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Vacinas contra a Hepatite B contêm óxido de grafeno e envenenam assim as pessoas?

Sociedade
O que está em causa?
"Isso é um envenenamento mundial, é um genocídio", denuncia uma especialista em Odontologia, num vídeo que está a ser partilhado viralmente nas redes sociais (em diversos países e línguas). As imagens mostram uma experiência caseira em que terá comprovado que as vacinas contra a Hepatite B contêm óxido de grafeno, "um veneno". Verdade ou mentira?

Vacina da Hepatite com óxido de grafeno. Qual seria a intenção de envenenar a Humanidade? Pensem bem antes de aplicar vacinas nos inocentes dos seus filhos”, descreve-se numa das publicações do clip de vídeo. Está a ser partilhado em várias redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, TikTok, etc.), países e línguas (do português ao inglês e castelhano, entre outras).

Nas imagens surge uma especialista em Odontologia (ou assim é apresentada) a realizar uma experiência caseira com um exemplar da vacina da Hepatite B, dentro do prazo de validade e devidamente refrigerada. Supostamente terá identificado a presença de óxido de grafeno na substância da vacina, “um veneno”, pelo que acusa: “Isso é um envenenamento mundial, é um genocídio.”

A protagonista do vídeo alega mesmo que a vacina contra a Hepatite B não é um caso isolado, pois “temos encontrado” a presença de óxido de grafeno “em todas as vacinas do calendário, nas vacinas da Covid-19 e nos injetáveis”. Como tal, defende que ninguém pode obrigar a população a injetar uma substância “que tem um veneno dentro”.

No âmbito da experiência, a protagonista utiliza um microscópio e uma lâmina, com a qual coloca a amostra da vacina sobre uma toalha de mesa. Segundo apurou entretanto a AFP Checamos, trata-se de um microscópio óptico da marca Starware.

Em declarações à referida plataforma de fact-checking, Omar Troncoso, investigador de polímeros e materiais compostos na Pontifícia Universidade Católica do Peru, adverte que “o grafeno e os materiais dessa família não são observados por microscópios ópticos porque as suas dimensões são muito reduzidas”.

“A microscopia só mostra uma imagem; é uma parte da análise. Mas a presença de grafeno teria que ser corroborada por outras técnicas como Raman, ou ressonância magnética nuclear”, explica Troncoso.

O investigador conclui que “não é possível” identificar partículas de grafeno numa qualquer substância, neste caso uma vacina contra a Hepatite B, através do equipamento, material e técnica visíveis na experiência do vídeo. “Utilizar um microscópio para fazer essa denúncia não se sustenta”, garante.

Está a ser difundido no Instagram um vídeo com passagens de uma entrevista de Carrie Madej, uma "osteopata" norte-americana que se notabilizou durante a pandemia de Covid-19 como um refluxo de desinformação nas redes sociais, em que denuncia que a Organização Mundial da Saúde e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA estão "desde 1972 a desenvolver a vacina do tétano como uma vacina para aborto ou esterilização". Há algum fundamento em tamanha teoria de conspiração?

No mesmo sentido aponta María Celeste Dalfovo, doutorada em Química e especializada em nanomateriais. Questionada pela AFP Checamos, a especialista argentina indica que a protagonista do vídeo comete erros ao manipular as amostras e utiliza um dispositivo incapaz de detectar o grafeno.

“Com uma imagem microscópica óptica convencional é impossível saber ou definir a composição química do que se está a observar. (…) Um microscópio simplesmente amplia o tamanho de algo. Mas se não for utilizada a chamada técnica Raman, não se pode determinar que o que se está a ver é grafeno”, constata Dalfovo.

De resto, as vacinas contra a Covid-19 também não contêm óxido de grafeno, ao contrário do que denunciaram múltiplos vídeos e publicações nas redes sociais ao longo dos últimos anos. O Polígrafo sinalizou esse facto em vários artigos de verificação de factos (pode consultar aqui ou aqui, entre outros exemplos).

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Avaliação do Polígrafo:

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