O ritual repete-se todos os dias. Assim que as aulas terminam, Guilherme, de 11 anos, apressa-se a arrumar a mochila e corre para casa. Se os avós não tentarem impedi-lo – por norma os pais estão a trabalhar a essa hora –, fecha-se imediatamente no quarto e liga a playstation. Fica a jogar até anoitecer e não parece importar-se com mais nada: não liga aos trabalhos de casa, nem à aproximação de testes escolares. “Quando alguém tenta convencê-lo a desligar o jogo e a ocupar-se com outra actividade, torna-se agressivo. Dá pontapés nas portas e grita com a mãe”, conta Francisca Dias, mãe de Filipe, um dos colegas de turma de Guilherme.

Muitas vezes, os dois entretêm-se com os videojogos, competindo um com o outro através da Internet. “Neste momento, estão fascinados com o Fortnite, um jogo muito atractivo visualmente”, conta Francisca, que impôs regras de utilização ao filho, assim que começou a perceber que chorava se lhe tirassem os comandos e desligassem o aparelho. “Não joga durante a semana e ao fim-de-semana só liga a PS4 com autorização. Ainda assim, estou preocupada. Os miúdos destas idades passam muito tempo em frente ao ecrã e alguns, como o Guilherme, parecem estar já viciados.”

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O fenómeno parece começar cada vez mais cedo. É comum ver-se crianças de 8/9 anos – algumas até antes – a usar videojogos com regularidade. A maioria não terá problemas de adição, dizem os especialistas, mas não há dados sobre o problema. “Os estudos sobre dependência contemplam adolescentes com 13 ou mais anos”, explica Graça Vilar, directora de serviços de planeamento e intervenção do SICAD – Serviço de Intervenção nos Comportamentos e nas Dependências. De acordo com um estudo de 2015, realizado em Portugal, aos 13 anos 20% dos adolescentes participa, quatro ou mais vezes por semana, em jogos online que não envolvem dinheiro.

Uma condição patológica reconhecida pela OMS

Confrontada com o problema, que em alguns casos pode adquirir uma dimensão patológica, em Junho, a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu, pela primeira vez, a dependência de videojogos, no manual de Classificação Internacional de Doenças, considerando-a uma adição. Segundo a OMS, é provável que se esteja perante um quadro de dependência quando há um uso pouco controlado do jogo, quer na frequência, quer na intensidade de utilização. Mas mais relevante ainda é a importância que se lhe dá: um viciado tem no jogo o seu principal interesse, colocando em segundo lugar todas as outras actividades do quotidiano, sejam sociais, familiares, escolares ou profissionais. “São pessoas que se isolam, descurando o cuidado com a própria higiene e saúde”, diz Graça Vilar.

Segundo a OMS, é provável que se esteja perante um quadro de dependência quando há um uso pouco controlado do jogo, quer na frequência, quer na intensidade de utilização.

Em muitos casos de dependência grave, os primeiros sinais de alerta remontam precisamente ao período entre a infância e a adolescência. Foi o que aconteceu a Vera, de 36 anos, que desde cedo se habituou a jogar. “Quando emigrei com os meus pais para Inglaterra, aos 12 anos, os videojogos tornaram-se um escape, uma forma de me proteger do mundo. Não fazia desporto e ficava em casa a jogar”, conta. Mais tarde, aos 17 anos voltou sozinha para Portugal e foi aí que a situação se agravou. “Ficava noites e noites a jogar playstation, com o meu namorado. Criámos depois um grupo com mais 15 amigos e fazíamos torneios nocturnos, às vezes a dinheiro. Para nos mantermos acordados e com energia, consumíamos cocaína.”

"Quando emigrei com os meus pais para Inglaterra, aos 12 anos, os videojogos tornaram-se um escape, uma forma de me proteger do mundo", conta Vera, de 36 anos
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Rita Morais, psicóloga clínica do centro Villa Ramadas, onde Vera está neste momento em tratamento, explica que é comum que ao vício do jogo se juntem consumos de álcool e drogas. As estatísticas atestam-no: segundo dados de 2016/2017, em Portugal 27,6% dos jogadores abusivos e patológicos (a dinheiro) consume álcool e 7,8% utiliza drogas. Foi esta junção de dependências que levou Vera a pedir ajuda. “Em Agosto, quase morri num acidente de viação, por causa da droga e do álcool, e decidi que tinha de mudar de vida”.

"Ficava noites e noites a jogar playstation, com o meu namorado. Criámos depois um grupo com mais 15 amigos e fazíamos torneios nocturnos, às vezes a dinheiro. Para nos mantermos acordados e com energia, consumíamos cocaína"

Para a recuperação destes pacientes – diz Rita Morais – é fundamental perceber os motivos por detrás do vício. “Há sempre um problema associado, que tanto pode ser bullying, como um divórcio dos pais ou um caso de luto não resolvido,” diz a especialista, sublinhando que a dependência não se explica apenas por uma variável. Três meses depois de ter começado a reabilitação, Vera diz estar mais consciente dos vícios. “Consigo verbalizar tudo o que fiz ao longo destes anos. Sei que não quero voltar a consumir, nem a jogar, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer.”