O Polígrafo foi lançado na Web Summit no dia 6 de Novembro. Na apresentação à imprensa e nas muitas entrevistas que se seguiram, afirmei algo que me parece fundamental para sedimentar um projeto deste cariz: não seremos reféns da ditadura do tráfego nem cederemos  à escravatura das pageviews, a doença infantil do jornalismo digital.

Acreditamos profundamente que há um lugar no mercado para uma publicação com as nossas características: um jornal que trata da atualidade mas que não tem vocação para o fazer ao segundo; um projeto que deseja chegar a todos, mas que não está disponível para fazer tudo para que isso suceda; um órgão de comunicação social, por fim, que respeita as lógicas do mercado publicitário, mas que pretende colaborar ativamente na sua reinvenção. Porque quantidade não é sinónimo de qualidade. E qualidade é, no mercado em que nos movimentamos, quase sempre sinónimo de verdade – a mesma verdade que é o negócio do Polígrafo, por ser o seu bem mais precioso.

Não seremos reféns da ditadura do tráfego nem cederemos  à escravatura das pageviews, a doença infantil do jornalismo digital.

Quando o projeto foi lançado, os velhos do Restelo desta vida diziam que as pessoas não querem saber da verdade, que estão confortáveis com a desinformação que todos os dias lhes chega a partir das redes sociais, com as quais, ao contrário do que vulgarmente acontece com a imprensa mainstream, cada vez mais afastada dos leitores, é possível estabelecer uma relação “emocional”. É lá que partilhamos a nossa vida, é lá que se encontram os nossos “amigos”; é lá que repousam os inimigos que gostamos de desprezar – mas é também nesse ambiente pantanoso que diariamente circulam informações à velocidade da luz que, no limite, podem colocar em causa o mundo tal qual o conhecemos. Porque a desinformação, quando massificada, gera descrença – e esta resulta numa espécie de embriaguez intelectual que nos inibe, enquanto sociedade, de tomar as melhores decisões, abrindo espaço para a eclosão de fenómenos que ameaçam as democracias - valerá a pena falar do que aconteceu nos Estados Unidos ou no Brasil?

Estamos na iminência de um “infocalipse”, do momento em que as pessoas deixam de conseguir distinguir a realidade da ficção. Em breve, através de mecanismos de inteligência artificial, quase tudo será possível: fabricar vídeos de um realismo impressionante em que líderes políticos fazem e dizem o que não devem, em que haverá filhos a telefonar para pais dizendo que estão a ser raptados quando não estão (na verdade será um robot que imitará a sua voz), em que cenários de guerra serão manipulados ao serviço da informação e da contra-informação. O cemitério da verdade no seu esplendor.

Face ao cenário atual, o que fazer? Enterrar a cabeça na areia e acreditar que tudo se irá compor, que haverá uma espécie de intervenção regulatória de origem divina que recolocará a ordem no lugar da desordem? Ou mergulhar na lama das redes sociais, penetrar na selva das plataformas de distribuição de fake news e combater com atitude e coragem um fenómeno que nos ameaça enquanto civilização?

A desinformação, quando massificada, gera descrença – e esta resulta numa espécie de embriaguez intelectual que nos inibe, enquanto sociedade, de tomar as melhores decisões, abrindo espaço para a eclosão de fenómenos que ameaçam as democracias.

Aqui no Polígrafo, não temos dúvidas sobre a nossa resposta. Vamos à luta – estamos na luta. E não estamos sozinhos, porque ainda há muitas, tantas, pessoas disponíveis para travar connosco esta batalha. Sim, são muitas, muitas mais do que as imaginávamos. Ontem o Polígrafo fez 20 dias no ar. Nesse período registou 1.000.000 – um milhão – de pageviews, um resultado impressionante que nos causa muita felicidade, não tanto pelo que vale em termos de negócio, mas pelo que nos diz sobre o país que, apesar de tudo, ainda temos. Vale a pena apostar numa relação próxima com as centenas de leitores que nos contactam diariamente, dialogar com eles através das nossas linhas de WhatsApp e de Telegram, acolher as suas sugestões de fact-checking, responder-lhes de forma rápida e personalizada no Facebook, ouvi-los e integrá-los no processo de produção noticiosa. Porque aqui no Polígrafo não somos mil, mas temos uma ambição gigante: formar um exército de fact-checkers que nos ajude a travar, de forma não militante e despida de tiques de moralismo bacoco, uma luta que não é nossa – é de todos e cada um de nós.