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Soldados ucranianos morreram na Ilha das Serpentes após recusarem render-se às tropas russas?

Ucrânia
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
De acordo com várias publicações nas redes sociais, os 13 soldados ucranianos que defendiam a Ilha das Serpentes, no Mar Negro, terão sido mortos pelos russos, depois de terem protagonizado um ato de resistência que já é considerado histórico na guerra da Ucrânia. Confrontados por militares russos e aconselhados a renderem-se, os ucranianos terão respondido: "Vão-se lixar!" Confirma-se que os 13 resistentes perderam a vida?

“‘Vão-se lixar!’ Soldados ucranianos respondem a navio russo antes de morrer. Treze guardas ucranianos, que defendiam uma pequena ilha no Mar Negro, a Ilha das Serpentes, morreram às mãos das forças russas, depois de terem recusado a rendição. Num áudio que está a circular nas redes sociais é possível ouvir as últimas palavras de um dos militares ucranianos dirigida à embarcação russa: ‘Vão-se lixar'”, relata-se numa publicação de 26 de fevereiro no Facebook.

Numa outra, de um dia antes, destaca-se que “os 13 soldados ucranianos que defendiam a Ilha das Serpentes” terem sido “mortos por ataques russos”. Isto porque, ao ouvir a resposta dos militares, o “navio russo lançou um míssil no local e os 13 soldados ucranianos que defendiam o seu território morreram“.

Por entre tanta desinformação associada à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, este é mais um exemplo em que muitas pessoas caíram num logro ou equívoco. Desde logo porque, alguns dias depois de a morte dos 13 soldados ter sido “anunciada” nas redes sociais, quer as autoridades ucranianas quer o Exército russo asseguraram que estão vivos.

A história começa a 24 de fevereiro, quando foi iniciada a invasão da Ucrânia e as forças militares russas começaram a avançar no terreno. Nesse dia, os guardas da fronteira ucraniana informaram, através de um post divulgado no Facebook, que a Ilha das Serpentes (ou Ilha Zmiinyi), no Mar Negro, estava a ser ameaçada por navios russos que se aproximavam da costa.

“Dois alvos não reconhecidos estão a aproximar-se da Ilha das Serpentes. Os ocupantes ameaçam exigir que as tropas de fronteira de Izmail se rendam. O agressor utilizou um canal de comunicação internacional para a segurança da navegação. Os guardas de fronteira assumiram a defesa“, lê-se na publicação, complementada por uma mensagem de áudio, em russo, que recomenda às pessoas presentes na ilha que se rendam.

No mesmo dia, horas mais tarde, os guardas da fronteira ucraniana anunciaram, também no Facebook, que a Ilha das Serpentes tinha sido “tomada” pelo Exército russo. Por sua vez, Anton Herashchenko, conselheiro do Ministério do Interior ucraniano, publicou uma mensagem, já ao final do dia, quer no Telegram quer no Facebook, indicando que “13 guardas da fronteira” ucraniana tinham sido mortos enquanto tentavam defender a ilha.

Foi através dessas publicações que a gravação em áudio – que registava, supostamente, as últimas palavras dos 13 soldados – se tornou viral nas redes sociais. Segundo confirmou o jornal francês “Libération”, os militares russos terão dito: “Este é um navio de guerra russo. Baixem as armas e rendam-se, caso contrário seremos obrigados a abrir fogo. Compreendem?”

A resposta foi a seguinte: “Pronto, é o fim. Digo-lhe para ir à merda? Navio de guerra russo, vão-se lixar!

A invasão da Ucrânia ainda não tinha sido iniciada e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, já tinha lançado falsas suspeitas em torno de um suposto plano do Governo ucraniano de ataque militar nas regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, em Donbass. Mas só no dia 9 de março é que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia divulgou no Twitter imagens de um documento secreto que revelam ordens militares no âmbito dessa operação agendada para março de 2022. Verdade ou falsidade?

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, não ajudou na clarificação do destino dos 13 soldados e, no dia seguinte, 25 de fevereiro, garantiu que estes militares iriam receber o título de “Heróis da Ucrânia“. Na nossa Ilha Zmiinyi, defendendo-a até ao fim, todos os guardas de fronteira morreram heroicamente. Mas não desistiram. Todos eles receberão, postumamente, o título de ‘Heróis da Ucrânia'”, lê-se no comunicado de Zelensky.

Do lado russo, uma versão diferente da história: A 25 de fevereiro, enquanto Zelensky confirmava a morte dos soldados, o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, anunciou, de acordo com a agência russa estatal “Tass“, que “82 soldados da Ilha das Serpentes no Mar Negro” se tinham “rendido voluntariamente às Forças Armadas russas”. Não houve menção a soldados mortos.

Um dia depois, 26 de fevereiro, nova publicação dos guardas de fronteira ucranianos: “Temos fortes convicções de que todos os militares ucranianos da Ilha Zmiiniy podem estar vivos. (…) A imprensa russa informou que os militares ucranianos na ilha foram enviados para Sebastopol. As informações preliminares de que os guardas de fronteira poderiam estar mortos chegaram antes de os militares deixarem de comunicar. (…) Esperamos sinceramente que os militares voltem para casa o mais rápido possível e que as informações recebidas no momento do ataque não sejam confirmadas.”

Ora, só a 28 de fevereiro é que o Exército ucraniano confirmou, através de um comunicado no Facebook, que os soldados da Ilha da Serpentes estavam, afinal, vivos, embora tivessem sido detidos pelo Exército russo. “Em relação aos marinheiros e guardas de fronteira que foram aprisionados pelos invasores russos na Ilha das Serpentes, estamos muito felizes por saber que os nossos irmãos estão vivos e bem“, assegura-se.

Este comunicado não foi feito sem uma justificação: “Os invasores ‘esqueceram-se’ de informar [a imprensa russa] de que tinham destruído completamente as infraestruturas da ilha: farol, cravos, antenas, etc. Consequentemente, a ligação foi interrompida. Sucessivas tentativas de contactar a equipa e de saber mais sobre o seu destino foram inúteis. E o bombardeamento permanente do lado dos navios de guerra e da aviação da Federação Russa não permitiu ajudar os fuzileiros navais.”

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