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Ter colesterol alto diminui a probabilidade de ter cancro?

Saúde
O que está em causa?
Nas redes sociais, há quem defenda que ter colesterol alto diminui a probabilidade de ter cancro. Mas a ciência confirma-o?

Ter o colesterol elevado costuma ser um motivo de preocupação, principalmente pelo aumento do risco de desenvolver doenças cardíacas ou cerebrais. Mas, num vídeo com um milhão de visualizações no Instagram, diz-se que ter o colesterol alto é, na verdade, um fator protetor contra o cancro.

“Quando o colesterol de uma pessoa é muito baixo, abaixo de 120, essa pessoa tem cancro”, diz Walter Hartenbach (1952-2012), médico alemão, para justificar a tese de que valores altos protegem da doença. 

Ao longo da vida, Hartenbach publicou vários livros com teses que foram desmontadas — defendia, por exemplo, que não há ligação entre o tabagismo e cancro do pulmão.

Mas será mesmo assim? O facto de doentes oncológicos terem, muitas vezes, valores baixos de colesterol implica que valores elevados sejam um fator protetor?

Ter colesterol alto protege de doença oncológica?

Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), foi perentório: “Não há evidência absolutamente nenhuma que confirme esse tipo de afirmações”. Mas antes de perceber qual a relação entre colesterol e cancro, importa perceber o que é o colesterol. 

O colesterol é uma gordura existente no organismo necessária para “funções vitais, como a produção de vitaminas, hormonas” que está presente na parede das células, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas, “quando em excesso no sangue, pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares”, é um fator de risco para esse tipo de doenças.

Uma parte do colesterol é produzida pelo próprio organismo e a outra é obtida através da alimentação.

Quando se fala de colesterol fala-se, vulgarmente, em colesterol “bom” e colesterol “mau”. O bom, o HDL, “ajuda no transporte do colesterol para o fígado, onde este é eliminado” — é uma lipoproteína de alta densidade que funciona como “um sistema de proteção contrariando o risco de desenvolver doença cardiovascular”, de acordo com o SNS.

Já o colesterol “mau”, ou LDL (lipoproteína de baixa densidade), é aquele que, quando em excesso, se deposita na parede das artérias, fazendo com que o sangue tenha menos espaço para passar, e aumenta o risco de doença cardiovascular. 

O colesterol total deve manter-se em níveis inferiores a 190 mg/dL e o colesterol LDL abaixo dos 115 mg/dL. Para pessoas com doença cardiovascular ou diabetes, os valores de referência são diferentes: o total deve ser menor do que 170 mg/dL e o LDL menor do que 100 ml/dL (em doentes com risco vascular muito alto, este valor desce para 70). Já o colesterol “bom” deve ser superior a 40 mg/dL nos homens e 50 mg/dL nas mulheres.

Em Portugal, cerca de 64,4% da população regista valores superiores a 190 mg/dL para o colesterol total. O docente da FMUP diz mesmo que “ter colesterol alto é provavelmente um dos maiores fatores de risco, neste momento, para a mortalidade no mundo inteiro”.

Mas a ligação entre colesterol e cancro não é a que está descrita no vídeo acima referido. Paulo Santos explica que a relação “é indireta” e “contrária” ao que Walter Hartenbach afirma.

Ou seja, “circunstâncias que fazem com que o colesterol aumente, como a alimentação [não saudável], acabam por ter impacto no risco oncológico” — uma pessoa com níveis de colesterol muito elevados pode ter, de forma indireta, mais probabilidade de desenvolver cancro. 

No vídeo, o médico alemão apresenta como prova para a sua tese o facto de pessoas com cancro terem colesterol baixo. Isso acontece devido ao “estado geral” do doente: o cancro pode provocar certas alterações que podem fazer baixar abruptamente os níveis de colesterol, principalmente em estadios mais avançados. Mas “não podemos dizer que foi o facto de ter o colesterol baixo que provocou o cancro”, sublinha Paulo Santos. 

“Sabemos que cancro da mama é mais prevalente em mulheres obesas, que muitas vezes podem também ter colesterol mais alto”, mas “não há uma relação causa-efeito, o que há são concomitâncias de vários fatores”. “[O colesterol alto] não é um fator de risco, é um epifenómeno”, conclui o médico.

“Uma alimentação rica em gorduras acaba por ter impacto negativo tanto em termos do risco metabólico, obesidade, diabetes, colesterol, risco cardiovascular e doença oncológica eventualmente também”, explica o médico. O que é muito diferente de afirmar que o colesterol, por si só, é um fator de risco (ou de proteção, como é afirmado no vídeo) para o desenvolvimento de cancro.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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