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Vacinação contra a Covid-19 levou a aumento na taxa de mortalidade na União Europeia?

União Europeia
O que está em causa?
Afirmações proferidas o ano passado pelo eurodeputado croata Mislav Kolakusic, que disse ser possível estabelecer uma correlação entre o excesso de mortalidade na União Europeia e a vacinação contra a Covid-19, voltaram agora a ser partilhadas nas redes sociais. Mas será que têm fundamento?

Muitos têm sido os argumentos usados pelos críticos da vacinação contra a Covid-19 para tentar demonstrar o seu efeito nefasto para as populações. É precisamente esse o caso do eurodeputado croata Mislav Kolakusic, que no final do ano passado partilhou, nas redes sociais, um vídeo onde tenta associar o aumento da taxa de mortalidade nos países pertencentes ao bloco europeu ao referido processo de inoculação.

Com recurso a “dados chocantes do Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia”, afirmou: “Em julho de 2022, comparando com a média de 2016 a 2019, um grande aumento na taxa de mortalidade foi registado na Croácia (14,6%), Itália (24,9%), Portugal (28,8%), Grécia (31,2%), Espanha (36,9%) e Islândia (um recorde de 55,8%)”. O eurodeputado não-inscrito do Parlamento Europeu acrescentou ainda que, simultaneamente, um “aumento na mortalidade de apenas 2,4% foi registado na Roménia, e de 1,4% na Bulgária.”

[twitter url=”https://twitter.com/mislavkolakusic/status/1583377222152654848″/]

E prosseguiu o raciocínio, pedindo aos seguidores que tirassem as suas “próprias conclusões” quanto às causas desse “aumento na taxa de mortalidade na União Europeia”: “Existe também uma diferença surpreendente nas taxas de vacinação. Na Islândia é de 83%, enquanto na Roménia é de 42% e na Bulgária de 30%.”

Apesar de partilhado há já longos meses, o vídeo ganhou um “novo fôlego” nas redes sociais, com internautas a alegarem que os “países europeus enfrentam consequências catastróficas na sequência da inoculação da vacina contra a Covid-19”.

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Assim, surge a questão: as alegações de Mislav Kolakusic têm algum fundo de verdade?

Começando pelos dados apresentados pelo eurodeputado croata no seu vídeo, referentes a julho de 2022, o Eurostat revela, de facto, que todos os países europeus registaram nesse mês um excesso de mortalidade face ao período entre 2016 e 2019, com exceção da Letónia. As percentagens apresentadas por Mislav Kolakusic quanto aos vários países estavam inteiramente corretas, com exceção para a que diz respeito à Islândia, onde essa taxa era de 35,8% e não de 55,8%, como ele tinha afirmado.

Quanto à inoculação associada à Covid-19, a plataforma do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) que faz esse mesmo rastreio mostra que a percentagem de cidadãos que tomaram pelo menos uma dose da vacina também não difere muito do apresentado pelo eurodeputado citado – 83,1% na Islândia, 42,5% na Roménia e 30,5% na Bulgária. Porém, de notar que estas percentagens não dizem respeito a quem completou o processo de vacinação primária (que envolve geralmente a administração de duas doses) ou tomou as subsequentes doses de reforço.

Mas o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, ao Polígrafo, assegurou que não existe base científica “absolutamente nenhuma” que sustente essa alegada correlação entre a mortalidade excessiva na União Europeia e a vacinação contra a Covid-19. “A minha estranheza em relação a estas correlações é as pessoas fingirem esquecer que tivemos praticamente toda a população europeia infetada pelo vírus”, apontou ainda.

Questionado sobre o tema, acrescentou: “Estamos a comparar sermos infetados por um vírus que se multiplica rapidamente dentro do nosso organismo e chega a todo o lado, com uma vacina que leva uma molécula do vírus e que depois dá origem a uma proteína do vírus. Essa proteína, por si só, não se multiplica dentro de nós, as nossas células é que multiplicam essa proteína. Mas estar a comparar a ação de uma proteína com o vírus inteiro é completamente desproporcionado. É claro que o vírus é muito mais perigoso.”

Explicando ser “natural que haja coincidência temporal entre um evento como a morte, ou outro qualquer grave, e um evento de vacinação”, o especialista reconheceu ser “extremamente difícil estabelecer uma associação entre uma morte e a vacina”. Exceção à regra são “situações muito raras” em que a mesma “é fácil, que são normalmente os choques anafiláticos imediatamente a seguir” à inoculação. Porém, correlações mais alargadas no tempo “não fazem sentido nenhum, porque evidentemente as pessoas continuam a morrer” pelas mais variadas razões – todas elas não relacionadas com a vacina contra o SARS-CoV-2.

Quanto a esta mortalidade excessiva registada recentemente nos países da União Europeia, Manuel Carmo Gomes reforça assim que devem ser tidas verdadeiramente em consideração as consequências derivadas da infeção por este vírus, em detrimento da vacinação contra a doença. “Este vírus deixa sequelas. Invade praticamente todos os órgãos: não só o sistema respiratório, que é o mais óbvio, mas também o gastrointestinal, o renal e o neurológico”, notou, acrescentando que atualmente estima-se que haja “10% ou 15% da população com sequelas, a chamada Covid longa”.

Acresce a isto o facto de, segundo um relatório divulgado em finais de 2022 pela Agência Europeia do Medicamento (EMA), terem sido reportados apenas 11.448 casos de pessoas que morreram após terem sido inoculadas com uma vacina contra a Covid-19, numa altura em que centenas de milhões de doses tinham já sido administradas.  

Com base nos dados expostos, é completamente incorreto afirmar que a mortalidade excessiva registada em 2022 nos países da União Europeia é “consequência” da vacinação das populações contra a Covid-19. E importa, ainda, lembrar que as sequelas derivadas da infeção por este vírus não devem ser descuradas neste âmbito.

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UE

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “EUROPA”. O projeto foi cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu no domínio da comunicação. O Parlamento Europeu não foi associado à sua preparação e não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores do programa. O Parlamento Europeu não pode, além disso, ser considerado responsável pelos prejuízos, diretos ou indiretos, que a realização do projeto possa causar.

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Avaliação do Polígrafo:

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