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“Aquecimento” só é sentido à superfície terrestre e não há qualquer interação com a atmosfera?

Ambiente
O que está em causa?
Não será a primeira nem a última publicação nas redes sociais a disseminar a ideia de que as alterações climáticas e os seus efeitos não são reais. Nesta indica-se que a "sensação de 'aquecimento' é só à superfície terrestre", mas terá o argumento algum tipo de validade?

“A sensação de ‘aquecimento’ é só à superfície terrestre… não há qualquer interação com a atmosfera terrestre! Qual a parte que ainda não perceberam?!”, destaca-se numa publicação feita no Facebook, que data de 20 de setembro de 2020, rejeitando assim que o aquecimento global e as suas consequências sejam reais.

Esta é mais uma entre as muitas publicações que diariamente proliferam nas redes sociais desmentindo o aquecimento global e as alterações climáticas, mas será o argumento usado válido?

Ao Polígrafo, Mário Marques, climatologista e fundador da Planoclima, indica que “não faz qualquer sentido o que está a ser dito”.

“É completamente descabido. O que é a superfície terrestre: se formos falar em termos científicos é a litoesfera, portanto é o chão. A temperatura é medida em vários níveis da atmosfera, neste caso da troposfera, e está a aumentar, senão os glaciares não estavam a deixar de existir praticamente e a atmosfera não aquecia. Está a aquecer de tal forma que já nem há as neves”, explica o climatologista.

Segundo Marques, “a terra absorve mais do que os oceanos que têm uma maior capacidade porque a água não aquece nem arrefece tão rapidamente como a superfície terrestre”.

“Basta ver naqueles dias de calor que basta deslocarmo-nos um pouco do litoral junto ao mar para o interior que as temperaturas sobem logo, mas também sobe a atmosfera da superfície terrestre. Claro que a atmosfera onde se situam os oceanos é mais fresca porque a água serve de termostato, a água tem uma temperatura mais estável e não aquece como a temperatura terrestre” frisa o especialista.

O climatologista salienta que a “temperatura mínima está a subir, mais até do que a máxima, e de uma forma galopante” pelo que não se pode afirmar que o aquecimento global não seja real e há vários sinais que nos mostram isso. Nomeadamente a “instabilidade em termos de temperatura mesmo em altitude”, os invernos que não são tão frios como outrora e as oscilações mais drásticas de temperaturas.

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Avaliação do Polígrafo:

 

Nota Editorial: Após a publicação do artigo, o Polígrafo foi contactado por outro climatologista que indicou haver imprecisões nas declarações proferidas por Mário Marques. 

Carlos da Câmara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e experiente climatologista, explicou ao Polígrafo que “o aquecimento da superfície terrestre é apenas uma das muitas alterações do Sistema Climático – isto é, do conjunto terras emersas, oceanos, gelos, biosfera e atmosfera – em resposta às modificações no balanço de energia devidas, em muito grande parte (mas não exclusivamente), às emissões de gases com efeito de estufa associadas à ação do homem”.

O climatologista acrescenta que “a fim de restaurar o balanço de energia no topo da atmosfera, o Sistema Climático tem de compensar a absorção de energia pelos gases com efeito de estufa emitindo mais energia a partir da superfície terrestre, o que implica que, em média, se tenha uma aumento de temperatura da superfície do globo (terras emersas e oceanos)”. Mas, “não se trata do único efeito em termos de alterações de temperatura; observam-se também modificações profundas nos regimes de ventos e da precipitação com repercussões no coberto vegetal e, consequentemente, na vida animal e na vida do homem”.

Frisa o especialista que “dizer que o aquecimento se reduz à superfície terrestre é uma afirmação falsa”, tendo em conta a complexidade da questão.

Aponta ainda Câmara que “nem a superfície terrestre é a litosfera, nem a listosfera é o chão; a superfície terrestre é constituída pela superfície das terras emersas (planícies, montanhas, lagos, etc.) e pela superfície dos oceanos, enquanto a litosfera é a parte sólida do globo pelo que inclui a superfície das terras emersas e o fundo dos oceanos”. Quanto à terra absorver mais calor do que os oceanos, o climatologista afirma que “é falso” e acrescenta que “os oceanos absorvem mais de 90% do calor”. Por fim, conclui que “os glaciares estão a derreter, não porque a temperatura do ar aumentou mas sim porque o gelo absorve energia fazendo com que a temperatura do gelo suba até alcançar o ponto de fusão”.

Contactado pelo Polígrafo, Filipe Lisboa, físico e investigador na área das alterações climáticas, alinha com a explicação de Carlos da Câmara. Lisboa frisa que “a questão da acumulação de calor nos oceanos (e em profundidade) é de extrema importância”. 

“A maior parte do calor adicional das alterações climáticas vai para os oceanos que funcionam como um paraquedas climático porque conseguem acumular bastante calor”, destaca. 

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