Desta vez, a denúncia não foi feita nas redes sociais, mas em plena celebração eucarística na cidade de Valência, no dia de Corpo de Deus, um sacerdote afirmou: O diabo existe em plena pandemia, tentando levar a cabo investigações para vacinas e curas. Encontramo-nos com a dolorosíssima notícia de que uma das vacinas é feita a partir de células de fetos abortados. Tão claro como isso.”

Antonio Cañizares, o padre que estava a celebrar a missa, realizada a 14 de junho, acrescentou: “Somos a favor do Homem, não contra o Homem. Primeiro, ele é morto com um aborto e depois é manipulado. Ah bem, que bom! Não. Temos mais uma desgraça, o trabalho do diabo.”

As palavras do arcebispo de Valência rapidamente se tornaram polémicas, com a imprensa espanhola a dar conta da afirmação do clérigo, que nao é estreante no campo das declarações controversas: em 2016, António Cañizares garantiu que “a família cristã” está ameaçada pelo “império gay e certas ideologias feministas”.

Posto isto, será que a sua última alegação em que defende que uma das vacinas em desenvolvimento para a Covid-19 usa células de fetos abortados, tem algum fundamento científico?

A resposta é não.

Importa esclarecer que as vacinas são uma forma de fortalecer o sistema imunitário, expondo-o a um determinado vírus, numa versão enfraquecida, para que o organismo desenvolva anticorpos para combater a infeção, caso seja necessário.

Para gerar esses vírus enfraquecidos, eles têm de ser cultivados. O processo implica que se recorra a células que possam ser infetadas, de forma a que o vírus vá sobrevivendo nelas. Significa isto que as células são o meio de cultivo que os cientistas utilizam.

Ora, as culturas celulares, a opção mais eficiente para a produção de vacinas, partem de células extraídas de um organismo vivo, que pode ser humano ou animal, e não de um organismo morto, como um feto abortado. Para isso, extrai-se uma amostra de tecido de um órgão, que contém diferentes tipos de células com diferentes características. A partir daí aplicam-se processos para depurar e selecionar as células que interessam para a investigação.

Quando se obtém a cultura desejada, as células podem reproduzir-se um determinado número de vezes, criando uma linha celular que permite que a investigação prossiga, mesmo depois da morte das células originais.

As culturas celulares, a opção mais eficiente para a produção de vacinas, partem de células extraídas de um organismo vivo, que pode ser humano ou animal, e não de um organismo morto, como um feto abortado. Para isso, extrai-se uma amostra de tecido de um órgão, que contém diferentes tipos de células com diferentes características. A partir daí aplicam-se processos para depurar e selecionar as células que interessam para a investigação.

A capacidade de reprodução das linhas celulares é limitada nas maioria dos casos, mas por vezes sofrem determinadas mutações e obtêm-se linhas celulares imortalizadas, que são capazes de reproduzir-se mais, tendo mais potencial de utilização científica.

Vacina contra a gripe aumenta o risco de apanhar Covid-19?

Precisamente no panorama das linhas celulares imortalizadas, existiram duas com origem em fetos humanos, a WI-38 e a MCR-5. A primeira, que começou a ser usada na década de 1960, teve origem num tecido pulmonar de um feto abortado aos 3 meses de gestação, por motivos clínicos. A segunda, descoberta nos anos 70, tem origem num feto abortado às 14 semanas, em 1966, também por motivos médicos. Estas linhas celulares permitiram chegar às vacinas contra a rubéola, a varicela e a vacina tripla vírica, por exemplo.

No entanto, estas são as únicas duas linhas celulares de origem fetal que se usaram para o desenvolvimento de vacinas. Tratam-se de abortos clínicos, que se sucederam depois da descoberta de doenças graves, e foi a análise posterior dos fetos que permitiu desenvolver as linhas celulares. Mas atenção, as células que se usaram para o desenvolvimento das vacinas não faziam parte dos fetos originais, tendo resultado de mutações ao longo do processo.

A referência a fetos abortados na composição de vacinas é um argumento habitual dentro do grupo de pessoas que são contra a vacinação e uma ferramenta para transformar a oposição às vacinas em algo de natureza moral e religiosa.

Além disso, depois de fabricada, o que qualquer vacina contém são os vírus inativos, e não as células, que servem apenas como meio de cultivo para os vírus. É certo que o produto final pode conter alguns traços de ADN dessas células, mas a quantidade é ínfima e nada tem a ver, diretamente, com fetos mortos ou que sejam abortados já com a intenção de os usar para a criação de vacinas, precisamente o cenário sugerido pelo padre espanhol durante a missa.

Por fim, há que destacar que a referência a fetos abortados na composição de vacinas é um argumento habitual dentro do grupo de pessoas que são contra a vacinação, e uma ferramenta para transformar a oposição às vacinas algo moral e religioso, tal como o Polígrafo já deu conta num artigo do final do passado. Na altura, Olga Borges, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, deixou claro que não existe qualquer base científica para associar uma vacina a ADN humano: “Eles dizerem que as vacinas têm na sua composição as células onde os vírus são produzidos é completamente mentira. Não podem ter células. Eventualmente, podem existir vestígios de alguns componentes da cultura celular. Porque depois de serem produzidas as substâncias ativas há um processo de purificação cujo objetivo é eliminar tudo o que serviu para a produção daquela substância ativa.”

Em conclusão, é falso que alguma vacina para a Covid-19 esteja a ser desenvolvida com base em células de fetos abortados. Por um lado, a regra é recorrer a células de organismos vivos para criar vacinas. Por outro lado, apesar de em décadas passadas terem sido utilizados tecidos de fetos abortados para criar vacinas, esses abortos foram clínicos e não induzidos para a investigação científica, e as células que serviram de base à criação dos fármacos não eram as células originais dos fetos, mas os elementos resultantes de mutações ao longo do processo de investigação.

Avaliação do Polígrafo:

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