No seu habitual espaço de comentário às segundas-feiras na TVI, Miguel Sousa Tavares analisou os resultados das europeias. Em foco estiveram, sobretudo, dois fenómenos que marcaram a noite eleitoral:

  • A questão da abstenção, que o jornalista e escritor considera que deveria ser punida – ou, em alternativa, dever-se-ia premiar de alguma forma os que votam
  • O resultado surpreendente do PAN, que conseguiu 167 mil votos, tendo eleito um eurodeputado

Sobre o PAN, Sousa Tavares já se pronunciara na própria noite eleitoral. Nessa ocasião afirmou que a organização liderada por André Silva é “um partido urbano-depressivo”, que “não tem um voto nos meios rurais”, onde “toda a gente destesta o PAN”. Essa afirmação já foi verificada pelo Polígrafo aqui. Se é certo que o PAN obteve bons resultados em áreas urbanas como Lisboa (6,8%), Porto (5,6%) e Setúbal (6,6%), todos acima do 5,1% do total nacional, também é inegável que a sua capacidade para angariar votos se alarga a todos os distritos do país – meios rurais incluídos.

sousa tavares

Ontem à noite, o eixo central da argumentação de Sousa Tavares foi outro. Depois de garantir que “os partidos têm medo de André Silva”, sublinhou que o PAN beneficiou, nesta eleição, de um equívoco: as pessoas pensam que se trata de um partido ambientalista, quando, na realidade, “é um partido animalista”, que nunca se pronunciou “sobre as grandes questões ambientais em Portugal”.

Seguidamente, o comentador enumerou aqueles que considera os temas centrais sobre os quais o partido de André Silva nunca se terá pronunciado:

  • A barragem da EDP do Alto Tâmega
  • A central nuclear de Almaraz
  • A exploração do olival intensivo no Alqueva
  • Os concursos para a exploração das minas de lítio
  • O ordenamento do território, com destaque para a “confusão de eucaliptos em todo o país”

Vários leitores do Polígrafo dirigiram-nos pedidos de verificação da informação através da nossa linha no WhatsApp (968213823).

Será que os factos confirmam a tese de Miguel Sousa Tavares?

Vejamos, ponto por ponto:

  • Sobre a barragem da EDP do Alto Tâmega: André Silva pronunciou-se sobre o caso em diversas ocasiões. Uma delas não podia ter sido mais pública: foi durante um debate quinzenal com António Costa, na Assembleia da República, no passado dia 25 de janeiro: "Queria falar-lhe sobre um possível crime ambiental: a barragem do Fridão que, a ser construída, estará a seis quilómetros de Amarante e, em caso de colapso, o tsunami inundará o centro da cidade em 13 minutos", disse André Silva. Entretanto o Governo já anunciou que o projeto não vai avançar.
  • Sobre a central nuclear de Almaraz: o PAN tomou posições muito assertivas de oposição ao projeto, criticando duramente o Estado espanhol, que, chegou a afirmar André Silva, protagoniza “uma clara afronta a todos os portugueses, menosprezo que tem, de uma vez por todas, de ter uma oposição forte e inequívoca da parte do Governo português.” Além disso, o partido apresentou duas denúncias à Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa por incumprimento de acordos internacionais pelo Governo espanhol. Antes disso, já questionara a Agência Portuguesa do Ambiente sobre o tema – e ainda recentemente, em março passado, Francisco Guerreiro, cabeça de lista do partido às europeias, se pronunciou sobre o assunto.
  • Sobre o cultivo intensivo de azeite no Alqueva: o PAN apresentou na Assembleia da República uma iniciativa legislativa que defende a inclusão, nos rótulos das embalagens de azeite, a proveniência do produto e a forma como foi produzido. Objetivo: dar aos consumidores dados sobre os impactos ambientais, territoriais e paisagísticos decorrentes do tipo de produção. Segundo o PAN, a intensificação na produção de azeite desde que o Alqueva passou a irrigar mais de 80 mil hectares de terra gerou, entre outras coisas, um aumento do recurso a fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos.
  • Sobre os concursos para a exploração das minas de lítio: também durante um debate quinzenal, realizado no passado dia 2 de maio, André Silva questionou o Executivo sobre três pontos constantes do contrato assinado em 28 de Março entre o Governo e a empresa Lusorecursos Portugal Lithium: 1) o facto de a empresa ter sido constituída três dias antes da celebração do contrato, o que deveria resultar na nulidade do acordo; 2) a necessidade de uma avaliação do impacto ambiental do projeto; 3) o facto de o Estado ter assinado contrato com uma empresa “cujo responsável está acusado de ter praticado dezenas de crimes, que se traduzem no alegado desvio de dez milhões de euros de dinheiro público.”
  • Finalmente, sobre a “confusão de eucaliptos em todo o país”: em 2017 o PAN apresentou no Parlamento um projeto de lei para suspender temporariamente a plantação de eucaliptos. Na altura, André Silva afirmou que essa medida “incentivará ainda a plantação de espécies arbóreas folhosas autóctones com uma boa capacidade produtiva, reconhecida qualidade da madeira produzida, maior proteção e resistência à propagação de incêndios”. Além disso, o PAN apresentou, em outubro de 2018, um projeto de lei para “a elaboração de um Plano de Controlo da Regeneração natural de eucaliptos e de um Plano de Ação para a Vigilância e Controlo das Exóticas Lenhosas Invasoras”. A proposta foi chumbada com os votos contra do PS e PSD, a abstenção do CDS-PP e os votos a favor dos restantes partidos.

Em resumo: todos e cada um dos pontos que consubstanciam a acusação de Sousa Tavares são cabalmente desmentidos pelos factos, que demonstram que, pelo menos em relação às questões que o comentador da TVI considera serem as mais importantes em matéria ambiental, o partido de André Silva não tem andado distraído – bem pelo contrário.

Avaliação do Polígrafo:

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