Na próxima terça-feira Jair Bolsonaro toma posse como 38º presidente do Brasil. Cinquenta e oito milhões de brasileiros votaram num candidato anti-democrático que defende, entre outras coisas, a castração química ou a reintrodução da pena de morte e que já deu provas públicas de que é um fundamentalista homofóbico e um fervoroso praticante da  misoginia.

Apesar destas excentricidades, Bolsonaro foi eleito democraticamente. Estranho? Nem por isso. Os brasileiros, povo alegre e humilde, não elegeram um homem que nos transporta à idade das trevas porque acreditam em ideias neo-fascistas, porque odeiam as minorias sexuais ou porque gostam de maltratar mulheres ao pequeno-almoço. Não. Os brasileiros e as brasileiras (52,5% dos votantes são do sexo feminino) escolheram Bolsonaro porque estão cansados. Cansados dos políticos que têm. Da corrupção que os delapida. Das promessas tantas vezes feitas e quase sempre incumpridas. Da violência que lhes leva os filhos e os netos. E da mentira. Da mentira.

A vitória de Bolsonaro é a derrota da mentira, porque tem sido ela o combustível que alimenta a política brasileira há várias décadas, gerando um fosso tremendo entre eleitos e eleitores. Está nos livros: o homem tem horror ao vazio. Quando há fossos, quando há espaços em branco, eles acabam sempre por ser ocupados. Bolsonaro ocupou esse enorme território – tão grande que couberam lá mais de meia centena de milhões de votos.

A mentira é o cemitério das democracias porque gera descrença entre os eleitores. E a descrença gera apatia, que inefavelmente resulta numa embriaguez intelectual coletiva que, anestesiando as populações, as inibe de tomar decisões informadas. Foi isso que aconteceu no Brasil com Bolsonaro. Foi também isso, embora com outras nuances e matizes, que sucedeu nos Estados Unidos com Donald Trump. Será também isso que, mais tarde ou mais cedo (eu diria mais cedo do que tarde) acontecerá numa Europa despida de convicções – as próximas eleições europeias, em Maio, serão um bom barómetro para saber onde nos situamos.

Não se pense, porém, que a “culpa” da desconfiança dos cidadãos relativamente ao “sistema” é só dos políticos. Não. Porque o “sistema” é muito mais do que isso. Estende-se a todos os que assumem um compromisso de verdade com quem os elege, vê, ouve ou lê e que frequentemente manipulam, manobram e faltam à verdade (um eufemismo simpático criado pela pós-modernidade linguística para designar uma coisa feia chamada mentira).

Os políticos não são os únicos que têm um compromisso com a população. Todos os que se movimentam no espaço público o têm. A diferença é que os primeiros o formalizaram através de um programa eleitoral e os segundos têm um contrato que, sendo informal, não tem menos relevância. Quando, todos os domingos, o senhor Silva ouve Marques Mendes a falar no seu programa semanal, parte do princípio de que o que ele está a dizer é verdade. E isso, não tenhamos dúvidas, é um contrato.

O facto de estes dois contratos serem repetidamente violados (e neste particular não me refiro a Marques Mendes, que até considero um dos mais cuidadosos comentadores portugueses) é seguramente uma das explicações mais musculadas para a fragilização das democracias. As pessoas precisam de alguém em quem acreditar porque, uma vez mais, têm medo do vazio.

É por isso que o jornalismo tem a importância que tem – e, neste particular, o jornalismo de fact-checking tem vindo a assumir protagonismo em todo o mundo, com cerca de 140 projetos em funcionamento neste momento.

Só com um jornalismo vigilante – não confundir com militante – podemos fazer com que políticos, comentadores, influenciadores e restantes figuras que têm contratos formais ou informais com a população tenham mais cuidado na hora em que falam ou escrevem. Porque aquilo que dizem forma opinião – e essa é uma enorme responsabilidade.

O jornalismo de fact-checking é hoje a área mais fervilhante em termos de investigação académica. Todos os estudos disponíveis apontam no mesmo sentido: quanto mais escrutinados são os agentes que se movem na esfera mediática, mais rigorosos tendem a ser – a menos que se chamem Donald Trump e façam da mentira um modo de sobrevivência.

Este exercício, se praticado com responsabilidade, resulta no elevar do nível do debate no espaço público e, no limite, numa oxigenação da democracia. Se Marques Mendes ou Sousa Tavares, para referir apenas os nomes mais visíveis, souberem que, no segundo em que falam, há um jornal (ou vários) que está a verificar em tempo real a veracidade das suas opiniões, terão seguramente mais cuidado com o rigor. Já sentimos isso aqui no Polígrafo. Depois de terem sido alvo de um fact-check, as pessoas tornam-se mais cautelosas. Nos corredores da Assembleia da República os deputados já trocam avisos sobre a possibilidade de as suas declarações serem analisadas pela redação do Polígrafo. E isso é bom. Para nós, porque dá sentido ao nosso trabalho, mas também para a democracia portuguesa, porque a torna mais respirável.

 E agora nós, Daniel

Vem isto a propósito de um fact-checking que o Polígrafo fez de uma afirmação que o comentador e ativista político Daniel Oliveira fez na última edição do programa Eixo do Mal, na SIC-Notícias.

Teorizando sobre as dificuldades óbvias que Rui Rio experimenta na liderança do PSD, Oliveira garantiu, com uma razoável dose de absolutismo opinativo, que as sondagens dão Rio abaixo dos 20% nas intenções de voto. A seu lado, Pedro Marques Lopes ainda esboçou uma tentativa de reação, imediatamente atropelada pelas certezas de Daniel. Se Marques Lopes, homem informado, se calou perante tanta autoridade, imaginemos os espectadores em casa, que obviamente tomaram a informação como verdadeira.

Ora, não é verdade que “as sondagens” apresentem Rui Rio abaixo dos 20%. Nenhuma das que foram publicadas até agora o fez. Como não podia deixar de acontecer, realizei o fact-checking da informação. E Daniel Oliveira, em vez de corrigir publicamente o que afirmou (viria a reconhecer mais tarde na sua página do Facebook que esteve mal ao mencionar uma sondagem que não leu, sobre a qual apenas ouvira falar), decidiu dirigir-me esta manhã uma mensagem privada a indignar-se por ter sido eu a assinar o texto. Afinal, o facto de termos tido uma pega – vamos chamar-lhe assim – depois de ele ter questionado a minha honestidade a propósito de um  trabalho que publiquei na Sábado sobre um amigo seu, inibia-me de escrever o que quer que fosse sobre si. Estranho que não tenha reagido da mesma forma quando, há poucos dias, publicámos um fact-check que o defendeu de uma manipulação grosseira das suas palavras que estava a ser feita por uns senhores ligados à extrema-direita.

Daniel Oliveira é o Cavaco Silva do comentário político nacional. Durante décadas, Cavaco tentou convencer os portugueses – com notável sucesso, diga-se – de que não era um político profissional. Na verdade, era um professor universitário que cumpria o “dever patriótico” de servir o país. A mentira – a maior da história política nacional dos últimos 30 anos - foi tantas vezes repetida que acabou por se tornar numa evidência incontestada.

Daniel Oliveira também anda há anos a tentar convencer os seus leitores, ouvintes e telespectadores de que é jornalista. Não é. Já não é há muito. Oliveira trabalhou em jornais, sim, mas é estruturalmente um ativista político. Militou na Juventude Comunista Portuguesa. Fundou, com Pina Moura, José Luís Judas e Miguel Portas, entre outros, a Plataforma de Esquerda, de que foi dirigente. Fundou, depois disso, a Política XXI, que depois, juntamente com outros movimentos de extrema-esquerda, viria a dar origem ao Bloco de Esquerda.

Ainda me recordo dos seus tempos como diligente assessor de imprensa - assessor, aquele senhor que é frequentemente encarado pelos jornalistas como sendo uma espécie de “inimigo”, por apenas veicular as posições de quem lhe paga o salário - do BE a fazer maratonas de spinning (exercício que não abandonou, mesmo depois de sair do partido) entre os repórteres que acompanhavam a esquerda radical. Ao contrário do que aconteceu com Jorge Costa, também ex-assessor de imprensa do BE, não foi a deputado, mas ainda desempenhou várias funções dirigentes no partido.

Depois do BE, onde as suas ideias foram rejeitadas em detrimento das de João Semedo e Catarina Martins (com o sucesso que todos conhecemos), Oliveira nunca deixou de estar envolvido na ação política - o que não é mau nem bom, é o que é.

Nada tenho que ver com as escolhas que Daniel Oliveira faz para a sua vida. Onde entro, enquanto jornalista, é no momento em que essas opções têm relevância pública. Se reconhecesse Daniel Oliveira enquanto jornalista, ele nunca seria verificado pelo Polígrafo porque aqui não verificamos jornalistas – verificamos protagonistas, o que é bem diferente. E Daniel é um deles – não é o mais relevante, o mais influente nem o mais decisivo, mas consta do lote de figuras que escolhemos acompanhar. Hoje, em resposta à sua indignação matinal, disse-lhe duas coisas:

1 – Que não é importante ao ponto de condicionar as minhas escolhas editoriais.

2 – Que o tempo em que podia dizer o que quisesse sem que ninguém fosse verificar se estava a romper o contrato com quem o lê, vê e ouve, acabou. E que se habitue.

Que se habituem todos.

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