A partilha de mensagens nas redes sociais que alertam para os riscos causados pelo uso continuado das máscaras de proteção individual tem sido recorrente. Desde que estas medidas de proteção se tornaram obrigatórias em estabelecimentos comerciais e transportes públicos, já vários mitos foram desmentidos pelo Polígrafo, com destaque para a alegação (falsa) de que o uso prolongado de máscaras pode causar hipoxia.

Entretanto surgiram novas publicações, nas quais se identifica uma outra condição respiratória supostamente associada ao uso das máscaras, sobretudo durante a prática de exercício físico: hipercapnia. O Polígrafo questionou vários especialistas sobre esta matéria.

Para entender melhor o alerta, é necessário saber o que é hipercapnia: esta condição resulta do aumento dos níveis de dióxido de carbono no sangue. A hipercapnia pode acontecer devido a doenças do foro respiratório, a um aumento do esforço físico ou a uma redução dos níveis de oxigénio no ar, entre outros fatores. O CO2 resulta das trocas gasosas realizadas pelo organismo e é expelido durante a expiração. No entanto, quando os níveis deste composto gasosos começam a subir, o corpo humano está preparado para ativar mecanismos de compensação, tais como o aumento da velocidade da respiração.

Uma das situações em que é possível observar este mecanismo de adaptação do organismo é, precisamente, durante a atividade física. Quando o nosso corpo começa a necessitar de mais energia para manter o ritmo do exercício, começa também a consumir mais oxigénio e a libertar mais CO2. Começa a existir a necessidade de inspirar mais oxigénio e libertar mais CO2 para repor os níveis.

Em várias publicações nas redes sociais alerta-se para o risco de ocorrer hipercapnia durante a prática de atividade física com máscara. Embora apresentem textos distintos, o contexto é mais ou menos similar. “O uso de máscaras durante a atividade física estará a perturbar as vias aéreas normais, o processo respiratório e inalando dióxido de carbono excessivo, CO2 em vez de oxigénio”, descreve-se numa das publicações, indicando depois uma série de sintomas graves da hipercapnia, nomeadamente “coma”, “batimentos cardíacos irregulares ou arritmia”, “perda de consciência” e “depressão ou paranóia”.

Mas será que as máscaras impedem a inalação de oxigénio?

Não propriamente. À semelhança da desmitificação feita pelo Polígrafo sobre o uso prolongado de máscaras provocar hipoxia, também neste caso, o aumento dos valores de inalação de CO2 não são significativos para causarem problemas respiratórios.

“A máscara deixa o ar entrar e sair e todas as máscaras utilizadas, naturalmente, são permeáveis ao ar”, explicou Tiago Alfaro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, questionado pelo Polígrafo. “Numa máscara que é permeável, ainda assim, pode existir uma pequena quantidade de ar que fica mesmo em frente à boca - atrás da máscara - e essa quantidade de ar acaba por ser inalada e exalada. Mas é uma quantidade tão pequena que não faz diferença nenhuma”, assegurou.

Durante a prática de atividade física “pode haver um aumento de CO2 que, numa pessoa saudável, se vai repercutir no aumento da ventilação”, admitiu por sua vez João Munhá, pneumologista no Hospital de Portimão. “Imaginemos uma pessoa que faz exercício todos os dias, que corre 20 a 30 minutos na passadeira e quando chega ao fim está a ventilar. Com a máscara, a hiperventilação vai acontecer mais cedo, vai cansar-se mais”.

Os sintomas referidos na publicação podem ocorrer durante uma situação de hipercapnia, mas são sintomas teóricos. “O CO2, quando se acumula [no sangue], provoca uma perturbação do nível de consciência que vai do estado de confusão até ao coma do ponto de vista neurológico. Do ponto de vista da respiração, o que faz é aumentar a ventilação e a dificuldade respiratória e ao nível cardíaco vai provocar o aumento do ritmo cardíaco. E aumentando o ritmo cardíaco aumentam as possibilidades de ter arritmias. Isto é tudo hipoteticamente, não quer dizer que vá acontecer a qualquer pessoa”, explicou Munhá. 

“Eu acho que é possível que as máscaras provoquem alguma dificuldade respiratória, nomeadamente durante o exercício físico intenso. Agora, a pessoa cair para o lado de repente, em coma, sem passar por nenhum estado de dificuldade respiratório, acho muito difícil”, sublinhou pneumologista, assegurando que tal cenário “não é realista”. A situação de coma - o sintoma mais extremo referido na publicação - ocorre “com níveis de hipercapnia muito elevados” que só se atingem quando há uma completa “falência dos mecanismos de compensação da hiperventilação”.

“A pessoa que usa máscara está a defender os outros. Se estiver a correr sozinha na rua não precisa da máscara”, ressalvou Munhá. Se preferir manter o uso da máscara, o atleta deve ter em atenção alguns fatores durante a prática desportiva: “Deve treinar dentro do ritmo cardíaco que é recomendado ou em que treina habitualmente; quando notar que o ritmo está mais acelerado que o normal, deve abrandar; quando notar que está a ter dificuldades respiratórias, que é difícil compensar o ar, deve parar ou descansar; se começar a ter cefaleias ou tonturas também devem parar”, aconselhou.

Outra questão a ter em conta é usar sempre máscaras secas. Durante a atividade física torna-se mais fácil molhar o equipamento de proteção, devido à transpiração e ao aumento da velocidade respiratória. Esse fator vai contribuir para que a respiração se torne mais difícil, uma vez que quando a máscara está molhada oferece uma maior resistência à respiração e torna-se menos permeável à passagem do ar. Caso a máscara fique molhada, deverá trocá-la para poder continuar a prática desportiva em segurança

É importante ter em atenção o tipo de máscara utilizado, assim como a permeabilidade das mesmas. Segundo as especificações técnicas publicadas pelo Infarmed e pela Direção-Geral de Saúde (DGS), as máscaras de utilização individual devem, em situações normais, ter uma “respirabilidade de 8l/min”, resistir a uma pressão de “40Pa/s” e permitir “4h de uso ininterrupto sem degradação da capacidade de retenção de partículas nem da respirabilidade”.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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