O Governo apresentou, esta quarta-feira, uma proposta de lei que pretende tornar o uso app Stayaway Covid obrigatório, decisão que originou milhares de comentários nas redes sociais nos quais se coloca em causa a constitucionalidade da medida e o impacto que esta tem na liberdade individual dos cidadãos.

Mas dias antes desta polémica, já havia quem questionasse o real efeito da aplicação na prevenção das infeções provocadas pelo novo coronavírus: “Esta app é um sucesso. Já foram feitos mais de um milhão e 400 mil downloads da aplicação Stayaway Covid e 116 pessoas inseriram o código em como estavam infetadas, para alertar quem esteve em contacto próximo”, pode ler-se numa publicação irónica, como demonstram os emojis usados pelo autor do texto, que agrega uma notícia do "Jornal de Notícias".

app covid

Mas esta não foi a única publicação com este sentido crítico que se propagou na Internet. Num outro texto garante-se que “a aplicação custou 400 mil euros e que "apenas 113 infetados introduziram os códigos testes”.

covid 19

Segundo os dados mais recentes, enviados pelo Ministério da Saúde ao Polígrafo, até ao dia 15 de outubro foram realizados 1.683.042 downloads da aplicação e inseridos 179 códigos de testes positivos na mesma, dos quais resultaram 152 chamadas para o SNS24. Este número de ligações “significa que estas pessoas foram alertadas pela aplicação e, desta forma, puderam mais rapidamente saber do seu contacto com alguém infetado”, considera o gabinete de Marta Temido.

Nos últimos dias, houve um aumento do número de downloads da aplicação. Entre quarta e quinta-feira (dias 14 e 15 de outubro, respetivamente) a Stayaway Covid foi descarregada por 177.470 utilizadores, quando no dia anterior tinham sido registados 73.509 downloads. 

Nos últimos dias, houve um aumento do número de downloads da aplicação. Entre quarta e quinta-feira (dias 14 e 15 de outubro, respetivamente) a Stayaway Covid foi descarregada por 177.470 utilizadores, quando no dia anterior tinham sido registados 73.509 downloads. 

Rui Oliveira, administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), que desenvolveu a aplicação, disse à "Lusa" que é muito provável que os descarregamentos estejam relacionados com duas coisas: a tomada de decisão do Governo [sobre obrigatoriedade da utilização da aplicação], mas também o jogo da seleção [de futebol de quarta-feira], porque nos últimos dois jogos da seleção foi feita muita divulgação”.

Os dados referidos nas várias publicações em análise estão em concordância com a informação divulgada pelo secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, na conferência de imprensa de dia 12 de outubro. Lacerda Sales afirmou que, até àquele momento, tinha sido feitos “um milhão e 400 mil downloads da aplicação, inseridos cerca de 116 códigos que deram origem a 137 chamadas para o SNS24”.

Luís Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, igualmente presente na conferência de imprensa, respondeu à dúvida se este não seria um número demasiado baixo para que seja cumprido o propósito da aplicação: “É uma app que assenta na liberdade: na liberdade de descarregar, na liberdade de usar, na liberdade de inserir o código que é gerado e na liberdade de depois até, daqueles que venham a ser considerados pela app contactos de alto risco, de contactar o SNS24”.

O responsável pelos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde acrescentou, ainda, que “os números de Portugal estão em linha com aqueles que se verificam na Europa” e enumerou os valores registados em vários países (à data):

Áustria: 900.000 downloads – 56 códigos carregados

Finlândia: 2.300.000 downloads – 158 códigos carregados

Itália: 7.000.000 downloads – 257 códigos carregados

Polónia: 860.000 downloads – 45 códigos carregados

Para o Ministério da Saúde, “o número de downloads demonstra que a adesão à app está a ser positiva”. O gabinete de Marta Temido considera que “bastará que um contacto de alto risco tenha sido identificado mais depressa por via da utilização da app, do que por outro meio, para ter valido a pena".

Para o Ministério da Saúde, “o número de downloads demonstra que a adesão à app está a ser positiva”. O gabinete de Marta Temido considera que “bastará que um contacto de alto risco tenha sido identificado mais depressa por via da utilização da app, do que por outro meio, para ter valido a pena".

 

Não são apenas os códigos inseridos na aplicação que ficam aquém dos valores registados de novos casos de Covid-19 em Portugal. O jornal Expresso noticiou que entre 1 de setembro e 8 de outubro os médicos apenas geraram 430 códigos para inserir na aplicação, dos quais 113 foram inseridos na aplicação, de acordo com dados avançados pelo INESC TEC. Sabendo que foram registados 23.244 novos casos de Covid-19 no mesmo período, a percentagem de códigos criados não chega aos 2% dos novos casos positivos. 

Investimento de 400 mil euros

Os números avançados por Lacerda Sales geraram publicações de indignação nas quais se questionava o retorno do investimento de 400 mil euros na aplicação. Mas será este o valor real do custo da aplicação? Quem pagou a criação da app?

Numa entrevista ao "Eco", publicada a 21 setembro de 2020, Rui Oliveira explicou que a conceção da app custou “perto de 400 mil euros”. O administrador referiu que, até àquele momento, não tinha existido “qualquer financiamento público”, mas que o instituto tinha que pensar como compensar o prejuízo causado pelo investimento.

“Somos uma instituição sem fins lucrativos e ou compensamos isto ou vamos ter prejuízo, e esse prejuízo vai repercutir-se em recursos humanos. Ou arranjamos forma de ser ajudados por mecenato, que é algo que temos evitado, pela sensibilidade da aplicação e do tema. A alternativa é, como laboratório associado do Estado que somos, sermos ressarcidos por parte da FCT [ndr: Fundação para a Ciência e a Tecnologia]. Mas é uma decisão que, obviamente, não nos compete a nós”, disse. 

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