fotografias partilhadas pelos usuários do Twitter permitiram perceber que as frases apareciam na edição impressa de 6 de agosto do  “El Faro de Vigo”. No jornal, a peça tinha como título “Corina [sic], a fantasia de Villarejo”, enquanto no site aparecia “Corinna Larsen, a fantasia do ex-comissário Jose Manuel Villarejo". De acordo com a plataforma de fact-checking, na edição digital do periódico as frases não aparecem entre aspas, sinal de pontuação que indica citação.

O “El Faro de Vigo” não foi o único jornal a citar as mesmas declarações. Também o diário “La Nueva España” publicou as frases na sua edição nacional. Além disso, o Maldita.es encontrou a mesma notícia em versões locais do mesmo periódico, como Gijón e Cuenca

Os dois títulos pertencem ao grupo Prensa Ibérica, tal como o “La Opinión de Zamora” que também acabou a publicar as frases inventadas pelo jornal satírico. Todas as notícias estavam assinadas por Eugenio Fontes. 

Todas as notícias estavam assinadas por Eugenio Fontes.

Apesar do grupo de comunicação não ter respondido às perguntas do site de fact-checking para esclarecer o tema, Eugenio Fontes pediu desculpas, no Twitter, por ter incluído as supostas declarações no seu trabalho sem as analisar. O “El Faro de Vigo” atribuiu o erro ao jornal “La Nuvea España” e usou a declaração de Fuentes como explicação para o erro.

Juan Carlos Twitter

Os jornais do grupo Prensa Ibérica não foram os únicos a usar as declarações de fictícias de Corinna, onde esta supostamente assumia ter matado um elefante durante uma caçada no Botswana porque o monarca teria tido medo de o fazer. Um artigo da revista Marie Claire, de 11 de junho, também fazia alusão às supostas declarações da alemã sobre um dos mais polémicos episódios que envolveu o rei. 

Em 2012, em plena crise económica, Juan Carlos I teve que regressar a Espanha de urgência por ter partido a anca durante uma caçada de elefantes neste país africano. A viagem não era do conhecimento dos espanhóis, que realizaram manifestações de protesto. 

Em 2012, em plena crise económica, Juan Carlos I teve que regressar a Espanha de urgência por ter partido a anca durante uma caçada de elefantes neste país africano. A viagem não era do conhecimento dos espanhóis, que realizaram manifestações de protesto.

 

Juan Carlos acabou afastado do cargo de presidente honorário da filial espanhola do World Wildlife Fund, associação ambientalista que zela pela preservação de espécies em risco ou em vias de extinção. Como o elefante africano que o então rei de Espanha caçou. Foi também esta a viagem que permitiu descobrir a relação de Juan Carlos I com Corinna Larsen. A alemã participou na viagem com o seu primeiro marido e o filho mais novo. Mas já era presença habitual em fotografias junto ao monarca. 

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