"Mamografia é o maior crime organizado contra as mulheres! As mulheres que fazem mamografias provavelmente não têm noção do mal que fazem a si mesmas", começa por se indicar numa das várias publicações que estão a circular viralmente no Facebook.

Entre os vários "detalhes" apontados, destaca-se a alegação de que o "tecido da glândula mamária é bombardeada por raios radioactivos", estimulando "o crescimento de tumores e a disseminação de metástases", e que a Suíça "é o primeiro país do mundo a proibir os exames mamográficos".

A publicação tem fundamento?

Começando pela alegação de a Suíça ter proibido as mamografias, esta é falsa. Não há registo de nenhuma medida proibitiva ou de suspensão deste tipo de exame no país em causa, este é, aliás, recomendado.

Mais, em declarações dadas à AFP Checamos no dia 2 de novembro, um porta-voz do Escritório Federal Suíço de Saúde Pública garantiu que "a mamografia não é proibida na Suíça" e que o exame "é coberto pelo seguro saúde".

Ao Polígrafo, o oncologista Gonçalo Nogueira Costa, ligado a um estudo clínico europeu de que faz parte o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, o BRIGHT, cita a Associação Suíça de Rastreio do Cancro que "recomenda ativamente o rastreio de cancro da mama com mamografia".

Existiu, no entanto, em 2014, um debate sobre a possível suspensão das mamografias lançado pelo Conselho Médico suíço. Na altura, o Conselho Médico recomendava que não fossem introduzidos novos programas de rastreio com recurso a mamografias e que fossem impostos limites de tempo aos programas atuais para que a qualidade do rastreio fosse avaliada e as mulheres recebessem informação clara sobre os benefícios e riscos.

O oncologista afirma que este não era vinculativo e "não teve qualquer efeito em termos de decisão política".

Sendo assim, e uma vez que houve discussão sobre o tema, existem riscos?

Gonçalo Nogueira Costa afirma que é importante clarificar que "a mamografia pode ser utilizada em diversos contextos", ou seja, como rastreio em pessoas saudáveis para identificar um eventual tumor sem que exista "qualquer queixa ou suspeita de uma doença", ou em pessoas que "já tiveram cancro ou que têm" para vigilância, "para ver se o cancro volta ou até para avaliar se o cancro está a responder ao tratamento e isso é um contexto totalmente diferente".

Ora, tanto no caso do post como no que motivou a discussão na Suíça há 10 anos, o que está em causa, na opinião do oncologista, é o rastreio em pessoas saudáveis que "geralmente, principalmente nas patologias oncológicas, é implementado num país com um propósito, que é reduzir a mortalidade daquela doença, a taxa de mortalidade".

E sim, para levar a cabo o exame, existe radiação, no entanto, "é muito baixa e os benefícios suplantam o risco". De acordo com o oncologista, a "taxa de mortalidade poderá ser reduzida em pelo menos 20%, dependendo depois de vários fatores".

Mais, Costa frisa que o que há cerca de 10 anos motivou a discussão foram "análises, estudos, acerca da mamografia utilizada em rastreio, que contestou um bocadinho essa diminuição da mortalidade através do rastreio generalizado", porém estas análises foram baseadas em estudos "já antigos, que utilizavam técnicas antigas, que hoje em dia já não são utilizadas".

O oncologista lembra ainda que "a radiação, com as técnicas que dispomos hoje em dia é bastante menor, e é sempre a níveis abaixo daqueles que são proibidos pelas principais agências farmacológicas".

Por exemplo, continua o oncologista, nos Estados Unidos da América "a utilização da mamografia anual tem uma taxa de radiação inferior àquela que a FDA (Food and Drug Administration) considera limite". Isto significa que "o total da radiação é muito inferior ao real benefício que a mamografia pode trazer", acrescenta o especialista.

No mesmo sentido, num texto informativo da Cancer Research UK (uma das principais organizações independentes de investigação do cancro a nível mundial), aponta-se que "cada mamografia expõe a mulher a uma pequena quantidade de radiação proveniente dos raios X, mas a quantidade de radiação é muito pequena".

A mesma entidade esclarece que é "muito raro" os raio X poderem causar cancro e que "a realização de mamografias de 3 em 3 anos durante 20 anos aumenta muito ligeiramente a probabilidade de contrair cancro ao longo da vida de uma mulher.

Relativamente às recomendações, estas variam ainda de país em país. "Há até países que recomendam o rastreio mais cedo, a partir dos 40 anos, por exemplo, e em Portugal a recomendação é a partir dos 50 anos", destaca o oncologista.

Estas recomendações de rastreio estão inscritas no site do Serviço Nacional de Saúde que, quanto ao cancro da mama, informa que "o consenso inclui a realização de mamografia a cada dois anos, dos 50 até aos 69 anos de idade".

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