“Uma vez que muitos de nós andamos à procura de alguma esperança, (porque até termos acesso à vacina ainda vai demorar por não sermos de risco, felizmente), será mesmo que este spray funciona?”, perguntou um leitor ao Polígrafo, referindo-se a um desses sprays bucais.

Segundo a mesma fonte, no site do produto lê-se: "O estudo in vitro mais recente demonstrou que o spray pode criar uma barreira protetora contra os coronavírus mais agressivos como SARS-CoV-2. O estudo in vitro revelou que o spray pode inativar o SARS-CoV-2 em 98,3%, em 20 minutos".

spray

Este tipo de produto é realmente eficaz e previne a infeção pelo novo coronavírus?

Ao Polígrafo, Celso Cunha, virologista e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, explica que "após um contágio, o vírus entra rapidamente nas células do trato respiratório, iniciando a sua replicação. Eventuais restos de partículas virais que permaneçam na cavidade bucal não impedem que o indivíduo contagiado assim permaneça e desenvolva a doença. Por isso, a sua eventual inativação local, com ou sem spray, seria absolutamente ineficaz”.

David Rodrigues, médico e responsável de conteúdos médicos da UpHill, uma empresa criada para informar os profissionais de saúde sobre as práticas clínicas mais adequadas, baseadas em artigos científicos, explica que, tal como é descrito na mensagem enviada ao Polígrafo, "o que fizeram foi demonstrar in vitro [ou seja, em ambiente de laboratório, numa placa de vidro] que o produto inativa o SARS-CoV-2, mas não demonstraram nada em humanos".

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Esta diferença é fundamental porque, explica, "inúmeras moléculas podem demonstrar potencial efeito in vitro e depois falharem o teste da realidade. Poderá não ser o caso desta, mas o nível de prova científica apresentada não permite concluir rigorosamente nada sobre a eficácia ou segurança real do produto em pessoas". Ou seja, "qualquer inferência sobre 'diminuição de transmissibilidade' ou 'menor contágio' ou 'qualquer tipo de proteção' é puramente especulativa e marketing e não é suportado pela prova científica", garante o médico.

David Rodrigues afirma que existe ainda um "efeito secundário" que se desenvolve com a utilização deste tipo de spray: "o abandono de práticas de higiene e etiqueta respiratórias bem mais protetoras contra o vírus como o uso de máscaras, lavagem de mãos e o distanciamento social". Para o médico, estes produtos podem "induzir uma falsa sensação de segurança levando as pessoas a preterir as medidas referidas em favor de um spray que não tem qualquer prova científica válida".

Apesar de considerar o produto analisado (spray bucal) ineficaz na prevenção contra o novo coronavírus, o médico chama a atenção para alguns resultados "promissores" de outros estudos, nomeadamente de um publicado recentemente na revista científica Science, sobre o desenvolvimento de tecnologias de aplicação intranasal.

David Rodrigues afirma ainda que existe um "efeito secundário" que se desenvolve com a utilização deste tipo de spray: "o abandono de práticas de higiene e etiqueta respiratórias bem mais protetoras contra o vírus como o uso de máscaras, lavagem de mãos e o distanciamento social". Para o médico, estes produtos "podem induzir uma falsa sensação de segurança levando as pessoas a preterir as medidas referidas em favor de um spray que não tem qualquer prova científica válida".

"Desenharam pequenas moléculas (inibidores de fusão de lipopeptídeos) que bloqueiam a primeira etapa da infeção dos SARS-CoV-2 que é a fusão com as células do organismo que o vírus infecta", explica o médico. "Neste caso, os resultados no modelo animal foram promissores já que a administração intranasal diária preveniu completamente a transmissão do SARS-CoV-2 durante 24 horas, sob condições de convivência com animais infetados que resultou na infeção de 100% dos animais se não tratados".

David Rodrigues ressalva, no entanto, que apenas depois de "confirmados os resultados em humanos este produto pode vir a transformar-se numa potencial profilaxia intranasal segura e eficaz para reduzir a transmissão do SARS-CoV-2".

Assim, conclui que, apesar de terem surgido "avanços interessantes", até ao momento, "não há nenhum spray bucal ou nasal com prova científica que revele a diminuição da transmissão ou a melhoria de sintomas da COVID-19 em humanos".

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Avaliação do Polígrafo:

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