O dia em que se formou a corrente humana não foi escolhido por acaso: a 23 de agosto de 1989 passavam exatamente 50 anos desde a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, ou Pacto de Não Agressão Germano-Soviético, entre a Alemanha Nazista liderada por Adolf Hitler e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) liderada por Josef Stalin, que abriu o caminho para a anexação dos três países bálticos pela URSS em 1940.

“A invasão foi seguida por repressões muito fortes e deixou uma marca muito grande de anti-comunismo e anti-URSS”, sublinha José Milhazes, que viveu na Rússia entre entre 1977 e 2015, acrescentando que “as três repúblicas encontravam-se numa posição muito idêntica face a Moscovo”. 

Nesse contexto, a corrente humana foi uma forma de “exigir justiça histórica”, rejeitando a ocupação soviética. “O protesto era também uma maneira de dizer que ‘nunca ninguém nos perguntou se queríamos fazer parte da URSS’”, considera Milhazes, recordando também que vários países, incluindo Portugal, “nunca reconheceram esta integração”.

Na Estónia, por exemplo, esse sentimento anti-soviético foi demonstrado com o regresso dos cantos populares que se tornaram uma “arma” da resistência. “Nas manifestações, as pessoas começaram a cantar músicas proibidas por Moscovo que falavam da beleza do país, da força do povo”, relata Milhazes. Aliás, um desses cânticos acabou por se tornar no atual hino nacional do país. 

Segundo Milhazes, “a cadeia solidária do Báltico tem origem na política seguida por Mikhail Gorbachev que abre a URSS a transformações democráticas”. À medida que esse processo avança “vão-se revelando problemas antigos que existiam dentro da própria União Soviética. Um deles era a questão das três repúblicas soviéticas do Báltico, cujas populações tinham começado a despertar para a independência”.

Ainda assim, inicialmente, os movimentos de protesto exigiam apenas uma relativa autonomia económica em relação a Moscovo. A reivindicação da independência surgiu mais tarde. Ao realizar a corrente humana procurava-se evitar qualquer acto de violência que pudesse originar uma retalização por parte de Moscovo, como já acontecera na Geórgia. “Aquelas pessoas reuniram-se naquele cordão para dizer que queriam a independência de forma pacífica”, sublinha, classificando o evento como “um sinal de esperança”.

A par da Queda do Muro de Berlim (9 de novembro de 1989) ou da guerra de Nagorno-Karabakh (1988-1994), Milhazes destaca a corrente humana dos países bálticos como um dos principais acontecimentos que levaram à dissolução da URSS. O último chefe de Estado soviético “perdeu o direção das reformas porque estas começaram a andar demasiado rápido. Gorbachev abriu a caixa de Pandora e deixou de a controlar”, salienta, recordando que “nessa altura, toda a Europa de Leste estava a libertar-se da influência da URSS”.

No dia 6 de setembro de 1991, a independência dos três países bálticos foi oficialmente reconhecida, poucos dias depois de uma tentativa de golpe de Estado contra Gorbachev, organizado por comunistas da linha dura, sem sucesso. A 25 de dezembro desse mesmo ano, Gorbachev declarou o fim da URSS e a bandeira soviética foi retirada do Kremlin. No último dia do ano, a dissolução tornou-se efetiva e a Federação Russa foi formalmente estabelecida a 1 de janeiro de 1992.

As repúblicas do Báltico provocaram um “efeito de bola de neve” fundamental para o fim do regime que durou 69 anos. Poderão servir de exemplo para a Europa da atualidade? “Estamos a entrar numa fase posições que não só são extremadas, como podem vir a tornar-se violentas. Neste sentido, este cordão de solidariedade é um exemplo de como os países europeus podem dar as mãos pela resolução dos problemas através de métodos pacíficos”, defende Milhazes.

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network