São milhares as provas de que o governo britânico falsificou informações durante a Guerra Fria. Os documentos que o provam estão agora estão expostos no Arquivo Nacional do Reino Unido e são da responsabilidade do Departamento de Pesquisa e Informação (IRD na sigla original), uma entidade secreta que pertencia ao Ministério das Relações Exteriores e que estava responsável pela criação e divulgação de propaganda durante aquele período histórico.

Os arquivos remetem ao início da década de 60 do século XX, altura em que, segundo Paul Lashmar – um dos jornalistas que revelou a existência do IRD e autor do livro “A Guerra da Propaganda Secreta da Grã-Bretanha” –, o IRD estava no seu auge e contaria com 400 a 600 trabalhadores.

Além de cartazes e panfletos de propaganda, o IRD disseminava também informações falsas nos meios de comunicação internacionais. Um exemplo: a falsificação de um comunicado de imprensa da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), uma organização situada em Budapeste que tinha apoio comunista.  Aproveitando o facto de um grupo de estudantes africanos ter sido agredido na Bulgária, em 1963, o organismo de propaganda emitiu um comunicado em nome da FMJD em que afirmava que os africanos “emergindo da selva escura e da carência, não estavam equipados para compreender que a comida, o combustível e a roupa não se adquiriam livremente”. O comunicado foi enviado através da mala diplomática britânica – para que tivesse o carimbo postal certo – e chegou a ser publicado na íntegra pela agência de notícias de Zanzibar, causando revolta entre as populações dos países africanos.

Poster
Um cartaz falso fabricado pela unidade secreta de investigação e propaganda britânica

Também o Instituto Internacional para a Paz, situado em Viena, foi um dos alvos de falsificações por parte do IRD. Num dos cartazes publicado pelo instituto, o departamento secreto britânico substituiu a sigla “EUA” por caracteres chineses. Desta forma, o que fora criado como uma campanha nuclear anti-EUA passou a transmitir uma mensagem contra os chineses.

Entre os exemplos que agora estão expostos no Arquivo Nacional encontra-se também uma lista de nomes de jornalistas que seriam considerados de confiança para o IRD. Um dos nomes que figura na lista é Neal Ascherson, na altura um jovem repórter ao serviço do The Observer. O jornalista conta à BBC que foi apresentado ao IRD por Edward Crankshaw, um especialista soviético, e que o “levaram a um clube em Londres” para almoçar. “Depois de ter sido investigado e testado, recebi a newsletter do ‘produto’ da Europa Oriental”, explica. No entanto “muito rapidamente” se apercebeu que a informação que vinha nessa newsletter era “completamente inútil” e tinha “notícias antigas e obsoletas”, recorda.

comunicado
O comunicado falsificado pelos britânicos para desacreditar a Federação Mundial da Juventude Democrática, próxima dos comunistas

A rede de contactos do IRD era de tal forma vasta que um dos documentos falsos que tinha produzido chegou a circular entre líderes africanos. O departamento, que era financiado por fundos governamentais que não estavam sujeitos a escrutínio parlamentar, era também detentor de várias agências de informação que utilizava para difundir as notícias falsas.

A leste a máquina de desinformação estava bem oleada 

Se do lado britânico a máquina de propaganda apostava na distribuição de mentiras e documentos manipulados, também a União Soviética desenvolvia técnicas de proliferação de informações falsas com o objetivo enfraquecer o inimigo.

operação final

O documentário “Operation Infektion”, produzido recentemente pelo The New York Times, identifica os sete mandamentos que o Departamento da Desinformação do KGB utilizava nos tempos da Guerra Fria:

1 – Procurar as divisões sociais onde elas possam existir.

2 - Inventar uma grande mentira.

3 – Dar-lhe um elemento de verdade, de forma a que a história se torne verosímil.

4 – Limpar as mãos do assunto.

5 - Usar a figura do idiota útil.

6 – Negar sempre.

7 – Jogar no longo prazo.

A primeira mentira criada pelos russos e que atingiu uma escala global foi publicada em julho de 1983, pelo jornal “The Patriot”: “A SIDA, a fatal e misteriosa doença que tem destroçado os EUA, pode ser o resultado de experiências do Pentágono para desenvolver novas e perigosas armas biológicas”. A notícia tinha como objetivo criar alarme social e chegava a citar dois “cientistas” que afirmavam ter provas de que o vírus tinha sido criado num laboratório da CIA.

fake news

Mas este não foi um exemplo único: notícias que acusavam a CIA de ter sido responsável pelo assassinato de John Kennedy e pela tentativa de homicídio do Papa João Paulo II ou que afirmavam que os norte-americanos ricos mandavam raptar crianças pobres na América Latina para lhes retirar os órgãos para transplantes, foram divulgadas por todo o mundo.

O documentário do New York Times alerta para a dificuldade de “contrariar a desinformação” e para o perigo de esta não ser “levada a sério”, numa referência à posição assumida por Donald Trump. A luta contra a desinformação tem sido um marco na história dos Estados Unidos. O antigo presidente norte-americano Ronald Reagan chegou mesmo a criar os “esquadrões da verdade”, numa tentativa de combater as mentiras, mas depressa se apercebeu que o efeito da repetição – imposto pelo sétimo mandamento das Fake News: “Jogar a longo prazo” – faz com que as mentiras sobrevivam anos sem fim.

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