"Comunica-se que em todo e qualquer espetáculo que eventualmente venha ainda a realizar-se, este Executivo terá em consideração, na escolha dos artistas, o facto de os mesmos se terem ou não manifestado contra as nossas tradições", publicou a Junta de Freguesia da Azambuja na sua página oficial de Facebook, na manhã do dia 2 de junho.

Na origem da decisão está uma carta aberta, assinada por 275 personalidades, muitas delas do mundo da arte, e endereçada ao Ministro das Finanças, João Leão, e ao Secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, Nuno Artur Silva. No documento, datado de 31 de maio, os signatários, que se juntaram à ONG Animal, pedem o fim da transmissão pública de touradas na RTP.

O objetivo é ter uma "televisão pública livre da transmissão de espetáculos que se baseiam na violência contra animais e normalizam tais comportamentos, como, por exemplo, sucede na tauromaquia". As motivações deste grupo de personalidades não foram bem recebidas pela Junta da Azambuja, que não tardou em romper possíveis contratos entre a região e todos aqueles que se manifestaram contra as touradas.

O comunicado não sobreviveu online durante muito tempo, mas os comentários e as críticas ao Executivo camarário e à presidente da Junta, Inês Louro, multiplicaram-se: "Entretanto na Azambuja, é proibido contratar artistas que estejam 'contra as tradições', isto é, contra as touradas. E quem determinou? A presidenta Inês Louro, que, depois de 31 anos de PS, passou para o Chega"; "A Junta de Freguesia da Azambuja, que é um organismo público, utilizou a sua página oficial no Facebook para comunicar uma espécie de ameaça de censura ou não licenciamento aos futuros espetáculos que tenham, como convidados, artistas cuja sua opinião pessoal seja contra as touradas".

Ao Polígrafo, Maria Inês da Graça Louro confessa ter apagado o post depois de ver "posições muito extremadas" e ofensas "a ultrapassar qualquer sentido de razoabilidade e de boa educação entre quem defende a posição da tauromaquia e a dos anti-taurinos". E acrescenta: "A página da junta não serve para uma 'guerra civil' com ofensas de uma falta de educação sem tamanho".

Não compreendendo as acusações, uma vez que "todos sabem que a nossa [da Azambuja] realidade é rural e tauromáquica", Inês Louro admite que as festas da freguesia têm, na sua génese, a tauromaquia e a religião. E até por isso entende que "os próprios artistas que tomaram a posição que tomaram não se iriam sentir bem nas festas".

Maria Inês da Graça Louro confessa ter apagado o post depois de ver "posições muito extremadas" e ofensas "a ultrapassar qualquer sentido de razoabilidade e de boa educação entre quem defende a posição da tauromaquia e a dos anti-taurinos".

"A própria Associação de Municípios Taurinos já se manifestou no mesmo sentido, segundo as informações que tenho. Trata-se de uma questão de respeito mútuo. Respeitamos e muito o trabalho de cada um. Pedimos que respeitem as nossas tradições e que não se esforcem para as aniquilar, porque delas também depende uma parte da nossa economia", apela a ex-socialista.

Confrontada com as acusações de práticas de censura e desrespeito da democracia - uma vez que preside a um organismo público - Inês Louro refuta: "Censura? Censura temos nós sofrido na pele. São os 23% do IVA nas corridas, é uma ministra da Cultura que diz que tauromaquia não é cultura, são as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) a impedirem as escolas de toureio, os orçamentos do Estado a serem negociados com promessas de eventualmente se legislar para os menores de 16 não entrarem nas praças de touros. É proibir as touradas numa estação televisiva pública paga pelos impostos de todos os taurinos".

"Há aqui medidas que entendo serem inconstitucionais por interferirem nos direitos, liberdades e garantias da forma como os progenitores educam os seus filhos", considera Louro. "Realmente, se afastarem as crianças e jovens das tradições, elas morrem naturalmente", conclui.

"Censura? Censura temos nós sofrido na pele. São os 23% do IVA nas corridas, é uma ministra da Cultura que diz que tauromaquia não é cultura (...)".

Saída do PS em abril por divergências "políticas e internas", na sequência da instalação de painéis fotovoltaicos na Quinta da Torrebela, concelho da Azambuja,  Inês Louro acredita que os socialistas não terão uma posição muito diferente da sua, uma vez que o PS local "pertence à Associação dos Municípios Taurinos".

Ainda assim, a ex-socialista encontrou agora um lugar no Chega, que considera ser "o partido a nível nacional que mais se tem preocupado com o mundo rural". Na candidatura à Autarquia da Azambuja, Louro garante que "o juramento enquanto presidente de Câmara será sempre servir à população", jamais esquecendo as "tradições, essência e identidade rural" da zona.

Não houve ainda contacto entre a presidente da Junta e a ONG Animal, mas Louro "gostava" que acontecesse: "Somos rurais mas não ignorantes, como querem fazer querer. E muito menos bárbaros como já nos chamaram".

"Somos rurais mas não ignorantes, como querem fazer querer. E muito menos bárbaros como já nos chamaram".

O Polígrafo tentou por várias vezes entrar em contacto com a "Animal", não tendo obtido qualquer resposta até ao momento da publicação deste artigo. Através do Facebook, no entanto, a organização manifestou-se contra a decisão da Junta de Azambuja, num post publicado também a 2 de junho.

Touradas

"Ora, ora, cheira-nos a censura. Então parece que a nossa carta incomodou realmente. Tanto assim que a Junta de Freguesia de Azambuja fez hoje um post que nada mais é do que uma chantagem ridícula às/aos artistas que se posicionam contra a violência", lê-se na publicação.

A organização aproveitou ainda o momento para informar que "mesmo a carta já tendo sido entregue, muita gente continua a querer juntar-se" pelo fim da transmissão de touradas num canal público.

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