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Vídeo mostra “negacionista” portuguesa a representar Portugal no Parlamento Europeu?

União Europeia
O que está em causa?
Está a circular no Twitter um vídeo protagonizado por Vicky Ketion, apresentada como "representante de Portugal no Parlamento Europeu". Ketion ficou conhecida em 2021 por dar rosto a um movimento negacionista da Covid-19 e surge agora a denunciar a "lavagem cerebral, censura e condicionamento de todos os tipos de movimentos de liberdade" que, segundo defende, aconteceu nos últimos três anos. Keiton representou mesmo Portugal num evento oficial do Parlamento Europeu?

O discurso, em inglês, de uma alegada “representante de Portugal no Parlamento Europeu”, Vicky Ketion, está a ser partilhado nas redes sociais nos últimos dias. No Twitter, por exemplo, o vídeo foi partilhado centenas de vezes e visualizado por milhares de utilizadores.

Durante vários minutos, a oradora fala sobre a pandemia de Covid-19, defendendo que, no início de 2020, “milhares de cientistas, médicos e profissionais de saúde foram silenciados” e que “contas e titulares de órgãos de soberania em muitos países foram censurados”. Garante que foi realizada uma “lavagem cerebral e condicionamento de todos os tipos de movimentos de liberdade” durante o período pandémico.

Ketion refere que foi utilizado um “método neurolinguístico através da repetição de uma narrativa” que “teve sucesso a assustar a maioria das pessoas até uma obediência indescritível”. E tem um nome para as consequências das restrições a tratamentos médicos, consultas, diagnóstico e cirurgias canceladas durante a pandemia, chama-lhe “genocídio“.

Aponta ainda os culpados: a “esquerda socialista nacional, extrema esquerda e muitos outros disfarçados com outras políticas”. À mistura coloca também os direitos das crianças que, segundo argumenta, estão sujeitas atualmente à “doutrina mundial da sexualização, num caminho claro para a normalização da pedofilia”. Termina a alertar para o facto de a fórmula europeia já não funcionar: “Está na altura da União Europeia reconhecer que estamos no final do projeto social europeu.”

A ativista em causa é representante em Portugal do movimento “World Wide Demonstration – Rally for Freedom”, que durante a pandemia realizou manifestações contra as medidas restritivas aplicadas para conter a disseminação do coronavírus. “Não somos negacionistas. Recuso-me a usar máscara, nunca deixei de abraçar os meus netos, os meus filhos, os meus amigos, nem a si, se quiser. E você não vai ficar contaminado, nem eu. Neste momento, não há nenhum SARS-CoV, é mentira”, afirmou Vicky Ketion, em declarações à agência Lusa, em maio de 2021.

Mas será possível que Ketion representou mesmo Portugal em Bruxelas?

Contactado pelo Polígrafo, o serviço de imprensa do Parlamento Europeu esclarece que o evento de 4 de julho em que Ketion discursou, apresentado com o mote “Trust and Freedom: Challenging the Pandemic Treaty'”, “não foi um evento oficial do Parlamento”.

“A julgar pelo vídeo, parece que alguns eurodeputados o co-apresentaram e/ou apoiaram”, refere a mesma fonte, destacando que os deputados “podem exercer livremente o seu mandato e assumir a responsabilidade tanto pelas suas atividades como pelo seu conteúdo”.

Ou seja, fica claro que o evento em que Ketion participou não foi um evento promovido pela organização do Parlamento Europeu e que esta não representava oficialmente Portugal. No vídeo surgem a apresentar o evento Mislav Kolakušić e Ivan Vilibor Sinčić, eurodeputados croatas sem afiliação partidária. Também está presente Christine Anderson, eurodeputada alemã do Grupo Identidade e Democracia (ID), grupo que integra partidos europeus de direita e extrema-direita.

Anderson é uma voz conhecida contra a vacinação no Parlamento Europeu. Em dezembro de 2022, questionou a Comissão Europeia sobre a utilização, na Alemanha, do slogan “Proteja-se a si e aos outros vacinando-se”, em relação à vacina contra a Covid-19. Defendia que a frase não se podia aplicar a esta vacina porque tinha sido admitido por Janine Small, representante da Pfizer, “que não se sabia se a vacina impedia a transmissão da doença antes de entrar no mercado”.

O Polígrafo questionou Vicky Ketion sobre o âmbito da participação no debate organizado por um grupo de eurodeputados, que decorreu nas instalações do Parlamento Europeu, mas até ao momento não obteve resposta.

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Avaliação do Polígrafo:

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