"Os aquecimentistas lançaram um mapa comparativo de 169 anos, em que no caso mais extremo tem uma subida global da temperatura da terra de 1,5 graus, comparado com 2020. Esqueceram-se de recuar ao período entre o ano 1000 e 1200, quando as temperaturas médias variaram entre 1,2 e 2,0 graus Celsius, muito mais do que os 0,7 graus Celsius de diferença, verificado no planeta ao longo do século XX e as primeiras duas décadas do século XXI", lê-se no post de 24 de maio no Facebook.

Analisando o conteúdo inferido na publicação verifica-se que estes dados foram originalmente revelados por Hubert Lamb, climatologista britânico, num artigo datado de 1965.

"Têm-se acumulado evidências em muitos campos de investigação, apontando para um clima quente em muitas partes do mundo, que durou alguns séculos por volta de 1000-1200, e que foi seguido por um declínio dos níveis de temperatura até 1500 e 1700, a fase mais fria desde a última idade do gelo. Tem havido alguma controvérsia sobre se esta variação climática foi grande o suficiente para ser significativa", escreveu.

"Mudanças na temperatura e na pluviosidade em Inglaterra entre períodos de 50-150 anos de duração, por volta de 1200 e de 1600, totalizaram cerca de 1,2-1,4°C e 10%, respectivamente", sublinha-se no mesmo artigo. "Mudanças em algumas estações do ano podem ter excedido esses intervalos da média anual".

Ora, desde logo verificam-se disparidades entre o texto original e o agora divulgado nas redes sociais. Se, por um lado, o período em análise é diferente (1000-1200 face a 1200-1600), as variações na temperatura são alargadas até aos 2ºC, mais 0,6 do que o valor indicado no estudo de Lamb. Mais, Lamb referia-se apenas a Inglaterra e não à temperatura média global.

Além disso, o autor da publicação acrescenta as "duas primeiras décadas do século XXI" ao cálculo da variação de temperatura, ao passo que o artigo de Lamb contempla apenas o século XX.

Este último dado foi atualizado pelo mais recente estudo da Organização Meteorológica Mundial (OMM), que revela que a temperatura média em 2020 esteve 1,2ºC (e não 0,7) acima da média de 1850 e 1900, o que classifica 2020 como um dos três anos mais quentes no ranking global.

Quanto ao gráfico divulgado no post, trata-se de um trabalho de Neil Kaye, utilizando dados da plataforma HadCRUT5, que compara a temperatura global mensal entre 1851 e 2020 com a média de 1850 e 1900. Os resultados são, de facto, aqueles apontados na publicação em causa: em vários meses nos últimos anos verificam-se aumentos de temperatura na ordem dos 1,5ºC, quando em comparação com a era pré-industrial.

Em suma, é falso que as variações de temperatura tenham sido mais significativas entre os anos 1200-1600 (período corrigido) do que atualmente. Na verdade, não é sequer possível, desde logo, estabelecer um termo de comparação entre os dois períodos, uma vez que se tratam de intervalos temporais díspares. Assim, os dados apresentados na publicação foram manipulados propositadamente para difundir uma conclusão enganadora.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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