"Portanto, os nomes 'moderados' do PS que durante anos foram considerados como sendo seres pensantes independentes e anti-extremismos de esquerda, Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto, na primeira oportunidade apoiaram PNS [Pedro Nuno Santos], o supra-sumo das geringonças com radicais", destaca-se num tweet de 8 de dezembro. Apenas um exemplo entre muitos outros que foram publicados sobre o artigo de opinião que Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS, publicou no jornal "Expresso" nesse mesmo dia. Ao ponto de se tornar mesmo um "trending topic" no X.

Nas páginas do "Expresso", sob o título "O virar de página", Sousa Pinto criticou o que descreveu como "sempre-em-pés, homens e mulheres para todas as estações, gente que brotou do nada político durante o costismo, ou que nele vicejou, atingindo frondosas proporções", os quais têm "desfilado por estes dias, abjurando a geringonça que foi, afinal, o generoso útero político que os resgatou da obscuridade".

Em contraponto - numa evidente referência à corrida pela sucessão de António Costa na liderança do PS -, Sousa Pinto sublinhou que "Pedro Nuno Santos ficou sozinho na defesa da geringonça, na qual acreditou e a qual serviu, com boa fé até ao fim, com uma convicção que não lhe pareceu decente, por cálculo, desdizer ou repudiar".

Embora admitindo ter "convicções opostas" às de Pedro Nuno Santos em relação aos "benefícios das alianças à esquerda", as quais aliás "não se alteraram entretanto", Sousa Pinto observa que "não renegou nada do que fez, disse e é". Posto isto, lança um elogio: "No atual contexto, formatado por anos de habilidade, não se apresenta como um radical mas como uma ilha de dignidade."

Considera também que Pedro Nuno Santos tem "coragem, autenticidade e respeito por si próprio", ainda que tais "virtudes" não sejam, por si só, "suficientes para fazer um bom líder nem um melhor Primeiro-Ministro". No entanto, adverte que "quem as não tem, nem provou ter, ao longo de anos de prostrados serviços ao líder agora de saída", faria melhor em reservar-se a um "prudente silêncio".

O antigo líder da Juventude Socialista (tal como Pedro Nuno Santos) conclui o texto a argumentar que "as fraturas que as eleições internas no PS estão a expor, nasceram no Conselho de Ministros e no Estado-Maior do costismo". Neste âmbito, assegura que "na denominada 'ala direita', cada um fará o que bem entender, como é de regra", mas não deixa de revelar quem merece o seu apoio: "Por mim, estou com o virar de página."

De facto, Pedro Nuno Santos foi recorrentemente classificado como uma espécie de "pivô" da "geringonça" quando exerceu as funções de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, entre 2015 e 2019. Nesse período assumiu um papel central na coordenação entre o Governo do PS e os parceiros do acordo de incidência parlamentar (BE, PCP e PEV), com especial protagonismo e relevância nos processos de negociação dos quatro Orçamentos do Estado aprovados nesses anos.

Posteriormente, já no cargo de ministro das Infraestruturas e da Habitação, continuou a ser um defensor convicto das virtudes e dos resultados obtidos por essa solução de Governo. Posição que mantém agora que se candidata à liderança do PS.

Pelo contrário, Sousa Pinto foi sempre um crítico convicto dessa mesma solução de Governo. Tal como Francisco Assis ou Álvaro Beleza, outros militantes do PS conotados com a "ala moderada" do partido que anunciaram recentemente o seu apoio a Pedro Nuno Santos. Daí a vaga de publicações no X em que se aponta para essa viragem ou contradição.

Numa entrevista de novembro de 2020 ao jornal "Diário de Notícias", por exemplo, Sousa Pinto chegou a dizer que "se não tivesse existido uma geringonça de esquerda não seria possível agora uma geringonça de direita com o Chega".

Assumindo que "era contra a geringonça de esquerda desde o início", Sousa Pinto lamentou que se tenha criado um novo "paradigma" - que considera ser "mau" - em que "os grandes partidos estão reféns dos pequenos partidos que estão alojados no seu extremo político".

Na perspetiva de Sousa Pinto, "a democracia e o regime não ganharam nada com isso mas é aquilo que temos. E isto vai ter um efeito negativo no chamado voto útil. Ou seja: já não há voto útil".

Noutro exemplo anterior (maio de 2018), em entrevista conjunta ao jornal "Público" e rádio Renascença, embora ressalvando que não defendia qualquer acordo do PS com o PSD, afirmou que "o lugar do PS não é capitanear frentismos de esquerda, não é esse. O lugar do PS é perceber que há certas reformas de que o país precisa que só podem ser feitos com a esquerda; e que há reformas de que o país precisa que só podem ser feitas com a direita".

Questionado então sobre se a "geringonça" seria repetível após as eleições legislativas de 2019, Sousa Pinto vaticinou que não e, entre as razões apontadas, realçou que "o Governo já demonstrou que consegue governar. Em tudo o que é essencial o PCP e até o BE não são tidos em consideração - da política de alianças de Portugal, a política europeia, a prioridade absoluta ao equilíbrio orçamental".

Na mesma resposta, Sousa Pinto salientou que "isto vai intrigar os historiadores da posteridade: como é que nós atingimos resultados históricos em termos de consolidação orçamental com um Governo que se apresentou ao país como uma espécie de frente popular?"

De resto, voltou a assegurar que "em tudo o que é essencial ninguém pode acusar este Governo de ter cedido ou transacionado nada de fundamental com os seus aliados políticos".

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