O facto: A 22 de Julho de 2011, Anders Behring Breivik, um terrorista solitário de extrema-direita, então com 32 anos, matou 77 pessoas (quase todas adolescentes) e feriu 319 num atentado à bomba no Regjeringskvartalet (um conjunto de edifícios governamentais em Oslo) e disparando com uma espingarda semiautomática Ruger e uma pistola Glock sobre os organizadores e jovens participantes de um campo de férias do Arbeiderpartiet, o Partido Trabalhista norueguês, na ilha de Utoya, 38 quilómetros a noroeste do centro da capital. Breivik foi julgado pelo massacre e condenado por terrorismo e assassínio em massa a 21 anos de pena (a máxima no país), que continua a cumprir numa prisão de alta segurança.

Os filmes:

  •  "22 DE JULHO"

É dirigido pelo inglês Paul Greengrass, realizador das melhores longas-metragens da saga Jason Bourne e especialista em tensos filmes de acção baseados em acontecimentos reais ("Domingo Sangrento", sobre o massacre de um grupo de manifestantes norte-irlandeses em Derry, a 30 de Janeiro de 1972, por tropas da administração britânica - o trágico evento foi também alvo de uma das mais célebres canções dos U2, "Sunday, Bloody Sunday"; "Voo 93", sobre a intervenção, em tempo real, dos passageiros do voo 93 da United Airlines a 11 de Setembro de 2001 para impedir o acto terrorista dos quatro sequestradores que tinham tomado o avião, perdendo a vida nesse esforço).

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Divide-se em três secções: a descrição minuciosa, de um ponto de vista omnisciente e composto por sequências tensas, dos actos homicidas de Anders Breivk (Anders Danielsen Lie, a estrela de "Oslo, 31 de Agosto" de Joachim Trier, o melhor cineasta norueguês da actualidade); a recuperação física e psicológica de um dos sobreviventes reais do massacre, o protagonista de 17 anos Viljar Hanssen (Jonas Strand Gravli na sua estreia no cinema), bem como as reacções de políticos - incluindo o primeiro-ministro à época, Jens Stoltenberg, interpretado por Ola G. Furuseth -, advogados e membros do sistema judicial norueguês; por fim, o julgamento e condenação de Breivik, com um testemunho muito impressivo de Viljar.

As cenas foram rodadas nos locais dos acontecimentos em Oslo, mas também na região de Vestfold - onde se encenou a sequência do massacre em Utoya - e na Islândia (o núcleo da vida pessoal e familiar de Viljar).

Produzido pelos norte-americanos da Scott Rudin Productions, em colaboração com a Netflix, para um orçamento de 20 milhões de euros e uma duração de 143 minutos, o filme, falado em inglês mas com actores exclusivamente nórdicos, estreou a 10 de Outubro em simultâneo naquela plataforma de streaming e num grupo restrito de salas em todo o mundo.

  •  "UTOYA, 22 DE JULHO"

Dirigido por Erik Poppe, um razoável realizador norueguês ("A Escolha do Rei", "Mil Vezes Boa Noite", este um relato emocionalmente inteligente da vida privada de uma repórter fotográfica de guerra, interpretada por Juliette Binoche) foi rodado num único take, após várias tentativas cuidadosamente encenadas. Nesse formato de progressão contínua em estilo hiper-realista, recorrendo-se à câmara à mão, adopta-se o ponto de vista da personagem ficcional de 18 anos Kaja (Andrea Berntzen, num compósito de vários sobreviventes do ataque), na sua desesperada tentativa de escapar às balas de Breivik - e de encontrar a irmã mais nova, Emilie, no caos - entre os perto de 500 jovens participantes no campo de férias do Partido Trabalhista norueguês em Utoya.

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Num huis-closde exteriores - a rodagem decorreu também em Oslo mas, sobretudo, numa ilha vizinha à de Utoya -, a longa-metragem de 92 minutos é falada em norueguês, apenas com actores do país e, com um orçamento ligeiramente superior ao de "22 de Julho" (22 milhões de euros), trata-se de uma produção local com fundos privados noruegueses, o suporte do Nordisk Film & Tv Fonde do Norksfilminstittut mais o apoio do Programa Media da União Europeia. Com estreia cinematográfica em 21 países europeus, Rússia, Turquia e Brasil ao longo de 2019, foi lançado nas salas portuguesas a 15 de Novembro, mas o percurso internacional precedeu o de "22 de Julho".

A sequência dos principais factos do massacre de 22 de Julho de 2011 é respeitada em ambos os filmes. "Utoya, 22 de Julho" encena quase em exclusivo o massacre. "22 de Julho" dedica-se com brevidade aos antecedentes, reencena os atentados e concentra dois terços do tempo aos acontecimentos que se lhe seguem.

Se o "Utoya, 22 de Julho" de Erik Poppe se concentra quase exclusivamente na fuga dos adolescentes, no campo de férias da ilha, à razia homicida de Breivik, baseando-se para o efeito num conjunto pormenorizado de testemunhos de sobreviventes do ataque, sem a backstorydo assassino ou as consequências políticas, jurídicas e sociais do seu gesto terrorista, já no "22 de Julho" de Paul Greengrass, tanto alguns dos antecedentes da acção do atirador/bombista como o fio de eventos em resultado do massacre - incluindo  a referência aos objectivos anti-islâmicos e antifeministas, expostos num enorme manifesto que Breivik queria divulgado, alguns breves traços do relacionamento com a mãe (Hilde Olausson), são descritos com concisão, além das duas avaliações psiquiátricas para aferir da imputabilidade em julgamento (a primeira declarando-lhe esquizofrenia paranoica, a segunda considerando-o mentalmente são, embora com uma desordem de personalidade narcísica). Também se percorrem com rigor, quanto à essência factual, a detenção sem resistência, os primeiros interrogatórios, os vários passos da intervenção do primeiro-ministro norueguês, as tentativas de Breivik de sensibilizar e seduzir - sem êxito - elementos da extrema-direita da Noruega para a sua causa ou os plot pointsprincipais da relação do réu com o seu advogado de defesa (real) no caso, Geir Lippestad (Jon Oigarden). Alguma dose de melodramatismo é reservada para o arco do protagonista, o adolescente Viljar Hanssen, na lenta reconstrução física e psicológica (foi baleado cinco vezes e perdeu um olho, além de fragmentos de bala alojados no cérebro e impossíveis de remover, que ainda o poderão levar à morte), culminando-se no testemunho em julgamento.

Tanto o presumível treino paramilitar que, segundo Mikhail Reshetnikov, membro da oposição ao regime bielorrusso, Breivik teria recebido - os dados disponíveis junto das autoridades norueguesas contradizem esta versão -, as sessões de treino (e uma de competição) num clube de tiro de Oslo entre 2005 e 2007 e 2010/2011, assim como os anos de preparação e tentativa de financiamento do atentado, não são incluídos no filme.

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Mesmos nos pequenos pormenores verídicos, há alguns dos mais significativos que ficaram na versão final, como quando Breivik, após a detenção, se queixa de ter um pequena ferida no indicador que poderá infectar, dizendo que deve ser resultado de um pedaço de cérebro que saltou de uma das vítimas, num gesto de grotesca e arrepiante banalidade que consta dos verdadeiros relatórios policiais desse dia.

Já em "Utoya, 22 de Julho", o que interessa a Poppe e aos seus argumentistas são os longos 72 minutos, em tempo real, do massacre, visto e sentido pelas vítimas - todas baseadas em figuras verídicas, mas todas fictícias -, não o percurso de Breivik anterior e posterior ao atentado. O terrorista é encenado como um vulto ameaçador, sem características concretas, e pressente-se quase sempre fora de campo (embora o vejamos no início em imagens reais, no CCTV de uma câmara de vigilância, antes de fazer explodir parte do edifício em Oslo).

Há pequenos detalhes errados em "22 de Julho", porém sem importância para os factos relevantes da acção:

  •  Numa das primeiras cenas entrecortadas com o arranque do tiroteio em Utoya, um dos funcionários governamentais que informa o primeiro-ministro norueguês do que se está a passar tem um iPhone 5. Este modelo da Apple só foi lançado 14 meses depois da acção, em Setembro de 2012.
  • Depois do atentado, quando Viljar está no hospital em Svalbard, no território ártico norueguês, distingue-se uma placa onde se lê "Matsalur" - "Cafetaria" em islandês, deixando perceber que as cenas em Svalbard foram na realidade filmadas na Islândia.
  • Na preparação da bomba junto aos gabinetes estatais em Oslo, Anders Breivik, vestido de polícia, entra numa uma carrinha Fiat Doblo cinzenta estacionada atrás de um Suzuki Vitara, também cinza. O modelo que vemos do Vitara só foi lançado quatro anos mais tarde, em 2015.
  •  O subtexto de defesa da tolerância e do perigo cada vez mais agudo para os direitos civis de certas minorias, que percorre "22 de Julho", suscita algumas liberdades criativas. Por exemplo, quando percorremos Utoya, é destacada uma grande faixa promocional do partido Trabalhista onde se lê um slogan político da participação desse partido nas eleições norueguesas de...2017: "For the many, not the few".

E "Utoya - 22 de Julho" toma opções estéticas que podem ser consideradas como sensacionalistas face aos factos.

  • Não só na utilização do gimmick do take único como em certas escolhas - os efeitos de som p. ex. -, há opções que podem ser consideradas discutíveis face aos acontecimentos reais. Como quando, no arranque da acção, a protagonista Kaja olha para a câmara - isto é, olha para nós espectadores, interpelando-nos - e diz "Nunca irão compreender...ouçam-me só" (na verdade a personagem está a falar com a mãe, mas o objectivo é claro). Ou o momento em que observamos uma criança, baleada nas costas, a morrer, com o enquadramento a focar-se no ecrã do telemóvel que toca sem resposta, onde se lê "Mamã".
  • Por outro lado, a escolha de nunca revelar a face do assassino verídico, e de nem sequer o referir no genérico inicial ou final (isto num país onde a decisão colectiva parece ter sido a de nunca referir o massacre ou o nome do seu autor para jamais lhe dar a importância que ele buscou e procura) parece de uma grande justeza face à indescritível - e talvez impossível de encenar? - violência dos factos.

Assim sendo, a avaliação do Polígrafo sobre estes dois filmes é...

Impreciso