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Vídeo divulgado nas redes sociais é atual e mostra navio “Mondego” inundado?

Sociedade
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
A garantia foi dada pelo almirante Henrique Gouveia e Melo, esta quinta-feira de manhã, em declarações aos jornalistas: visivelmente incomodado com as perguntas sobre o estado crítico do navio "Mondego", o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas esclareceu que os vídeos que têm circulado na Internet são "falsos", por serem antigos: têm mais de um ano e meio, disse. Contactada pelo Polígrafo, a Marinha não conseguiu comprovar a origem dos vídeos, mas elementos das gravações ajudaram a chegar a uma conclusão.

“Vão lá perguntar aos Estados Unidos qual é o estado de cada navio e de cada aeronave a ver se eles vos dizem. Não podemos ser ingénuos. Temos responsabilidades, a informação não pode andar a correr pelo WhatsApp. O vídeo que circulou é falso. Tem, no mínimo, um ano e meio. E não é do NRP Mondego. Alguém, que gosta de criar sensacionalismo, anda a propalar esse vídeo com uma intenção e um objetivo”. Henrique Gouveia e Melo não poupou nas críticas à partilha do conjunto de vídeos que tem circulado nas redes sociais e, nas declarações feitas na manhã desta quinta-feira, deixou claro que está a ser alvo de fake news. Resta saber se tem razão.

Na Madeira, o almirante fez ontem duras críticas aos quatro sargentos e nove praças que se recusaram a embarcar no navio “Mondego” por falta de condições: a recusa levou a um não cumprimento da missão de acompanhamento de uma embarcação russa a norte da ilha de Porto Santo, na Madeira, e Gouveia e Melo teve muito a dizer: “Eu não disse que não perdoava, eu disse que não esquecia e que este ato vai ficar registado na nossa história. Um ato de insubordinação nas Forças Armadas é um ato de uma gravidade muito grande, não o podemos ignorar. Quando nós quebramos a disciplina, estamos a quebrar a essência das Forças Armadas. Não podemos permitir isso, muito menos eu, enquanto comandante da Marinha, vou permitir que este ato se alastre ou possa passar despercebido, escondido debaixo de um tapete.”

A situação torna-se ainda mais grave quando, há pelo menos dois dias, são partilhados vídeos, com duração superior a um minuto, supostamente representativos do interior no NRP Mondego, completamente inundado e com água a cair pelo teto. A dada altura, ouve-se alguém dizer: “Mete no grupo da Armada.” Grupo de Facebook, WhatsApp? O Polígrafo não conseguiu, através de nenhuma ferramenta de pesquisa, perceber a origem cronológica dos vídeos, nem onde terão sido originalmente partilhados. Mas há pormenores que nos ajudaram a chegar a uma conclusão:

  • Mark Wahlberg e Will Ferrell no Canal Hollywood

Numa das gravações, precisamente no refeitório dos Praças, a televisão está ligada, ao mesmo tempo que gotas de água se infiltram no teto junto às lâmpadas. Nas imagens, helicópteros, muita ação e Mark Wahlberg, extremamente desfocado, num carro com alguém. O ator de Hollywood faz parelha com Will Ferrell no filme “Agentes em Reserva”. No canto superior esquerdo, o logo do Canal Hollywood permite iniciar a pesquisa.

Uma procura recente pela transmissão deste filme no Canal Hollywood leva-nos a concluir que a última vez em que esteve no ecrã foi, pelo menos, anterior à última quinta-feira, 9 de março. Ao Polígrafo, o Canal de cinema esclareceu que a última vez que este filme foi transmitido foi mesmo a 13 de fevereiro, às 16h15. Ou seja, os vídeos teriam que ter mais de um mês. Mas há outros elementos que comprovam que estas gravações são ainda mais antigas.

  • As cadeiras no refeitório dos Praças

O Polígrafo contactou a Marinha Portuguesa que, depois de já ter feito vários desmentidos, ainda não conseguira encontrar a partilha original dos registos, que garantia ter sido feita há mais de um ano e meio em grupos de WhatsApp. A dada altura, porém, uma pista: as cadeiras que envolvem a mesa do refeitório foram substituídas em novembro de 2021. Eis duas fotos (a mais recente à direita) que comprovam a mudança:

Em declarações ao Polígrafo, o porta-voz da Marinha Portuguesa identificou o local de gravação: a corveta António Enes. No vídeo em que se vê um mar de água no chão do navio, o motivo terá sido uma fissura no encanamento: devido ao facto de estes navios terem várias encanações, o evento de fissura acontece com regularidade. Neste caso, explicou a mesma fonte, o navio estava atracado e a água que se vê resulta do entupimento do ralo do encanamento. Faz hoje (17) um ano desde que isto aconteceu, confirma a Marinha.

Quanto ao outro vídeo, gravado no refeitório e em data distinta (anterior a novembro de 2021), o porta-voz refere que a água que se vê cair do teto é, muito provavelmente, água da chuva: a pequena varanda existente na parte superior do navio pode ter promovido este acontecimento.

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Avaliação do Polígrafo:

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