O fenómeno das alterações climáticas e matérias subjacentes constituem um dos temas mais populares (e controversos) nas redes sociais. As publicações sobre as emissões de carbono têm obtido um grande alcance nos últimos tempos, mas nem todas são tão factuais e rigorosas como fazem crer. É o caso de uma imagem que apresenta uma comparação entre a quantidade de combustível gasto por um avião e para operar uma “fazenda”.

De um lado o Airbus A380, o maior dos aviões comerciais em circulação que aparece na imagem ligado a um consumo diário de 330.000 litros de combustível. Do outro lado, o mesmo valor de combustível supostamente daria para uma “fazenda” trabalhar “1.200 hectares por 11 anos”, produzindo assim “33.000 toneladas de grão, 16.500 ovelhas, 141.520kg de lã” e ainda “sequestrando carbono durante o processo”. Mas estarão estes números corretos? E a comparação fará algum sentido?

No que respeita ao avião, uma vez que está indicado o modelo de aeronave em causa, é possível calcular os gastos de combustível. O Polígrafo questionou vários especialistas na área de Engenharia Mecânica para conferir se é ou não verdade que o Airbus A380 consome 330.000 litros por dia.

“A capacidade total de combustível da aeronave, no caso do Airbus A380, não anda muito longe desse valor, segundo as indicações da Airbus. Embora quem trabalha nessa área funcione em quilos de combustível e não em litros”, explica João Melo de Sousa, professor de Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico de Lisboa, ressalvando porém que a capacidade total da aeronave e o consumo diário “são completamente diferentes”.

“As aeronaves normalmente não funcionam, do ponto de vista operacional, com o máximo de combustível. Porque se levassem o máximo de combustível não poderiam levar carga paga, ou seja, passageiros e carga comum”, sublinha.

O peso máximo para um avião descolar resulta de um balanço entre os depósitos de combustível e o número de pessoas e carga que leva no trajeto. Ou seja, quanto maior for o nível de combustível, menor é o número de pessoas e bagagens que pode ser transportada. Normalmente, as companhias aéreas estabelecem um equilíbrio economicamente favorável entre os bilhetes vendidos e o combustível necessário para a viagem.

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Para viajar com o combustível no máximo, o avião teria que voar praticamente vazio. “Não se usa. Não é rentável. Seria levar o avião para outro lado, como por exemplo quando vem da fábrica. Não se justifica”, garante João Melo de Sousa, professor do Instituto Superior Técnico.

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Apesar de ser possível um avião viajar com os depósitos cheios até ao máximo, isso não é uma prática comum. Para viajar com o combustível no máximo, o avião teria que voar praticamente vazio. “Não se usa. Não é rentável. Seria levar o avião para outro lado, como por exemplo quando vem da fábrica. Não se justifica”, garante o professor do Instituto Superior Técnico.

“O valor padrão do raio de ação de um A380 é de cerca de 15.000 quilómetros, não muito mais que isso. Esse é o valor quando consideramos que a aeronave vai com a máxima carga paga - mercadorias ou passageiros - e carregada com combustível até ao peso máximo à descolagem. É um limite estrutural que a aeronave nunca pode exceder”, explica João Melo de Sousa.

Por sua vez, Gonçalo Duarte, professor de Aerodinâmica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, analisou alguns voos de um Airbus A380 da companhia Emirates, a título exemplificativo, e concluiu que os valores gastos por dia são normalmente inferiores aos que são indicados na publicação em análise. No entanto, admite que não é impossível ultrapassar os evocados 330.000 litros de combustível em pouco mais de 24 horas.

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“A utilização máxima normalmente é de duas viagens por dia e depende muito. Estive a pesquisar alguns valores mais típicos, como Dubai-Londres, ou Londres-Dubai, e não tem nada a ver com o que é dito na imagem. Estamos a falar de entre 139,7 mil a 151,4 mil litros. É quase metade do que dizem aqui”, calcula Gonça Duarte, professor de Aerodinâmica no Instituto Superior de Engenharia.

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“No trajeto mais longo que fazem, gastam entre 260 a 280 mil litros”, afirma Gonçalo Duarte, referindo-se a uma viagem que ligava Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a Auckland, na Nova Zelândia. “A utilização máxima normalmente é de duas viagens por dia e depende muito. Estive a pesquisar alguns valores mais típicos, como Dubai-Londres, ou Londres-Dubai, e não tem nada a ver com o que é dito na imagem. Estamos a falar de entre 139,7 mil a 151,4 mil litros. É quase metade do que dizem aqui”, reforça. Através do site da Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO na sigla inglesa) poderá pesquisar as emissões de carbono por voo.

Por outro lado, num período de 26 horas - pouco mais do que as 24 horas indicadas na imagem -, um avião da Emirates fez três viagens, ligando Sydney (Austrália) ao Dubai, seguindo depois para Barcelona (Espanha) e regressando ao Dubai. Nesse caso, o Airbus A380 terá ultrapassado os 330.000 litros de combustível gastos. “Tudo somado dá entre 389,1 mil a 421,8 mil litros”, conclui.

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Do outro lado: Um trator ou todas as máquinas da “fazenda”?

“A comparação é sempre sensacionalista. Está-se a comparar duas coisas que são difíceis de comparar”, adverte Fernando Ferreira, professor de Engenharia Mecânica do Instituto Superior de Engenharia do Porto. “Se usar outro indicador, posso tentar passar a ideia do contrário: o trator é 100 ou 1.000 vezes mais gastador do que o avião se me referir ao custo do transporte de pessoas”.

Para Fernando Ferreira, os valores apresentados são possíveis, mas referem-se a um extremo, quer nos aviões quer nos tratores. Para os aviões estaríamos a falar de 24 horas em voo, enquanto para os tratores teriam que ser 365 dias de trabalho por cada um dos 11 anos. “Estamos a falar de 330.000 litros, se dividir por 11 anos, dá 30 mil litros por ano. Agora depende: divide-se por 200 dias úteis ou por 365 dias? É que estamos a pôr o avião a andar no limite… Se dividir por 200 resulta em 150 litros por dia. É muito e tem de ser um trator grande a trabalhar 24 horas seguidas. Mas se dividirmos por 365 dá 82 litros por dia, que são divididos por 10 horas de trabalho”, contabiliza. De qualquer modo reconhece que, seguindo estes parâmetros, um trator “gasta, sem dúvida nenhuma, estes valores”.

Contudo, volta a ressalvar: “O trator para gastar isto tem que trabalhar todos os dias a lavrar e a colher. Mas o trator não trabalha quando a plantação está a crescer”.

Gonçalo Duarte e João Melo de Sousa mostraram-se mais reticentes sobre os valores apresentados relativamente aos gastos do trator. “Depende da potência do trator. Pode variar muito, os consumos podem ser o dobro ou o triplo, portanto é extremamente impreciso fazer o cálculo. Podemos escolher um trator que consuma muito pouco e ter uma análise bastante benéfica para esse lado”, afirma João Melo de Sousa.

Na perspetiva de Gonçalo Duarte, a questão principal começa por ser o que está incluído na “fazenda”. Se é só o consumo do trator ou se estará a ser contabilizada outra maquinaria. “Depende muito da quantidade de maquinaria utilizada. E depende muito dos solos e da produção. Não lhe consigo arranjar um valor certeiro”.

No entanto, analisando os valores de consumo médio de tratores indicado no relatório “Simple and cost effective method for fuel consumption measurements of agricultural machinery”, publicado em 2012, a atividade de gradagem pode gastar entre 7,1 e 10 litros por hectare, enquanto a colheita poderá ir dos 5,3 aos 7,5 litros por hectare. “O problema dos tratores é que são muitas vezes usados como uma tomada de força, têm uma série de equipamentos atrelados aos tratores o que faz com que diferentes tarefas levem a consumos diferentes”, salienta Gonçalo Duarte.

Façamos as contas a estas duas atividades: no caso da gradagem, tomando o valor máximo indicado de 10 litros por hectare, podíamos concluir que, para operar nos 1.200 hectares indicados na imagem, o trator conseguiria cobrir a área 27,5 vezes com os referidos 330.000 litros de combustível. Este valor implica que só poderia fazer gradagem duas vezes por ano. Já para a colheita, o mesmo aparelho poderia fazer até 36,7 voltas à área, o que daria três voltas completas por cada um dos 11 anos referidos.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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