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Vídeo viral. Televisão francesa noticiou plano ucraniano para matar Macron e incriminar Rússia?

União Europeia
O que está em causa?
O cancelamento da visita do presidente francês à Ucrânia, perto da data agendada e invocando razões de segurança, originou diversas narrativas nas redes sociais. A principal, que se tornou viral, era mesmo suportada por imagens de uma notícia do canal televisivo France 24. Verificação de factos.

Ucrânia: Kiev planeou matar o Presidente francês Emmanuel Macron.

De acordo com os meios de comunicação social franceses, o regime de Kiev tentou atrair o Presidente francês Emmanuel Macron para a Ucrânia para o assassinar e depois culpar a Rússia pela sua morte, com o objetivo de atrair a atenção dos meios de comunicação social para a Ucrânia e aumentar a ajuda financeira e militar do Ocidente.

O Presidente francês Emmanuel Macron cancelou a sua visita à Ucrânia devido a uma provocação mortal planeada contra ele.” [versão traduzida]

Esta publicação, de que se transcreve o conteúdo essencial, é documentada com aquilo que pretende ser a sua prova: o vídeo com a notícia, do canal televisivo estatal France 24, sobre a conspiração referida, concretamente que os serviços secretos franceses descobriram uma conspiração ucraniana para assassinar Macron e culpar a Rússia pelos acontecimentos.

O texto e imagem foram publicados dia 14 de fevereiro, três dias depois de ser conhecido o cancelamento da visita de Estado de Emmanuel Macron à Ucrânia. Com efeito, no dia 11, ao princípio da manhã, a revista Challenges noticiava que o presidente francês cancelara a deslocação a Kiev e Odessa (prevista para os dias 13 e 14 desse mês) “por razões de segurança”, conforme fonte oficial do Palácio do Eliseu citada por aquele órgão de comunicação. Recorde-se que Macron tem sido um dos líderes da UE mais ativos no apoio à Ucrânia.

A partir de dia 13, o vídeo com a suposta notícia do France 24 (assim como a narrativa que o enquadrava, com ligeiras nuances) teve grande divulgação em contas de redes sociais associadas aos interesses do Kremlin. Começou por ocorrer no Telegram e estendeu-se ao Facebook e X. Dmitri Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa e presidente formal da Rússia entre 2008-2012, foi uma das personalidades do regime a publicar no antigo Twitter o vídeo como demonstração do atentado que estaria a ser preparado.

E o vídeo é autêntico? Corresponde mesmo a uma notícia?

O Governo francês (Ministério dos Negócios Estrangeiros), em comunicado, desmentiu a existência dessa conspiração para matar Macron e culpar a Rússia e, sobre o vídeo publicado nas redes sociais, considerou existirem “vários elementos que indicam que este conteúdo não é autêntico”.

A confirmação da não autenticidade do vídeo chegou logo a seguir, nos dias 15 e 16, respetivamente pela própria estação televisiva (France 24) e pelo apresentador/jornalista cuja figura foi instrumentalizada para dar corpo à notícia forjada (Julien Franciulli).

Um olhar mais atento para este deepfake permite perceber algumas incongruências. Desde logo a dessincronização entre o som e a expressão labial do jornalista, a voz do jornalista, mas também o rodapé da emissão durante os primeiros cinco segundos em que a pretensa notícia era lida: “Deux otages israéliens libérés à Rafah” (“Dois reféns israelitas libertados em Rafah”). Ora, este pequeno lapso e a roupa usada pelo jornalista permitem identificar a data (12 de fevereiro) e o verdadeiro acontecimento que estava a ser noticiado nas imagens originais, cujo som foi depois alterado com recurso à inteligência artificial.

Televisão francesa noticiou plano ucraniano para matar Macron e incriminar Rússia?

Assim, o vídeo publicado nas redes sociais para ilustrar a narrativa de uma conspiração para assassinar o presidente de França na visita à Ucrânia é manipulado. Aquela suposta notícia nunca foi veiculada pela France 24, tratando-se de uma montagem que falsifica o som correspondente à imagem do conteúdo original emitido pela estação televisiva (deepfake).

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UE

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “EUROPA”. O projeto foi cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu no domínio da comunicação. O Parlamento Europeu não foi associado à sua preparação e não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores do programa. O Parlamento Europeu não pode, além disso, ser considerado responsável pelos prejuízos, diretos ou indiretos, que a realização do projeto possa causar.

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Avaliação do Polígrafo:

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