"E Spielberg que criticou tanto a Netflix e agora assinou um contrato com eles. (...) mudou de opinião depois das indicações ao Óscar que a Netflix conseguiu", questiona o autor de um tweet publicado a 22 de junho. Uma publicação semelhante a várias encontradas pelo Polígrafo no Twitter e também no Facebook que sublinham a aparente contradição de Steven Spielberg.

Mas será verdade que o realizador mudou a opinião sobre a plataforma de streaming?

Nos últimos anos, Steven Spielberg afirmou, por diversas vezes, que o streaming estava a destruir a magia do cinema e a experiência única e plena de entrar numa sala escura para ver um filme.

Em 2018, numa entrevista ao ITVNews, o realizador considerou que o modelo da Netflix é em tudo semelhante às produções de televisão e, por isso, os filmes da plataforma deviam concorrer aos Emmy e não aos Óscares da Academia.

"É uma ameaça clara e imediata. Os estúdios preferem fazer blockbusters de marcas consagradas e os filmes mais pequenos que os estúdios faziam migraram para a Amazon, Hulu e Netflix. A partir do momento que nos comprometemos com um formato televisivo, somos um filme para a televisão. Se for um bom filme, certamente merece um Emmy, mas não um Óscar. Não creio que filmes que passam pelos cinemas durante uma semana devam ser considerados para uma nomeação da Academia", argumentou.

O cineasta referia-se à regra da Academia que, para considerar válida a candidatura às nomeações, apenas exige que um filme seja exibido, no ano anterior à atribuição dos Óscares, durante pelo menos uma semana em cinemas de Los Angeles e Nova Iorque.

"Se for um bom filme, certamente merece um Emmy, mas não um Óscar. Não creio que filmes que passam pelos cinemas durante uma semana devam ser considerados para uma nomeação da Academia".

Em fevereiro de 2019, o site norte-americano IndieWire adiantava que o realizador defendia que as produções feitas para o streaming deviam ter regras mais restritivas para poderem concorrer em igualdade de circunstâncias com os filmes dos estúdios. Um porta-voz da Amblin, produtora fundada por Steven Spielberg, avançava ainda que o realizador, que integra um dos órgãos mais importantes da governação da Academia de Hollywood, iria propor na próxima reunião anual a mudança dessas regras.

A polémica ganhou força porque aconteceu dias depois de "Roma", de Alfonso Cuarón, que estreou na Netflix, ter vencido três Óscares — realizador, fotografia e melhor filme estrangeiro — em 10 nomeações. No entanto, o filme respeitou a regra da Academia: esteve em exibição em mais de uma centena de salas nos Estados Unidos e esteve em cartaz três semanas.

Ainda assim, os estúdios de cinema consideram a concorrência desleal porque, ao mesmo tempo, "Roma" estava disponível em mais de 190 países, todos os dias da semana, a qualquer hora, à distância de um simples clique. O tempo entre a estreia nos cinemas e o lançamento em streaming também não respeitou o prazo de três meses, disseram os estúdios, e o número de espectadores não foi revelado.

Perante as críticas, a plataforma não deixou Spielberg sem resposta. Sem mencionar qualquer nome, a Netflix escreveu na sua página oficial no Twitter: "Nós amamos o cinema. Estas são outras coisas de que também gostamos: acesso para as pessoas que não podem pagar [um bilhete] ou moram em cidades sem cinemas; permitir que todas as pessoas em todos os lugares possam desfrutar das estreias ao mesmo tempo; dar aos realizadores mais formas de partilhar sua arte. Estas coisas não são mutuamente exclusivas".

No entanto, uns meses depois, Spielberg esclareceu a polémica num email enviado ao The New York Times. "Quero que as pessoas encontrem entretenimento no formato ou modelo que mais se adapta a elas. Grande ecrã, pequeno ecrã — o que realmente me interessa é uma grande história e todos devem ter acesso a grandes histórias. Contudo, penso que as pessoas precisam de ter essa oportunidade de abandonar o que é seguro e familiar nas suas vidas e irem a um lugar onde se podem sentar na companhia de outras pessoas e partilharem uma experiência — chorar juntas, rir juntas, ter medo juntas — para que, quando chega ao fim, se sintam menos entre estranhos. Eu quero a sobrevivência das salas de cinema. Quero que a experiência de ir ao cinema se mantenha relevante na nossa cultura", defendeu.

"Eu quero a sobrevivência das salas de cinema. Quero que a experiência de ir ao cinema se mantenha relevante na nossa cultura".

O que mudou a 21 de junho de 2021?

Nesta segunda-feira, a Amblin, produtora de Steven Spielberg, chegou a acordo com a Netflix para produzir vários filmes anualmente para a plataforma. No entanto, este não é um contrato exclusivo, pois o realizador vai manter o acordo com os estúdios da Universal para realizar filmes de grande orçamento nos cinemas.

"Desde o momento em que começámos a falar sobre uma parceria [com a Netflix], ficou muito claro que tínhamos uma oportunidade incrível de contar histórias juntos e alcançar o público de novas maneiras", afirmou Steven Spielberg em comunicado. Do outro lado da parceria, o copresidente da Netflix, Ted Sarandos, respondeu: "Estamos honrados e entusiasmados por fazer parte deste capítulo na história do cinema do Steven".

O contrato inclui filmes produzidos por Spielberg ou pela Amblin, serão várias longas-metragens por ano mas não foi revelado o número exato. O valor do acordo também não foi divulgado.

Um dos fatores que tem sido apontado para esta reviravolta é a pandemia. Com o aparecimento do novo coronavírus, os estúdios viram-se obrigados a suspender filmagens, a adiar e mesmo a cancelar estreias, ou a aceitar lançar filmes em plataformas de streaming como a Netflix, HBO Max e Disney+.

As salas de cinema ficaram meses de portas fechadas, o confinamento obrigatório fechou as pessoas em casa e os espectadores mudaram de rotinas, ao trocar o escuro da sala de cinema pelo conforto do sofá.

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Avaliação do Polígrafo:

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