O clip, com cerca de dois minutos, tem sido amplamente partilhado nas redes sociais nas últimas horas e é acompanhado por relatos de choque e perplexidade. Nas imagens é possível ver um grupo de homens armados, com fardamento militar, a caminharem no encalce de uma mulher, aparentemente indefesa, sem roupa, na berma de uma estrada junto a um descampado.

De um momento para o outro, um dos indivíduos, que segura aquilo que parece ser um tronco de madeira, começa a agredir a vítima com violência extrema. Apesar de encurralada, a mulher continua a caminhar durante alguns segundos, até que um dos supostos militares dispara. Inanimada, a vítima continua a ser fuzilada com várias rajadas de metralhadora. 

Já perto do final do vídeo, ouve-se um dos agressores dizer "chega", mas outros dois continuam a disparar sobre o corpo estendido no alcatrão. Repete-se um novo "chega", até que uma voz mais próxima da câmara, que se presume ser de quem estava a filmar, também um indivíduo com farda militar que vira a câmara para si, diz que "já está".

As descrições e os comentários ao vídeo que começou a circular na segunda-feira referem-se ao episódio como "a barbárie no seu esplendor" e, na grande maioria, dão como certo que a execução, aparentemente gratuita, teve lugar em Moçambique, mas também há posts que localizam (erradamente as imagens em Angola.

O vídeo em causa é autêntico?

Sim. As imagens são reais e foram captadas em Moçambique, tal como reportam vários órgãos de comunicação social internacionais, com destaque para a BBC. 

Uma notícia da Deutsche Welle Moçambique também confirma o episódio e revela que, pelo facto de se ouvir a frase "já mataram a Al-Shebab", no final do vídeo, é provável que a execução tenha acontecido em Cabo Delgado, no norte do país, uma vez que "Al-Shebab" é o nome dado aos rebeldes que atacam aquela zona desde há três anos.

A propósito do sucedido, ainda na segunda-feira, o Ministério da Defesa Nacional de Moçambique emitiu um comunicado, citado pela Agência Lusa, indicando que "as Forças de Defesa e Segurança consideram as imagens chocantes, abusivas, repugnantes, horripilantes e acima de tudo condenáveis em todas as suas dimensões". O Ministério liderado por Jaime Neto sublinha que as Forças de Defesa e Segurança "não pactuam com qualquer ato bárbaro que consubstancie a violação dos direitos humanos" e comprometeu-se a investigar o caso "para apurar a sua identidade e veracidade, com vista à devida responsabilização".

Também a Ordem dos Advogados de Moçambique emitiu um comunicado subscrito pelo bastonário, Duarte Casimiro, através do qual exige uma "investigação séria e independente aos atos de violência militar exibidos" nas imagens. O bastonário garante que, do vídeo, "extrai-se elementos que podem ser utilizados para desencadear uma apurada investigação independente deste e de outros atos de violência, barbaridade e violação dos direitos humanos em circunstâncias similares".

Apesar de entidades oficiais de Moçambique confirmarem a execução aparentemente gratuita, não é possível, para já, determinar com precisão o local e a data da ocorrência. Também não existe a garantia de que o grupo de homens que levou a cabo o homicídio sejam militares do Exército moçambicano, uma vez que os indivíduos podem ser rebeldes que utilizaram uniformes roubados às forças armadas do país para perpetrar o ataque, um alerta que foi deixado também pelo Governo de Moçambique.

Coincidência ou não, o vídeo começou a circular alguns dias depois de a Amnistia Internacional ter pedido às autoridades moçambicanas que investiguem alegados abusos por parte das forças armadas precisamente em Cabo Delgado, com base em outras imagens e relatos que mostram torturas e vítimas de execuções sumárias.

A região de Cabo Delgado, no norte do país, é afetada por ataques armados orquestrados por grupos islamitas desde meados de 2017. Os confrontos estão a provocar uma crise humanitária com mais de 1.500 mortos e, pelo menos, 250.000 deslocados.

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