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Seis mitos sobre as alterações climáticas que continuam a gerar desinformação

A 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP28) teve lugar entre 30 de novembro e 13 de dezembro de 2023, no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e terminou com um consenso sobre as próximas etapas, à escala global, para a preservação do planeta. E, em pleno 2024, poderíamos questionar a importância de uma conferência desta natureza. Será mesmo necessária? Diariamente circula nas redes sociais desinformação sobre as alterações climáticas e as teorias negacionistas também proliferam, por isso, o Polígrafo verifica seis mitos sobre o tema.

1. O clima da Terra sempre mudou e agora não é diferente

É verdade que o clima da Terra está constantemente a mudar, mas no último século verificou-se um aumento extremo da velocidade a que estas mudanças estão a ocorrer, isto em comparação com o tempo considerado normal para se sucederem.

Segundo o Relatório Síntese do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) divulgado em 2023, que resume todos os relatórios do 6.º Ciclo de Avaliação publicados entre 2018 e 2023 e é produzido por um vasto grupo internacional de cientistas sob a égide das Nações Unidas, para se limitar o aquecimento a 1,5 ou dois graus, “exige-se reduções rápidas, profundas e sustentadas em todos os sectores”

A temperatura média do planeta e a concentração de dióxido de carbono (CO2) variam ao longo do tempo, mas é importante perceber que há uma diferença entre esses ciclos naturais e o aquecimento súbito no planeta ao longo do último século, que pode ser explicado pelo aumento notável da queima de combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural ou carvão mineral.

Em outros períodos, como no Pliocénico (há 3,3 milhões de anos) em que a a concentração de dióxido de carbono (CO2) pode ter chegado a 450 partes por milhão (ppm) e a temperatura média pode ter sido 3°C mais elevada do que no início da Revolução Industrial, ou no período Triássico, em que a temperatura da Terra chegou a ser 7ºC mais alta do que no período pré-industrial, a mudança climática foi sempre gradual, não se comparando com a que vivemos atualmente.

2. Nós não podemos provar que os humanos estão a provocar alterações climáticas

Esta afirmação é falsa, porque nós podemos, de facto, comprovar que o Homem é o maior responsável pelas alterações bruscas que se observaram no nosso clima, através de estudos que provam que estas devem-se ao aumento da libertação de gases para a atmosfera provenientes, principalmente, da queima de carvão e combustíveis fósseis que aumentaram abruptamente durante a Revolução Industrial.

Várias organizações científicas já compilaram registos de temperatura e CO2 que evidenciam que a atividade humana é, de facto, o maior motor das alterações climáticas.

Um estudo publicado pela NASA em 2021, no jornal Geophysical Research Letters, identificou pela primeira vez o grau de responsabilidade da atividade humana no aquecimento global.

“Os nossos resultados mostram que as ações humanas estão a alterar diretamente o equilíbrio energético da Terra. É a confirmação das observações de que a atividade humana está a conduzir às alterações climáticas”, indicou Ryan Kramer, co-autor do estudo à cadeia de televisão FOX Television Stations. 

3. As pessoas, animais e plantas vão adaptar-se às alterações climáticas

É verdade que os seres humanos, as plantas e os animais evoluem com objetivo de se adaptarem às mudanças que ocorrem no ambiente, porém existem limites para esta mesma evolução, nomeadamente a velocidade a que esta se dá.

Como consequência das alterações climáticas, existe destruição de habitats e impossibilidade dos seres se adaptarem tão rapidamente. Por esse motivo, há cada vez mais espécies de animais e plantas a ser classificados em vias de extinção por diversos estudos.

“A taxa de extinção de espécies está a acelerar, com graves impactos na população em todo o mundo”, alertou um relatório da Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) em 2019.

De acordo com Robert Watson, antigo presidente do IPBES, “a saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependemos está a deteriorar-se mais rapidamente do que nunca” e “estamos a desgastar os próprios alicerces das nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”.

4. Não há nada que possamos fazer sobre as alterações climáticas, então porquê incomodarmo-nos

Esta afirmação está errada. Podemos tomar medidas eficazes para enfrentar as alterações climáticas. De acordo com o Relatório Sínteses do IPCC, é possível limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus Celsius (o documento destaca, inclusive, cinco estratégias principais para atingir esse objetivo).

Embora tenhamos que, inevitavelmente, lidar com temperaturas mais elevadas ao longo dos próximos anos, agir agora poderá minimizar as consequências futuras e garantir a preservação de um planeta habitável.

Tal como frisam os especialistas, é urgente reduzir as contínuas emissões de gases de efeito de estufa para limitarmos consequências futuras. 

5. Nevões e recordes de temperaturas baixas provam que o aquecimento global é uma farsa

Nos dias de hoje ainda testemunhamos muitas pessoas que face a invernos cada vez mais frios questionam se o aquecimento global é real. Um desses exemplos foi no ano de 2019, quando os EUA ultrapassavam uma enorme vaga de frio e Donald Trump, na altura presidente dos EUA, fez um post no Twitter questionando o que teria acontecido com o aquecimento global. 

O tweet gerou polémica e fez muitas pessoas duvidarem da existência do aquecimento global. Porém, nesse mesmo ano, registou-se na Austrália o verão mais quente e seco de sempre, com temperaturas 2,1ºC acima do previsto.

Num clima considerado equilibrado, o número de registos de temperaturas máximas e mínimas tende a ser semelhante, porém verificam-se cada vez mais picos de calor do que de frio.

Ainda assim, o tempo frio em determinadas zonas do mundo não prova um arrefecimento global, visto que, além de o aquecimento global estar cientificamente provado, há outros fenómenos e processos que provocam a descida de temperatura de uma determinada região.

Além disso, os dados da Organização Meteorológica Mundial mostram que “2011-2020 foi a década mais quente já registada”.

6. Os cientistas não acreditam nas alterações climáticas

De acordo com um estudo publicado pela IOP Publishing, mais de 99% dos cientistas estão de acordo com o facto de que as alterações climáticas existem e se devem à ação humana, estabelecendo-se assim um consenso científico que não deixa dúvidas sobre a existência das alterações climáticas.

O consenso científico é claro quanto ao facto de que o grande responsável é a queima de combustíveis fósseis que têm feito subir perigosamente o termómetro global.

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<em>Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.</em>

*Texto editado por Marta Ferreira.

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