1. Os problemas de visão causados pela Covid-19 mas já confidenciados em 2014

Em maio de 2020, tornaram-se públicas as primeiras informações de que elementos da equipa governamental de Boris Johnson não cumpriam as regras por si mesmo impostas e publicamente promovidas. Naquele caso concreto, Dominic Cummings, um dos principais assessores do primeiro-ministro do Reino Unido que, durante o confinamento e a respetiva restrição de circulação, viajara com a mulher e o filho - primeiro cerca de 400 quilómetros, entre Londres e Durham, depois entre Durham e Barnard Castle, quase 41 quilómetros.

A justificação de Cummings para a deslocação maior foi a proteção e apoio familiar ao filho, de quatro anos, atendendo a que naquela cidade do nordeste de Inglaterra viviam os seus familiares e ao facto da sua cônjuge estar infetada com Covid-19, desenvolvendo sintomas severos. Sobre a viagem mais curta, o ideólogo do Brexit disse que tinha sido um teste à sua visão – que lhe parecia afetada, presumindo-se assim que também ficara infetado durante aquele período de 15 dias de “confinamento” em Durham -, de forma a saber se tinha condições para fazer a viagem de regresso a Londres.

É neste ponto que surge Boris Johnson que, em conferência de imprensa, a 25 de maio de 2020, corroborando a versão do seu conselheiro, afirmou: “Estou a descobrir que tenho de usar óculos pela primeira vez em anos – porque penso nos prováveis ​​efeitos dessa coisa… acho muito, muito plausível que a visão possa ser um problema associado ao coronavírus” [Johnson tinha estado infetado entre final de março e meados de abril desse ano].

Só que estes problemas de visão não eram novos, pelo menos já tinham sido invocados. Uma pesquisa da imprensa inglesa mostrou que, em 2014, o então Mayor (presidente da câmara) de Londres declarara ao "Daily Mail" que precisava de óculos para ver qualquer coisa em redor da casa, satirizando-se até: “Agora sou tão míope. Eu estou cego!".

Recorde-se que, a propósito desta polémica, que relacionava problemas de visão a efeitos pós-Covid-19, o Royal College of Ophthalmologists and Moorfields Eye Hospital esclareceu desde logo: “Atualmente, há muito pouca evidência para sugerir que a Covid-19 pode afetar a visão”.

2. Número de novos médicos que incluía os estudantes de medicina

Em Outubro de 2020, com menos de um ano de mandato (eleito em dezembro de 2019), o primeiro-ministro inglês escreveu na sua conta no Twitter: “Notícias brilhantes de que agora existem mais 13.718 enfermeiros e 7.810 médicos do que há um ano (…)”

No entanto, uma análise mais fina dos números do serviço nacional de saúde do Reino Unido (NHS) permite perceber que contêm um dado enganador: incluem no seu total os estudantes de medicina.

O comunicado de imprensa, publicado pelo Ministério da Saúde do Governo britânico, congratula-se mas reconhece que “os estudantes de medicina estão na mesma posição que os médicos da Fundação 1 e, portanto, são contados como 'médicos' nas estatísticas”.

A polémica com o contingente de médicos no NHS acompanha outras estatísticas divulgadas pelo Governo, designadamente o número previsto de novos hospitais a ser construídos (40, mas mais de metade não são considerados como criados de raiz) e para o reforço de enfermeiros (acréscimo de 50 mil, que o próprio Johnson admitiu ser exagerado).

3. A vacina para a Covid-19 que era mais rápida por causa do Brexit mas que afinal estava já protegida pela legislação vigente

Depois de registar a cifra mais alta de mortos por Covid-19 da Europa (e uma das maiores do mundo), Boris Johnson apostou num processo de vacinação ágil e que fosse percursor no mundo. Menos de 12 meses da consumação do Brexit, mas ainda no chamado “período transitório”, o rosto político desta separação quis também mostrar que a saída da União Europeia tinha sido uma vantagem para o Reino Unido quanto a este e outro tipo de processos, com reforço de soberania e subtração de burocracia.

Assim, em 24 fevereiro de 2021, cerca de dois meses e meio após terem sido iniciadas as inoculações, o primeiro-ministro britânico afirmou na Câmara dos Comuns: "A Agência Europeia do Medicamento... teria impossibilitado o lançamento [da vacina]". Boris Johnson e outros membros do seu governo repetiram, desde dezembro de 2020 e durante o ano de 2021, esta especulação.

Mas, na verdade, a permanência na União Europeia não seria impeditiva de um percurso autónomo do Reino Unido em matéria de vacinas, conforme legislação aprovada em 2012. Aliás, um comunicado de imprensa do próprio Executivo chefiado por Johnson, em novembro de 2020, referia isso mesmo: “Se um candidato adequado à vacina Covid-19 […] estiver disponível antes do final do período de transição, a legislação da UE que implementamos por meio do Regulamento 174 do Regulamento de Medicamentos Humanos permite que o MHRA autorize temporariamente o fornecimento de um medicamento ou vacina, com base na necessidade de saúde pública.”

Quanto ao efeito antecipador, apesar do Reino Unido ter sido o primeiro Estado da Europa a administrar vacinas para a Covid-19, a diferença para outros países não foi significativa: Reino Unido (8 de dezembro); Alemanha (26 de dezembro); França, Itália, Espanha e Portugal (27 de dezembro).

4. O perdão a um ministro que, depois de se demitir, foi transformado em aparente exoneração rápida

A 24 de junho de 2021 (quinta-feira à noite), o "The Sun" divulgou o que publicaria na edição do dia seguinte (sexta-feira, 25): fotografias do ministro da Saúde (“secretário da saúde”) a beijar e abraçar uma sua assessora no seu gabinete governamental. Os fotogramas, obtidos a partir das imagens captadas pelas câmaras de videovigilância, consubstanciavam um triplo escândalo: conjugal (Matt Hancock e Gina Coladangelo eram ambos casados e estavam numa relação extramatrimonial); ético-laboral (Coladangelo tinha sido contratada por Hancock) e, principalmente, político (devido à Covid-19, vigoravam as normas de distanciamento social também nos locais de trabalho).

Nesse mesmo dia (sexta-feira, 25), o porta-voz de Boris Johnson garantiu que este aceitou as desculpas de Hancock e considerava o assunto “encerrado". Questionado se o primeiro-ministro tinha "total confiança" em Hancock, respondeu "sim".

No dia seguinte, à noite (sábado, 26), o responsável pela pasta da saúde não resistiu à pressão e demitiu-se. Na segunda-feira, dia 28, questionado pelos jornalistas porque não demitira logo Hancock, Johnson respondeu: “Li a história na sexta-feira e temos um novo secretário de saúde no cargo no sábado, penso que isso é o ritmo certo para prosseguir numa pandemia”.

5. Partygate: as festas em Downing Street. Primeiro negadas, depois na origem de um pedido de desculpas pela participação não consciente

Num ano (2020) de confinamento(s) e suas respetivas regras, a residência oficial do primeiro-ministro britânico foi palco de festas que violavam os preceitos estipulados pelo próprio Governo. A divulgação destas infrações à Lei foi feita durante o ano seguinte (2021) e começou por centrar-se em convívios realizados no final de novembro e durante o mês de dezembro.

Um ano depois (1 de dezembro de 2021), confrontado pelo líder da oposição, Keir Starmer, sobre essas festas durante o período de Natal, Boris Johnson afirmou: “Todas as orientações foram seguidas completamente no nº 10”.

Uma semana mais tarde (8 de dezembro), perante novos elementos que indiciavam a realização de encontros boémios em Downing Street, outra vez no debate semanal no Parlamento, Johnson garantiu não ter participado em qualquer desses eventos informais, mas referiu a abertura de uma investigação: “Peço imensas desculpas pelo insulto que tem causado em todo o país e peço desculpa pela impressão que dá. Mas eu repito que me foi garantido, desde que essas alegações surgiram, de que não houve festa e que nenhuma regra Covid foi violada”, prometendo “ação disciplinar para todos os envolvidos" caso as regras tivessem sido desrespeitadas.

Porém, novos dados publicados pela imprensa reforçavam a convicção na opinião pública de que o primeiro-ministro tinha mesmo participado nestes encontros “comemorativos”. No Parlamento, a 12 de janeiro deste ano, Johnson admitiu pela primeira vez que, pelo menos numa ocasião (em maio de 2020), tinha estado presente numa “festa de jardim”: “Quero pedir desculpa. Sei que milhões de pessoas neste país fizeram sacrifícios extraordinários nos últimos 18 meses. (…) Sei que houve coisas que simplesmente não acertámos, e devo simplesmente assumir a responsabilidade. (…)”, acrescentou.

O chefe do Executivo considerou ainda que se tinha tratado de um “evento de trabalho” e que tinha lá permanecido 25 minutos mas, ao mesmo tempo, que a ”devia ter interrompido”.

Em maio deste ano, surgiram as imagens mais concludentes sobre as festas em Downing Street e a participação do primeiro-ministro britânico nestas. A estação televisiva ITV mostrou quatro fotografias em que Johnson aparece a discursar com um copo de espumante na mão, com outras garrafas de bebidas alcoólicas na mesa do espaço onde estava.

O convívio – promovido para assinalar a despedida do então seu diretor de comunicação - decorreu a 13 de novembro de 2020, enquanto o país estava confinado, e o primeiro-ministro nunca antes o admitira, apesar do partygate ter sido objeto de diversos debates parlamentares e perguntas por parte dos jornalistas. Inclusive, o primeiro-ministro fora mesmo questionado em concreto sobre esta festa, a 8 de dezembro de 2021, pela deputada trabalhista Catherine West, e respondeu desta forma: “Não, mas tenho certeza de que, aconteça o que acontecer, a orientação foi seguida e as regras foram seguidas o tempo todo”.

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