“Entra, meu amor, logo vem alguém te atender”, diz uma mulher ao receber-me no Centro de Ajuda à Mulher Latino-Americana num subúrbio da Cidade do México. “Bem-vinda, deixa eu te dar um abraço”, completa, com um beijo na bochecha.

Seu cumprimento é caloroso e condizente com a descrição da organização em sua divulgação no siteinterrumpir-embarazo.com”. Ali, o grupo se define como “um coletivo de mulheres que sabem o quão difícil é enfrentar uma gravidez indesejada”. E promete: “Te acompanhamos com segurança e discrição”.

O site insinua também que o centro pratica abortos. No topo da lista de serviços prestados consta o termo “ILE”, sigla em espanhol para “interrupção legal da gravidez”. No entanto, como descobri, isso é enganador.

Esse lugar na Cidade do México é parte de uma rede anti-aborto de “centros de gravidez em crise” (CPC, na sigla em inglês), apoiada por poderosos grupos conservadores cristãos dos Estados Unidos da América (EUA), ligados ao Governo de Donald Trump. Muitos se opõem até mesmo aos anti-concepcionais de última geração.

Numa investigação da openDemocracy em 18 países, repórteres que se fizeram passar por mulheres grávidas e vulneráveis receberam informações médicas incorretas - por exemplo, que o aborto aumenta significativamente os riscos de cancro e doenças mentais. Depois, foram pressionadas a seguir com a gravidez, independentemente de sua vontade.

Congressistas do México, Argentina e Equador pedem ações de resposta às revelações. Para elas, esses centros conseguem driblar as regras que regulam a assistência médica, uma vez que não é exigido que se registem como provedores de serviços de saúde. Mónica Macha, deputada da coligação do Governo argentino, afirma que não se deve “permitir que operem nas sombras” e que “é fundamental que a Justiça investigue o grau de legalidade das atividades”.

Repórteres que se fizeram passar por mulheres grávidas e vulneráveis receberam informações médicas incorretas - por exemplo, que o aborto aumenta significativamente os riscos de cancro e doenças mentais. Depois, foram pressionadas a seguir com a gravidez, independentemente de sua vontade.

No Equador, a presidente da Comissão de Justiça do Parlamento, Ximena Peña, diz que as descobertas “deveriam ser entregues às autoridades competentes para que se possa iniciar uma investigação”. Já a Secretária de Saúde da Cidade do México, Oliva López, afirma que o seu departamento “realiza ações de revisão, vigilância e monitoramento e, se for o caso, de sanção” desses centros.

Marta Lamas, professora da Universidade Nacional Autónoma do México e uma das feministas mais proeminentes do país, qualifica as descobertas como “realmente escandalosas”. Ela condena “toda a estratégia de aterrorizar” as mulheres “contando mentiras”.

“Não entendemos como, com tanta mentira, eles ainda têm permissão para funcionar”, complementa Ana María Camarillo, presidente da rede de direitos reprodutivos Coletivo de Associações para a Interrupção Legal da Gravidez (Camile). Por sua vez, a senadora Patricia Mercado, do partido mexicano de centro-esquerda Movimiento Ciudadano, acredita que esses centros estão “desonestamente se aproveitando de brechas na lei”, já que não estão sujeitos a controlo porque não é exigido que sejam registados como serviços de saúde.

“Mais que uma legislação”, Patricia pede políticas públicas para generalizar a informação e o acesso ao aborto.

Terror em um centro na capital mexicana

Na manhã de um dia de semana, fui a um centro no subúrbio da Cidade do México divulgado pelo siteinterrumpir-embarazo.com”. Na divulgação online não havia menção de sua agenda contra o aborto.

Sentada numa sala sem janelas com uma pequena cama improvisada e uma almofada, ouvi funcionários do centro garantirem, incorretamente, que três em cada 10 mulheres sofrem de complicações graves do aborto, como perfuração do útero ou do intestino, e mortes dolorosas (complicações graves de abortos seguros são, na verdade, extremamente raras).

Um “centro de gravidez em crise” na Cidade do México, onde o aborto é legal desde 2007.

A mulher que me atendeu disse, também incorretamente: “Você sabia que não te aceitariam em um hospital se você chegasse com uma hemorragia como consequência do procedimento?” Por lei, os hospitais públicos no México devem atender qualquer pessoa que chegue em uma sala de emergência.

Durante 50 minutos, ela mencionou meu companheiro e seu “direito de escolher” mais de 20 vezes, e inclusive me disse que precisaria do consentimento escrito dele ou de um familiar para conseguir um aborto legal (ao contrário, abortos por vontade da mulher são legais na Cidade do México durante as 12 primeiras semanas de gravidez).

A mesma mulher colocou cópias de supostos formulários de consentimento sobre a escrivaninha que nos separava. No papel, havia espaços para duas assinaturas. “Meu parceiro teria que assinar?”, perguntei. “Sim, precisa de um familiar ou alguém responsável”, ela me respondeu.

“Se seu intestino for perfurado ou se tiver dano no útero, se você tiver uma hemorragia que não se estanca, você estaria autorizando, junto com seu parceiro, se necessário, a retirada do seu útero”, continuou.

Dinheiro e conexões americanas

Durante os últimos nove meses, a openDemocracy trabalhou com jornalistas de 18 países de cinco continentes para entrar em contacto com filiais do grupo norte-americano Heartbeat International, com sede em Ohio. Essa organização comemorou os seus “novos amigos em Washington”, entre eles o vice-presidente Mike Pence, que já falou em alguns dos seus eventos.

A associação Heartbeat tem apoiado “centros de gravidez em crise” no mundo todo desde a sua fundação, no início dos anos 1970, em meio à onda de legalização do aborto em escala nacional nos EUA. Atualmente, há cerca de 2 mil desses grupos no país, onde são acusados de campanhas de desinformação.

Hoje, a Heartbeat possui também centenas de centros afiliados fora dos EUA, incluindo 70 apenas no México e muitos outros espalhados pela América Latina, onde mantém uma parceria com a rede regional Centros de Ajuda para a Mulher Latino-Americana (CAM).

A rede CAM foi fundada na década de 1980, após um ativista local ter assistido a uma conferência nos EUA organizada por outro grupo anti-aborto, o Human Life International (HLI), cujo fundador já qualificou os métodos contra-ceptivos como um “cancro moral”.

A Heartbeat doou à rede CAM, sediada no México, pelo menos 25 mil dólares norte-americanos desde 2015 para “treinamento, consultoria e apoio a nossos afiliados em comum”, segundo declarações tributárias do grupo nos EUA analisadas pela openDemocracy.

Já a HLI afirma que gastou cerca de 920 mil dólares na América Central e no Caribe entre 2008 e 2014, e mais de 230 mil dólares na América Latina entre 2015 e 2017. Não está claro quanto desse dinheiro foi destinado à rede CAM, mas o seu logotipo aparece com destaque na página principal do site do CAM, junto ao da Heartbeat.

Ambas as organizações têm conexões com um ex-funcionário do Governo de Trump, Scott Lloyd, afastado do seu cargo de diretor do departamento de cuidado a refugiados após a revelação de que ele manipulava solicitações de aborto feitas por migrantes adolescentes. Anteriormente, Lloyd havia feito parte da diretoria de uma filial da Heartbeat no Estado da Virgínia e fundado um escritório de advocacia cristão que funcionava na sede da HLI.

Em 2017, jornalistas de investigação norte-americanos revelaram que migrantes menores de idade que solicitavam um aborto enquanto estavam sob custódia federal na fronteira com o México eram direcionadas para centros de aconselhamento recomendados pela Heartbeat.

Ao redor do mundo, a investigação da openDemocracy encontrou muitos exemplos de propaganda enganadora e informação médica incorreta nos centros filiados à Heartbeat - incluindo sites e cartazes que não explicitam as suas posições contra o aborto.

Em quatro países da América Latina, as nossas repórteres também encontraram centros da rede CAM que miram especificamente mulheres em busca de serviços de aborto na Internet. Alguns se apresentam como grupos a favor do aborto ou, ainda, como prestadores de serviços de interrupção da gravidez.

Imagem da página "interrupir-embarazo.com" que promove um centro anti-aborto localizado num subúrbio da Cidade do México.

No Equador, um desses centros afirma no seu site: “Não deixe que sua vida mude. A decisão é sua”. O site parece oferecer o medicamento misoprostol para a realização de um aborto médico.

Na Costa Rica, outro centro se promove por meio de um site chamado “quieroabortarcr.com”. Já na Argentina, outro site disponibiliza seus contactos telefónicos através da URL “embarazoinesperado.com”.

“Por que você não quer ter o seu bebé?”

No Facebook, um segundo centro que visitei na Cidade do México exibe uma fotografia de uma médica com um estetoscópio em volta do pescoço e um jaleco, com a descrição: “Quem somos? Especialistas em aborto com medicamentos”. Sua posição contra o aborto é escondida na página, mas ficou evidente assim que visitei esse centro.

A mulher que me recebeu nesse segundo centro me perguntou quase de imediato sobre a minha religião e quis saber: “Por que você não quer ter o seu bebé?”. Apesar de se descrever no Facebook como “especialistas em aborto com medicamento”, o lugar não parecia em nada com uma clínica, e a pessoa com quem falei admitiu, quando indagada, que não tinha formação médica.

Ainda assim, me ofereceram um ultrassom como parte de seu “aconselhamento” contra o aborto e tratamento psicológico para a “síndrome pós-aborto” - uma “condição” que é refutada por organismos mundiais de saúde, pois não há sustentação científica.

Embora o centro não faça nenhuma referência na Internet às suas conexões internacionais, fui deixada sozinha numa sala para assistir a um vídeo em inglês com legendas em espanhol que descrevia como fazer um aborto poderia me matar.

Em toda a região, as repórteres do openDemocracy tiveram experiências similares em outros centros. Na Costa Rica, mostraram um vídeo diferente com narração em inglês à nossa repórter. Além disso, lhe disseram que um aborto poderia trazer riscos de infeções graves ou coágulos de sangue, paragem cardiorrespiratória e paralisia cerebral - ou, então, que ela não conseguiria mais controlar a sua raiva e a sua “vida se tornaria um inferno”.

A openDemocracy encontrou também dezenas desses centros dentro de hospitais públicos na Itália. Em um deles, a equipa também advertiu a repórter sobre a “síndrome pós-aborto” e disse que abortar pode causar cancro enquanto ter um bebé pode curar doenças graves como a leucemia.

A mulher que me recebeu nesse segundo centro me perguntou quase de imediato sobre a minha religião e quis saber: “Por que você não quer ter o seu bebé?”. Apesar de se descrever no Facebook como “especialistas em aborto com medicamento”, o lugar não parecia em nada com uma clínica, e a pessoa com quem falei admitiu, quando indagada, que não tinha formação médica.

Na Espanha, onde as únicas outras “clientes” que a nossa jornalista viu eram migrantes latino-americanas, ela recebeu uma cópia de um artigo que dizia que mulheres que fazem abortos são “144% mais propensas” a abusar fisicamente dos seus filhos.

Em resposta às perguntas da openDemocracy, a organização Heartbeat afirmou que “nós seguimos firmemente o nosso Compromisso de Cuidado”, que obriga os afiliados à exatidão das informações e propagandas. “Diferentes países têm suas culturas e diversas formas de se comunicar, mas segue sendo um facto que o aborto traz riscos para as mulheres”, defendeu a organização.

“Com amor e verdade, nosso objetivo é ajudar a clientela a entender o aborto de maneira mais completa para que possam tomar uma decisão realmente informada”, completou.

Na América Latina, a rede CAM não respondeu às perguntas, assim como seus centros afiliados na Argentina, Costa Rica, Equador e México. A HLI também se absteve de comentar.

A feminista mexicana Marta Lamas observa que as descobertas da openDemocracy “são a prova de algo que supúnhamos e que sabíamos que existia - uma campanha de mentiras e enganos dos grupos fundamentalistas de direita -, mas que nunca havíamos provado”.

“Estou muito impactada”, acrescenta.

“O problema dessas ‘clínicas’ é que elas omitem informações ou tergiversam”, afirma Regina Tamés, diretora executiva do Grupo de Información en Reproducción Elegida (Gire), do México. Isso é “enganar as mulheres, e não prover toda a informação necessária para tomar uma decisão responsável”.

Hillary Margolis, pesquisadora da Human Rights Watch, defende leis mais firmes contra a propaganda enganadora, assim como ação governamental para “combater os mitos sobre sexo, gravidez e direitos reprodutivos”.

“Toda a mulher, em qualquer parte, não importa o lugar ou a situação, merece o direito à informação exata”, afirmaram membros do Parlamento Europeu numa carta dirigida a comissárias europeias em que pedem uma “ação firme” em resposta a esta investigação.

O secretário do Fórum Parlamentar Europeu pelos Direitos Sexuais e Reprodutivos, Neil Datta, acrescenta que “todos os políticos deveriam estar muito preocupados com o facto de que as leis de seus países estão sendo burladas por meio de desinformação, manipulação e logro”, independentemente do que pensem sobre o aborto. “É um problema do Estado de direito”, conclui.

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Reportagem adicional por Diana Cariboni. Texto originalmente publicado em espanhol pelo site openDemocracy. Traduzido por Bárbara D’Osualdo. Edição em português de Natalia Viana.

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

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