A alegação surgiu já no fim do debate, numa pergunta feita pelo eurodeputado do PCP, João Ferreira, a André Ventura, ambos candidatos à Presidência da República: "É assinalável como todas as propostas - sobretudo económicas e sociais - do Chega têm um grande alinhamento com aquilo que são os grandes interesses instalados, os interesses poderosos que dominam a economia, grandes grupos económicos, interesses na sombra. (…) Eu pergunto se isso tem alguma coisa a ver com o facto de ter entre os principais apoiantes da força política a que preside gente envolvida em processos de branqueamento de capitais, terrorismo bombista, especulação imobiliária…"

A resposta do líder do Chega foi rápida: "Temos muitos apoiantes de várias índoles, nunca tivemos nenhum que participou em terrorismo como o das 'FP 25' [Forças Populares 25 de Abril] nem de coisas parecidas. Isso ainda não temos".

Verdade ou mentira?

Na realidade, se a Assembleia da República tivesse aprovado a substituição do deputado André Ventura, o próximo representante do Chega no Parlamento seria Diogo Pacheco de Amorim, um homem que integrou o gabinete político do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), condenado por um atentado bombista no Norte do país.

Afastou-se da vida política há alguns anos, depois de mais de três décadas ligado à direita política portuguesa. Regressa agora como vice-presidente do Chega e acompanha Ventura em todos os momentos-chave: foi o segundo na lista eleitoral do círculo de Lisboa em 2019, primeiro vice-presidente desde a II Convenção de Évora, assessor na Assembleia da República, participou em almoços e jantares e posou várias vezes ao lado do líder do partido. Aos 71 anos de idade, Pacheco de Amorim é o ideólogo na sombra de Ventura, mas foi aos 19 que deu início à sua vida política, ainda na Universidade de Coimbra.

Começou por ser um dos nacionalistas revolucionários do "Grupo da Cidadela" e juntou-se a José Miguel Júdice, Cavaleiro Brandão e Rui Moura Ramos num movimento estudantil da direita integracionista que contestava a descolonização e defendia Portugal e as províncias ultramarinas como um todo. Exilou-se em Madrid para fugir do Comando Operacional do Continente (COPCON), altura em que integrou o MDLP, movimento armado de direita dos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), que marcou os anos seguintes ao 25 de abril de 1974. Do Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN), do polémico general Kaúlza de Arriaga, ao CDS-PP e Nova Democracia, onde foi ideólogo e chefe de gabinete com Manuel Monteiro, a militância de Pacheco de Amorim esteve quase sempre ligada à extrema-direita. 

Embora negue qualquer ligação às atividades militares do MDLP nos tempos do pós-revolução, certo é que Pacheco de Amorim esteve no setor político do movimento liderado por António de Spínola, antigo Presidente da República, que terá alegadamente coordenado e promovido atentados bombistas e assaltos a sedes de partidos e organizações de esquerda. Um dos casos mais polémicos aconteceu no Norte do país, em 1976, quando o padre Maximino Barbosa de Sousa e a sua aluna Maria de Lurdes, de 19 anos, foram assassinados pela explosão de uma bomba no carro em que seguiam.

O padre Max, assim eternizado, era candidato independente a deputado pela União Democrática Popular (UDP), ao passo que Maria de Lurdes, filha de emigrantes, era estudante. Na origem da explosão terá estado uma carga de trotil, acionado por sistema de relógio. Este atentado fez parte de uma onda de violência motivada pelas eleições, cujas campanhas tiveram início em 4 de abril. Até à data tinham sido contabilizados cerca de 300 incidentes contra edifícios e veículos dos partidos de esquerda, tendo sido o primeiro a resultar em vítimas mortais e o primeiro assassinato político após a Revolução de 25 de abril de 1974.

O caso foi julgado duas vezes, uma em 1997 e outra dois anos depois, nunca tendo havido uma condenação. Ainda assim, depois de terem sido absolvidos os arguidos, o tribunal chegou a atribuir o homícidio ao MDLP, pelo que é falso que o partido de Ventura não conte com apoiantes associados a terrorismo bombista, ainda que de forma indireta. 

Em declarações ao jornal "Público", Mário Brochado Coelho, advogado que durante mais de 20 anos lutou para que o caso fosse a tribunal, recordou que o processo contou com cinco arguidos, nenhum dos quais foi condenado. "O tribunal achou que eles tinham feito alguma coisa, mas não conseguiu reunir provas concretas de que o fizeram. Eu próprio concordei com essa decisão, porque na justiça ninguém pode ser julgado sem provas claras", disse o advogado.

"Mataram premeditadamente o padre Max, mesmo sabendo que ele levava no carro uma jovem - o que é típico da extrema-direita portuguesa, do absolutismo até hoje", acrescentou Brochado Coelho.

Além das funções políticas, o vice-presidente do Chega está hoje ligado à área da consultoria imobiliária, quer do ponto de vista empresarial, quer académico, tendo sido fundador da Escola Superior de Actividades Imobiliárias, da qual foi administrador, diretor académico e membro do Conselho Científico. De acordo com a revista "Visão" são vários os integrantes do Chega que se dedicam ao setor imobiliário de luxo, como é o caso de Pacheco de Amorim e do diretor de comunicação do partido, Ricardo Regalla, consultor na imobiliária 1st Class Key, com negócios na capital e na linha de Sintra e Cascais. 

A ligação de membros do partido à extrema-direita não é novidade e, além de Pacheco de Amorim, há ainda o caso de Luís Filipe Graça, presidente da mesa da Convenção, que nega tais ligações assim como qualquer intervenção em financiamentos no estrangeiro. No entanto, como sublinha a "Visão", o filho deste funcionário do Chega, Luís Graça, teve um papel na organização de eventos nacionalistas com os neofascistas Gianluca Iannone, na Itália, Olena Semenyaka, na Ucrânia e no festival Pro Patria, na Grécia. Outro dos casos identificados é o do vice-presidente da distrital de Setúbal, Carlos Carrasco, que chegou a ser candidato pelo Partido Nacional Renovador (PNR) e a estabelecer contactos com Marine le Pen, da Frente Nacional, em França.

Dos vários membros do Chega em cargos de responsabilidades com ligações a movimentos extremistas, apenas Tiago Monteiro, conselheiro nacional do Chega e líder do núcleo de Mafra, renunciou aos cargos que desempenhava, um dia depois de ter sido noticiado que pertenceu a um movimento extremista.

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Avaliação do Polígrafo:

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