O nome tornou-se conhecido do público, a história ainda mais. Yusra Mardini está radicada na Alemanha há seis anos, mas foi a Síria o país que lhe deu nacionalidade e do qual fugiu em 2015, depois do reacender da guerra civil. Aos 23 anos, Mardini compete pela segunda vez nos Jogos Olímpicos, com um percurso e história que davam, e deram, um livro: Mariposa.

É embaixadora do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), fez parte da primeira Equipa Olímpica de Refugiados nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, e foi nomeada como uma das 25 mulheres que estão a mudar o mundo e como uma das 30 adolescentes mais influentes, pelas revistas People e Time, respetivamente. À parte disso, fez avançar, juntamente com a irmã e durante cerca de três horas, um bote até à costa de Lesbos, ilha grega. Lá dentro estavam 18 refugiados.

Os primeiros anos de vida de Mardini foram passados em Darayya, um subúrbio de Damasco outrora famoso pelo fabrico de móveis, e desde cedo que a atleta vive como um peixe dentro de água. Aos quatro anos começou a "ser largada" na piscina, tornou-se atleta federada e chegou a competir nos Mundiais de Piscina Curta, motivada pelo pai, treinador de natação, e pela irmã mais velha, que já competia.

Mardini frequentava o sétimo ano, em 2011, quando os primeiros protestos insurgiram contra Bashar al-Assad, presidente sírio no poder desde 2000. Nos anos que se seguiram, a atleta viu a sua casa ser destruída e foi obrigada a parar de treinar durante dois anos. Depois de viver em Damasco, Mardini começou a implorar por uma via alternativa: a Europa.

Em agosto de 2015, Mardini e a irmã mais velha deixavam a Síria, passando pelo Líbano para chegar à Turquia, de onde só voltaram a sair num bote com capacidade para cerca de seis pessoas. Eram vinte, no total, e seguiam rumo a Mitilene, capital da ilha de Lesbos. Sobrelotado e não muito afastado da costa turca, o barco cedeu e o motor parou. Tinham passado cerca de 30 minutos de viagem e os migrantes estavam prestes a afundar no Mar Egeu.

Sem tempo de sobra para reagir, Yusra, a irmã e outras duas pessoas que se encontravam no bote empurraram-no a nado até à costa de Lesbos. "Utilizamos as nossas pernas e um braço cada uma - seguramos a corda com a outra mão e empurramos. As ondas não paravam de chegar e de me bater nos olhos. Essa foi a parte mais difícil - o ardor da água salgada. Mas o que podíamos fazer? Deixar que todos se afogassem? Estávamos a empurrar e a nadar para salvar todas as vidas”, contou Mardini em entrevista à Vogue, em março de 2017.

Depois de Lesbos, as irmãs radicaram-se em Berlim, na Alemanha. Mardini voltou aos treinos, com o treinador Sven Spannenkrebs, e em junho de 2016 conseguiu garantir a qualificação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, pela Equipa Olímpica de Refugiados. Quase um ano depois da travessia entre a Turquia e a ilha grega, Mardini lutou por medalha nos 100 metros livres e nos 100 metros mariposa, mas não foi rápida o suficiente para garantir um lugar na semifinal. Ainda assim, a atleta conseguiu vencer o respetivo heat de apuramento nos 100 metros mariposa.

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, que estão ainda a decorrer, Yusra Mardini fez novamente parte da equipa que acolhe 29 atletas refugiados, tendo sido escolhida como porta-estandarte. Em competição, a síria ficou de fora da final dos 100 metros mariposa, mas afirmou em entrevista ao canal oficial dos Jogos Olímpicos que, apesar de não carregar a bandeira do seu país, carrega a "bandeira olímpica, que representa todo o mundo".

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