O comentador residente e editor do “Jornal das 8” da TVI (às segundas-feiras), Miguel Sousa Tavares, referiu-se hoje ao Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF, sigla em inglês). Em causa estava a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de abandonar o INF, anunciada no dia 20 de outubro.

No dia 20 de outubro, o presidente Trump afirmou que a Rússia “violou” o INF, pelo que os EUA vão abandonar o tratado. “A Rússia não tem, infelizmente, honrado o acordo, por isso vamos pôr-lhe um fim e sair”, declarou Trump, na sequência de um comício no Nevada. As autoridades norte-americanas acreditam que a Rússia estará a desenvolver, em violação dos termos do INF, um sistema de lançamento de mísseis a partir do solo que poderia permitir à Rússia lançar um ataque contra territórios europeus. Por seu lado, a Rússia nega as acusações de estar a construir mísseis que violam o acordo.

Sousa Tavares criticou a decisão de Trump e disse que esta “vai aumentar a tensão” entre os EUA e a Rússia.

As autoridades norte-americanas acreditam que a Rússia estará a desenvolver, em violação dos termos do INF, um sistema de lançamento de mísseis a partir do solo que poderia permitir à Rússia lançar um ataque contra territórios europeus

O INF foi assinado no dia 8 de dezembro de 1987, em Washington D.C., pelo presidente dos EUA, Ronald Reagan, e o líder da URSS, Mikhail Gorbachev. Entrou em vigor no dia 1 de junho de 1988, pelo que tem pouco mais de “30 anos de idade”, tal como Sousa Tavares indicou corretamente. Através desse tratado, as duas superpotências mundiais acordaram a eliminação de todos os seus mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, assim como os respetivos sistemas de lançamento, de curto (500 a 1.000 quilómetros) e intermédio (1.000 a 5.500 quilómetros) alcance.

Até à data-limite da aplicação do INF, maio de 1991, foram eliminados cerca de 2.700 mísseis, seguindo-se um programa de inspeção mútua das instalações militares. A redução do arsenal nuclear inseriu-se na estratégia de desanuviamento das relações entre as duas superpotências, exponenciada por Gorbachev. Curiosamente, a URSS viria a dissolver-se em dezembro de 1991, no mesmo ano em que concluiu a eliminação de mísseis prevista no INF. Cerca de dois anos antes caíra o Muro de Berlim e a Guerra Fria aproximava-se do fim.

Sousa Tavares é rigoroso quanto à idade do tratado, mas falha no pormenor da destruição de “2.700 ogivas nucleares de médio alcance”, na medida em que foram eliminados 2.700 mísseis nucleares ou convencionais, mas isso não corresponde a 2.700 ogivas nucleares. Uma ogiva nuclear pode ser transportada por um míssil - aliás, há mísseis com capacidade para transportar várias ogivas nucleares de uma só vez. Os sistemas de armas capazes de lançar várias ogivas nucleares simultaneamente são chamados de MIRV (Multiple Independently Taergetable Reentry Vehicle) e permitem lançar várias ogivas nucleares a partir de um único míssil, aumentando as probabilidades de que estas passem pelos sistemas de defesa do adversário e, ao mesmo tempo, aumentando a área total a ser atacada.

Sousa Tavares é rigoroso quanto à idade do tratado, mas falha no pormenor da destruição de “2.700 ogivas nucleares de médio alcance”, na medida em que foram eliminados 2.700 mísseis nucleares ou convencionais, mas isso não corresponde a 2.700 ogivas nucleares.

Finalmente, é um facto que o INF determinou a eliminação dos mísseis “disparados a partir de terra, não os disparados a partir do mar”, tal como Sousa Tavares salientou. E permitiu “desanuviar o ambiente” entre as duas superpotências, outro facto histórico, tendo aliás contribuído (à sua escala) para o desenlace da Guerra Fria, cerca de três anos mais tarde.

Por estes motivos, dizer que foram destruídas 2700 ogivas nucleares é...

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