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Vídeo de tropa angolana na Rússia é real? Sim, mas foi gravado em 2018

Ucrânia
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
Chegou ao Polígrafo um pedido de verificação de um vídeo que mostra um desfile de militares a erguer a bandeira da Angola. O leitor alega que o cenário desta parada é a Rússia e questiona se a gravação é recente, ou seja, se tem ligação ao atual conflito deste país com a Ucrânia. As imagens são verdadeiras, mas foram captadas em 2018.

“Esta gravação é recente? Vê-se que é Moscovo. O que está lá a fazer a tropa angolana?”. Esta foi a pergunta deixada por um leitor ao Polígrafo que enviou um vídeo de uma parada militar em que vários militares erguem a bandeira da Angola.

A desinformação que tem circulado nas redes sociais desde a invasão da Ucrânia pela Rússia tem sido uma das armas do conflito. O Polígrafo tem realizado diversas verificações de factos sobre imagens e vídeos associados à guerra, muitos deles manipulados ou descontextualizados.

Neste caso, a gravação em causa é real. No entanto, foi captada em 2018, ou seja, não tem relação com a atual guerra na Ucrânia. O vídeo está listado na conta de Youtube de um canal de televisão russo com a seguinte descrição: “Militares de Angola dançaram na Praça da Catedral em Omsk”.

No site do mesmo orgão de comunicação social russo, uma notícia de fevereiro de 2018 divulga o contexto das imagens. “Eventos dedicados ao Dia do Defensor da Pátria estão a ser realizados na Praça da Catedral. O feriado em Omsk [cidade na Rússia] contou com a participação de militares estrangeiros. Os militares de Angola, que agora estudam na capital da região de Irtysh, no Instituto de Engenharia Blindada de Omsk, estiveram na praça principal da cidade”, explica-se no artigo em causa.

O  semanário angolano “Novo Jornal” também noticiou, no dia 27 de fevereiro de 2018, a “parada dos militares angolanos que deu baile à Rússia” que se destacou pela ausência da “rigidez habitual das exibições marciais”.

As relações diplomáticas entre a Rússia e Angola não são novas. Em 2019, a agência pública de informação alemã “Deutsche Welle” (DW) escrevia que “a independência de Angola foi conquistada também graças ao apoio da União Soviética e no tempo da guerra fria a cooperação militar com esse país permitiu ao MPLA, partido no poder, derrotar os seus inimigos e reafirmar o seu poder”.

O historiador José Milhazes, entrevistado pela agência alemã nesta ocasião, entendia que as relações entre os dois países iriam consolidar-se em outras vertentes, que não apenas o auxílio militar. “Putin não está disponível a exercer a beneficência do internacionalismo proletário, ou seja, a fornecer o que quer que seja gratuitamente. Está sim, interessado em cooperar no campo económico com interesses para ambas as partes. E penso que esta também é a posição de Angola e penso que esta nova abordagem das duas partes é mais eficaz.”

Angola absteve-se, no início de março, na votação da Assembleia Geral da ONU que condenou a invasão da Ucrânia pela Federação Russa com 145 países a favor e cinco contra. No total, 35 países abstiveram-se, incluindo 17 africanos.

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