"A taxa de ocupação dos hospitais públicos foi, em 2020, em plena pandemia, significativamente menor do que tinha sido em 2019. Em pleno pico da pandemia, em janeiro de 2021, a taxa de ocupação dos hospitais públicos foi menor do que nos períodos homólogos de 2019 e 2020. Comparando mês a mês, em todos os meses do período pandémico, a taxa de ocupação dos hospitais públicos portugueses foi menor do que em igual período do ano anterior".

A citação que transcrevemos é atribuída a António Ferreira, médico internista e ex-presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário de São João, no Porto, em post de 24 de abril no Facebook. Respondendo à solicitação de leitores, o Polígrafo verifica se a citação é autêntica e se os dados oficiais confirmam tal alegação.

Contactado pelo Polígrafo, o próprio António Ferreira, atualmente professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, confirma a autenticidade da citação e esclarece que as suas conclusões resultam de uma análise que fez com base nos dados que estão registados no Portal da Transparência do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e no site da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). As declarações fazem parte de um artigo de opinião publicado no jornal "Observador", a 2 de abril.

"O total de internamentos, incluindo internamentos Covid-19 e não-Covid-19, foi de 4,9 milhões em 2019 e 4,2 milhões em 2020 - indicam os dados do Portal da Transparência. O total de dias foi de 40,7 milhões em 2019 e 36,1 milhões em 2020, o que dá uma taxa de ocupação menor em 2020 do que em 2019. Isto é particularmente marcado nos grandes hospitais", afirma o médico internista, remetendo ao Polígrafo os gráficos que elaborou na análise dos dados.

Os dados indicados por António Ferreira estão em linha com os números disponibilizados no Portal da Transparência. Na análise de atividade de internamento hospitalar, a soma de doentes saídos de internamento em 2019 é de 4.929.261, um valor que em 2020 desce para 4.228.734. No que respeita à soma dos dias de internamento, verifica-se também uma diminuição: o valor referente a 2019 é de 40.737.186 e em 2020 é de 36.126.837.

Quanto à taxa de ocupação das camas hospitalares, confirma-se também que a partir de março de 2020 - mês em que foram identificados os primeiros casos de Covid-19 em Portugal - houve uma tendência decrescente. António Ferreira explica ao Polígrafo que, na sua análise, selecionou apenas os hospitais que estiveram afetos ao tratamento da Covid-19, retirando os hospitais psiquiátricos, de reabilitação, de serviços oncológicos, entre outros.

No entanto, mesmo no gráfico mais geral do Portal da Transparência - que inclui todos os hospitais públicos -, a tendência decrescente mantém-se visível. Entre março de 2020 e janeiro de 2021 registaram-se valores inferiores de internamentos em relação ao período homólogo.

A diferença é ainda mais fácil de observar no gráfico disponibilizado pela ACSS, no qual se compara a taxa de ocupação de todas as instituições registada em 2020 e em 2019. Torna-se evidente que a taxa de ocupação real durante a pandemia foi inferior ao período homólogo, com a tendência decrescente a acentuar-se a partir do mês de março.

© ACSS

Comparando os dados referentes ao mês de janeiro de 2021 - que correspondeu ao maior pico da pandemia em Portugal - com o mesmo mês dos dois anos anteriores, também se confirma a validade da conclusão de António Ferreira: em 2019, a média da taxa anual de ocupação em internamento (de todos os hospitais) era de 93,3%, em 2020 era de 92,9% e em 2021 baixou para 81,5%.

"Isto foi anunciado como o colapso dos hospitais e não se foi capaz de fazer o que se devia ter feito no início que era instituir uma monitorização em tempo real de todas as vagas hospitalares, utilizando os sistemas informáticos. Os responsáveis não quiseram saber e, por isso, foram incapazes de saber o que se estava a passar nos hospitais, reagiam em função do alarmismo que era criado em cada situação episódica que ia acontecendo. Foram tomando medidas para tentar garantir vagas, diminuindo a assistência a outras pessoas e originando consequências no futuro", critica António Ferreira.

Na sua perspetiva, a diminuição do número de internamentos resulta do "somatório da paragem dos cuidados primários de saúde e da referenciação hospitalar; da paragem da atividade cirúrgica programada, decidida pelas entidades oficiais nos hospitais, que levou a muito menos atividade assistencial nos hospitais; e à associação do receio induzido pelo medo propagandeado colocado nas pessoas que passaram a ter medo de recorrer aos serviços de saúde, que é muito bem demonstrado por uma redução no número de episódios de urgência de 28%".

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A análise feita por António Ferreira limita-se aos internamentos, não contando com as unidades de cuidados intensivos (UCI). Como explica ao Polígrafo, os dados referentes ao número de doentes internados em UCI não estão disponíveis. O médico internista considera ser fundamental que o Governo divulgue os números para que possam ser analisados e, por isso, fez um requerimento nesse sentido junto da ACSS, para que os dados brutos sejam disponibilizados.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Verdadeiro: as principais alegações do conteúdo são factualmente precisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Verdadeiro" ou "Maioritariamente Verdadeiro" nos sites de verificadores de factos.

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