O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Depressão Kristin. Mau tempo em Portugal fez baixar preço da eletricidade? 

Sociedade
O que está em causa?
Nas redes sociais, circulam mapas que comparam os preços da eletricidade em Portugal com outros países. Será possível que o megawatt-hora tenha baixado para cerca de 1 euro à boleia da chuva e do vento forte? Sim... mas nem todos os portugueses vão sentir este impacto na fatura de eletricidade.
© Miguel A. Lopes/Lusa

Publicado ao início da tarde de ontem, um mapa comparativo dos preços da energia elétrica de vários países chama a atenção para o (baixo) preço da eletricidade em Portugal. Na descrição, aponta-se a chuva e o vento forte que têm marcado as últimas semanas, pautadas pela depressão Kristin e outras tempestades, como razões para esta queda abrupta. O “tweet” soma mais de 14 mil visualizações, mas será que transmite informação verdadeira?

Sim. De acordo com os dados disponibilizados pela REN, os preços da eletricidade nestes primeiros dois dias de fevereiro fixaram-se nos 1.04€/MWh (megawatt-hora), um valor significativamente inferior ao registado no mesmo período do ano passado.

“Neste mês, o preço médio situa-se em 1,04 €/MWh. Em fevereiro, o preço médio ponderado foi de 3 €/MWh, em comparação com 108 €/MWh no mesmo mês do ano anterior. O preço acumulado anual situa-se em 67 €/MWh, face a 102 €/MWh no mesmo período do ano anterior”, descreve o site.

A mesma fonte destaca ainda que a maior parte da eletricidade produzida no primeiro dia do mês vem precisamente de fontes renováveis como a hídrica e a eólica, que representam, em conjunto, 93,29% da energia “verde”.

Em declarações ao Polígrafo, o engenheiro ambiental e investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade, Miguel Macias Sequeira, explica que “o que está a acontecer estas semanas é que há muito recurso eólico e hídrico”, suficiente para suprir as necessidades do país. “Está a ser produzida mais energia do que o país precisa e, como há muita oferta, acaba por gerar preços mais baixos”, acrescenta.

O especialista acrescenta que o mercado elétrico funciona segundo um modelo marginalista, no qual o preço final resulta da última central necessária para satisfazer a procura em cada hora. “Como existe muita produção renovável disponível, com custos baixos, os preços que acabam por se formar no mercado também são mais baixos”, explica.

No entanto, esta descida abrupta não se reflete na fatura da maioria dos consumidores. Grande parte dos portugueses tem contratos de eletricidade com preços fixos, que não variam em função do mercado diário. “Para esses consumidores, não muda absolutamente nada no curto prazo”, sublinha Miguel Macias Sequeira.

A exceção são os clientes com tarifários indexados ao mercado grossista, menos comuns e mais voláteis. “Há alguns milhares de consumidores com este tipo de contrato, mas continuam a ser uma minoria”, conclui.

Em suma, é verdade que, tal como se diz nas redes sociais, a chuva e o vento fortes fizeram cair o preço da eletricidade (à boleia do aumento da produção de energia hídrica e eólica). No entanto, vale a pena destacar que a descida de preços não vai ser sentida pela maioria dos consumidores.

_____________________________

Avaliação do Polígrafo:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque