Num vídeo originalmente publicado no Youtube, e posteriormente partilhado milhares de vezes com traduções em várias línguas, incluindo espanhol e português, Margareta Griesz-Brisson garante que “as células nervosas perdidas [devido à utilização de máscara] não se regeneram”.

“Há células nervosas, por exemplo no hipocampo, que não podem estar sem oxigénio durante mais de três minutos [porque] não sobrevivem”, defende a suposta neurologista alemã, que critica igualmente a utilização de máscaras por crianças. “Privar o cérebro de uma criança ou adolescente de oxigénio, ou restringi-lo de qualquer maneira, não só é perigoso para a saúde como é um absoluto crime. A falta de oxigénio inibe o desenvolvimento do cérebro e o dano resultante não pode ser reparado”, diz Griesz-Brisson, de acordo com a plataforma de fact checking espanhola Newtral.es.

Numa das publicações em português que propagam o vídeo de Griesz-Brisson é apresentada uma outra citação da suposta especialista germânica: “Sei como a privação de oxigénio é prejudicial para o cérebro, os cardiologistas sabem como é prejudicial para o coração, os pneumologistas sabem como é prejudicial para os pulmões. A privação de oxigénio danifica todos os órgãos.”

suposta médica alemã

A mensagem de Margareta Griesz-Brisson dissemina várias premissas falsas que têm sido desmentidas ao logo dos últimos meses de pandemia de Covid-19. Como o Polígrafo já analisou, a utilização de máscaras não provoca nem a diminuição do nível de oxigénio no sangue  (também conhecido como hipoxia), nem o aumento do nível de dióxido de carbono (ou hipercapnia). 

“A máscara deixa o ar entrar e sair e todas as máscaras utilizadas, naturalmente, são permeáveis ao ar. Numa máscara que é permeável, ainda assim, pode existir uma pequena quantidade de ar que fica mesmo em frente à boca - atrás da máscara - e essa quantidade de ar acaba por ser inalada e exalada. Mas é uma quantidade tão pequena que não faz diferença nenhuma. Nunca teria esses efeitos dramáticos que são descritos”, explica Tiago Alfaro.

O que também já ficou igualmente provado é que a utilização de máscaras por crianças a partir dos dois anos não tem qualquer implicação para a sua saúde. Teresa Bandeira, pediatra especialista na área de pneumologia, defende que os pais devem ensinar os filhos a utilizar correctamente o equipamento de proteção individual e não simplesmente forçá-los a fazê-lo. “A utilização correta é fundamental, caso contrário pode tornar-se num dispositivo que cria uma falsa segurança e aumenta o risco de contágio”, sublinha. Em Portugal Continental, a utilização de máscaras só é obrigatória para crianças com mais de dez anos. Já a Madeira impõe o uso de máscaras na rua a partir dos cinco anos.

Ao Polígrafo, Tiago Proença dos Santos, neuropediatra no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e membro da direção da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, garante que “não há evidência científica de que a utilização das máscaras que estão neste momento as ser disponibilizadas para o público em geral causem uma diminuição de oxigénio no sangue”.

Para fundamentar as suas declarações, Proença dos Santos cita um estudo desenvolvido por uma equipa sueca que analisou o impacto do uso de máscaras na capacidade cognitiva dos adultos. Dois grupos de voluntários foram submetidos a provas físicas – um grupo com equipamento de proteção individual e outro sem. No final, os participantes foram submetidos a um teste cognitivo. “Foi feita a comparação entre pessoas que usavam máscara e pessoas que não usavam e não existe diferença absolutamente nenhuma”, esclarece o neuropediatra, para quem estas mesmas conclusões se podem aplicar a crianças.

“O que acontece é que a [falta] de oxigenação cerebral, que decorre do nível de oxigénio no sangue, pode levar a alterações neurológicas – nomeadamente desorientação, lentidão de pensamento, dificuldade de organização do pensamento ou na realização de tarefas cognitivas. Mas a diminuição de oxigénio causado pela utilização de máscaras nunca foi demonstrada”, sublinha.

Por exemplo, um alpinista pode sentir uma sensação de confusão à medida que vai escalando, pois o ar fica mais rarefeito e com uma menor concentração de oxigénio conforme a altitude aumenta. A gravidade do momento está relacionada com a quantidade de oxigénio existente no local onde o indivíduo se encontra e do tempo que está exposto a um nível mais baixo de oxigénio. “Na maioria dos casos, se for uma hipoxia tolerável [e uma exposição] por relativamente pouco tempo, é reversível”, assegura Proença dos Santos.

Quem é Margareta Griesz-Brisson?

A alemão apresenta-se como “neurologista com prática especializada em Müllheim, na Alemanha, e clínica neurológica em Londres”. Porém, de acordo com a plataforma de fact checking alemã Correctiv, não foi encontrada nenhuma informação sobre a “prática de especialista” referida por Griesz-Brisson. 

Da mesma maneira, não foram encontrados dados relativos à suposta neurologista na Associação Federal de Peritos e Especialsitas Alemães, nem na Associação de Médicos de Seguros de Saúde Estatutários em Baden-Wüttemberg.

No entanto, o nome de Griesz-Brisson foi localizado numa lista da Sociedade Interdisciplinar de Medicina Ambiental, onde foi nomeada “neurologista” em 2005. Também em Londres, foi identificada com diretora da “London Neurology & Pain Clinic”, uma empresa privada que oferece tratamentos focados na fisiologia humana e não no tratamento da doença.

Na página de apresentação da empresa, é referido que Margareta Griesx-Brisson estudou medicina na Alemanha e tem um doutoramento em farmacologia, tendo-se especializado em neurologia e neurofisiologia na Universidade de Nova Iorque. Pode ainda ler-se que a diretora “é uma grande defensora da chamada abordagem interdisciplinar e simultânea, que defende que não existe uma causa para uma doença e não haverá apenas uma resposta ou tratamento para corrigi-la”.

Contactado pelo Correctiv, a Comissão de Qualidade de Cuidados do Reino Unido, que regula a área de saúde e bem-estar, garantiu que a empresa não está registada na organização. “Isto pode acontecer porque não oferecem as chamadas ‘atividades regulamentadas’”, explicou o porta-voz da comissão.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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