Órla Ryan, jornalista e fact-checker no jornal irlândes "The Journal" escreveu um fact check em setembro de 2020 a desmentir alegações sobre mortes relacionadas com a Covid-19. Ryan esperava mitigar a desinformação em torno deste tema, mas não contava com a visita de um grupo de negacionistas mesmo à porta do edifício onde trabalha. "Reuniram-se em frente ao nosso escritório, em Dublin. Gritaram insultos sobre nós, sobre o nosso trabalho", conta.

Neste caso, o autor da falsidade que Órla desmentiu, tinha vários seguidores nas redes sociais, o que terá levado a um protesto organizado. Num vídeo filmado durante a manifestação, o indivíduo e autor do fact check tenta defender-se: "Eu não disse que tinham morrido apenas 100 pessoas. O que disse foi que apenas 100 pessoas tinham morrido unicamente de Covid-19. E eu não sei qual é a parte que eles não conseguem compreender, mas estas pessoas não parecem ter mais de 100 pontos de QI."

Fotografia do protesto à frente da redação do "The Journal"

Mas o grupo não se lembrou de que os jornalistas poderiam estar em teletrabalho. "Estávamos todos a trabalhar remotamente na altura. Ninguém estava no prédio", diz Ryan.

A desinformação propagada desde que o novo coronavírus foi identificado na China, em dezembro de 2019, foi tal que a Organização Mundial de Saúde (OMS) a caracterizou como uma "infodemia". A "International Fact-Checking Network" (IFCN), organização que certifica os melhores projetos mundiais de fact-checking, optou mesmo pela criação da "CoronaVirusFactsAlliance", com o objetivo de combater a desinformação sobre a Covid-19.

A pandemia trouxe não só um aumento considerável de volume de trabalho para os fact-checkers mas também um aumento das situações de assédio. "A manifestação foi a propósito de uma verificação de fatos que escrevi a desmentir uma alegação sobre as mortes por Covid-19. Fotos minhas e de um colega foram partilhadas nas redes sociais e as pessoas insultaram-nos com nomes como 'bitch' e 'cunt'. Uma pessoa disse que esperava que acabassem comigo. Não levei isso a sério, mas não foi agradável de se ler", refere Ryan.

"As pessoas podem contactar-nos de forma fácil e anónima, com elogios, insultos ou ameaças. Pessoas com grande número de seguidores encorajam frequentemente outras a atacar fact-checkers com insultos online".

Há muitos jornais de fact-checking (e não só) que partilham as fotografias e mesmo as redes sociais dos jornalistas, o que facilita perseguições e ataques online. "Se o nome de um verificador de factos, endereço de email e endereço do Twitter estiverem no final de um artigo, como é o caso da maioria dos verificadores de fatos no 'The Journal', podem ser contactados facilmente. As nossas fotos também costumam ser visíveis. As pessoas podem contactar-nos de forma fácil e anónima, com elogios, insultos ou ameaças. Pessoas com grande número de seguidores encorajam frequentemente outras a atacar fact-checkers com insultos online", desabafa a jornalista.

Cristina Tardáguila, fundadora da plataforma de fact-checking "Agência Lupa" e ex-diretora adjunta da "International Fact-Checking Network" (IFCN), conta como em 2018 foi alvo de ameaças de morte, depois de assinar o contrato com o Facebook para verificar informações naquela rede social. "Houve três grandes episódios de muito ódio e muito ataque. Em maio de 2018 eu já estava com a agência Lupa aberta, já tínhamos 15 pessoas, e o Facebook lançou no Brasil o 'third-party' e foi a primeira vez na vida que recebi ameaças de morte", admite.

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"As pessoas entenderam que era um programa para um tipo de censura privada e que a Lupa estaria a receber do Facebook para fazer isso. Naquela altura o Brasil já estava muito quente com a polarização política e vieram ataques e ameaças de todos os lados", afirma.

Anualmente, os jornais de fact-checking que estão certificados pela IFCN são objeto de uma auditoria que visa garantir que continuam a cumprir o seu Código de Princípios, que conta com cinco pilares fundamentais: o compromisso com o apartidarismo e a justiça, a transparência de fontes, a transparência do financiamento e da organização, a transparência da metodologia e uma política de correções aberta e honesta.

A sua importância, diz Tardáguila, é inquestionável. "Já achava fundamental em 2016 porque foi o boom do fact-checking, e todos estavam a fazê-lo sem muita ordem, sem muita ciência e sem muito cuidado. Virou moda, e os verificadores de factos profissionais ficaram preocupados com isso e quiseram mostrar claramente o que é um bom fact-checker. Hoje em dia, além disso, temos a necessidade de explicar para a população como se faz e isso está explícito no nosso código de ética. É um ingrediente de transparência. Costumo dizer que o código de ética da IFCN é o contrato que os fact-checkers fazem com a audiência", destaca.

Mas quais são os temas que geram mais ódio? No caso do Brasil, a política: "Em agosto começou a campanha eleitoral e foi uma loucura. Tínhamos um candidato preso, o Lula, e um candidato esfaqueado, o Bolsonaro. A quantidade de ameaças foi tão grande que das 15 pessoas que eu liderava, seis estavam ameaçadas de morte."

"Em agosto começou a campanha eleitoral e foi uma loucura. Tínhamos um candidato preso, o Lula, e um candidato esfaqueado, o Bolsonaro. A quantidade de ameaças foi tão grande que das 15 pessoas que eu liderava, seis estavam ameaçadas de morte".

"Ninguém nos ensina a lidar com estas situações. A Lupa fica no Rio de Janeiro e qualquer tentativa de assalto ficamos com medo de ser algo relacionado com o trabalho. Foram muitos ataques à nossa credibilidade, leaks de endereços, invasões de site, tentativas de roubo de passwords", descreve.

As eleições no Brasil ficaram marcadas, à semelhança dos Estados Unidos, pelo fenómeno das fake news. Numa entrevista ao Polígrafo de dezembro de 2018, Tardáguila contava como a Lupa verificou mais de 850 frases ditas por 64 políticos durante a campanha eleitoral e que só no último fim de semana detetaram 50 fake news em apenas 48 horas.

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"Como boa fact-checker, eu devia falar com base em dados, mas acredito que o tema da pandemia foi bem menos motivo de ataque do que a política. Apesar de o volume de trabalho de temas de saúde ter sido muito grande, acho que enfrentámos menos ódio. As eleições são para os fact-checkers os Jogos Olímpicos”, brinca.

Laura Zommer, diretora-executiva do jornal argentino "Chequeado", toca num ponto fundamental: os insultos dirigidos às mulheres têm um cariz muito distinto daqueles que são dirigidos aos homens.

"Os insultos dirigidos às mulheres são muito diferentes daqueles dirigidos aos homens. Não são necessariamente sobre o nosso trabalho, são ataques misóginos".

"Um dos ataques que me lembro vividamente foi uma espécie de meme que utilizou a minha fotografia e adicionou elementos de teor sexual. A imagem foi partilhada no Twitter com insultos nessa linha. Os insultos dirigidos às mulheres são muito diferentes daqueles dirigidos aos homens. Não são necessariamente sobre o nosso trabalho, são ataques misóginos", lamenta.

Da esquerda para a direita: Cristina Tardáguila, Laura Zommer, Órla Ryan e Thanos Sitistas
Da esquerda para a direita: Cristina Tardáguila, Laura Zommer, Órla Ryan e Thanos Sitistas

Se para uma jornalista experiente não é fácil lidar com assédio, mais difícil é para os jornalistas que acabaram de começar. "O que mais me preocupa não é quando me atacam a mim, diretora-executiva, que tenho 25 anos de profissão, mas sim a minha equipa, que não são necessariamente pessoas com muita experiência. Obviamente que isto me faz sentir preocupada, e não tenho muitas ferramentas para os ajudar. Não gosto de dizer que faz parte do trabalho, porque não devia fazer", conclui Zommer.

Thanos Sitistas, jornalista no jornal de fact-checking grego "Ellinika Hoaxes", explica que a pandemia foi dos tópicos que mais motivou insultos. Mas não é o único tema controverso: "A Grécia, dada a sua localização, tem muita desinformação a respeito da imigração. Neste tópico em específico, notícias falsas assumem a forma de discurso de ódio e podem se tornar muito perigosas."

Em 178 países, a Grécia posiciona-se no 70º lugar no índice anual de liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras. Além disso, de acordo com a lei grega, as queixas por difamação podem resultar em prisão preventiva. "A prisão preventiva é uma possibilidade, embora isso aconteça muito raramente. Recebemos muitos processos judiciais, mas nunca fomos presos. No entanto, é verdade que, em comparação com países que têm leis muito protetoras em relação à liberdade de expressão e de imprensa, a Grécia ainda tem muito para melhorar", indica.

Questionados sobre se alguma vez pensaram em desistir, todos os fact-checkers que o Polígrafo ouviu foram unânimes: "Nunca."

O caso mais recente, conta o jornalista, foi uma batalha legal com o "Official Union of Physicists" da Grécia, que "foi invadido por indivíduos que ocasionalmente promovem ideias pseudocientíficas". Após um fact check sobre um dispositivo de energia livre promovido pela entidade, o "Ellinika Hoaxes" recebeu um processo de difamação exigindo até 700 mil euros de indemnização. "Decidimos seguir com o processo e o tribunal decidiu que não éramos culpados. Foi uma vitória relativamente grande para nós, mas não foi de forma alguma a única ameaça que enfrentámos", sublinha.

Mas será que os jornalistas de fact-checking recebem mais ódio que os jornalistas que não desempenham estas funções? "Embora não tenhamos evidências para sustentar essa afirmação não seria surpreendente se fosse esse o caso", diz Sitistas. Zommer também acredita que sim, embora ressalve que depende do tipo de jornalismo. "Somos um alvo maior do que os jornalistas em geral. Mas obviamente que existem jornalistas de investigação ou jornalistas dedicados a áreas específicas que podem sofrer ataques quando interferem com certos grupos", afirma.

Questionados sobre se alguma vez pensaram em desistir, todos os fact-checkers que o Polígrafo ouviu foram unânimes: "Nunca."

A importância das instituições de apoio a fact-checkers

A "Fact-Checkers Legal Support Initiative" (FLSI) é uma organização colaborativa entre três entidades: a "Media Defense", a "Reporters Committee for Freedom of the Press" (RCFP) e a "International Fact-Checking Network" (IFCN).

A FLSI visa promover apoio aos fact-checkers de todo o mundo, oferecendo defesa e assistência legal. Ter apoio a nível jurídico é fundamental para muitos fact-checkers e pode ser a diferença entre pagar uma indemnização alta ou continuar a trabalhar. O "Ellinika Hoaxes" recorreu à FLSI a propósito do processo movido pela "Official Union of Physicists" e Thanos Sitistas diz que foi a única forma de financiar a defesa.

Em julho, a IFCN anunciou o lançamento de um grupo de trabalho para ajudar a resolver as questões relacionadas com o assédio dirigido aos verificadores de factos. A ideia partiu de uma conversa inicialmente organizada para falar sobre o assédio de que foi vítima a jornalista bósnia Tijana Cvjeticanin da plataforma de fact-checking "Raskrinkavanje", acabando por desencadear esta solução que junta 24 fact-checkers de todo o mundo. O objetivo: discussão dos casos de assédio e a avaliação da eficácia das ações da IFCN. Trimestralmente, serão publicados relatórios sobre o tema.

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