"A pandemia mais grave da História foi a 'Gripe Espanhola' de 1918. Durou dois anos, em três ondas de contaminação com 500 milhões de pessoas infetadas e totalizando 55 milhões de mortes. A maioria das mortes ocorreu durante a segunda onda de contaminação. A população tolerou tão mal as medidas de quarentena e de distanciamento social, que quando ocorreu a primeira saída pública liberada, a população começou a se alegrar nas ruas, abandonando todas as medidas de precaução aprendidas", lê-se no texto da publicação em causa que acumula mais de 2.500 partilhas no Facebook.

"Nas semanas seguintes, a segunda onda de contaminação chegou com milhões de mortes. Portanto, não se empolguem com essas liberações, mantenham calma, continuem tomando muito cuidado e respeitando o distanciamento. Ciclos são ciclos e vêm para ensinar", conclui-se.
 

Confirma-se que a segunda vaga da "Gripe Espanhola" de 1918 foi mais mortífera por causa do desconfinamento, ou devido ao abandono de "todas as medidas de precaução"?

Questionado pela AFP Checamos, o historiador John M. Barry, autor do livro "The Great Influenza - The Epic Story Of The Deadliest Plague In History" (Penguin Books, 2006), diz que tal alegação "não faz sentido", atribuindo o incremento da mortalidade na segunda vaga da "Gripe Espanhola" ao próprio vírus e não ao comportamento das pessoas.

Segundo Barry, "o vírus mudou e tornou-se muito mais letal. De facto, a segunda vaga foi tão intensa que uma minoria de virologistas acredita que se tratou de dois vírus diferentes" entre as duas vagas da pandemia.

"Na realidade, as sociedades de 1918 não tinham meios para se 'confinar' na forma que nós fizemos", ressalva Freddy Vinet, dando como exemplo a ausência de frigoríficos e a escassa capacidade de telecomunicações.

No mesmo sentido aponta Anton Erkoreka, diretor do Museu Basco de História da Medicina. "Provavelmente, alguma das estirpes do vírus influenza, responsável pela 'Gripe Espanhola', tornou-se muito mais forte e seletiva, provocando a hecatombe que ocorreu em todo o Hemisfério Norte entre setembro e novembro de 1918”, sublinhou, em declarações à mesma plataforma de verificação de factos. “A essa nova intensidade do influenza seriam acrescidas a 'sua capacidade para matar sobretudo jovens adultos, entre 20 e 35 anos. E, claro, as condições desumanas em que viviam milhões de soldados nas frentes de guerra'".

Por outro lado, Freddy Vinet, professor na Universidade Paul Valéry de Montpellier, França, e autor de um outro livro sobre a maior pandemia do século XX - "La Grande Grippe. 1918, La Pire Épidémie du Siècle" (Vendemiaire, 2018) -, esclarece que o agravamento da segunda vaga "não se deveu a um desconfinamento, pois não houve um confinamento durante a primeira fase".

"Para as pessoas daquela época, a gripe não era uma doença grave e não justificava as medidas que hoje chamamos de 'confinamento'. Na realidade, as sociedades de 1918 não tinham meios para se 'confinar' na forma que nós fizemos", ressalva Vinet, dando como exemplo a ausência de frigoríficos e a escassa capacidade de telecomunicações.

De resto, a par da alegação falsa, a imagem que ilustra a publicação em causa também não foi captada durante a pandemia de 1918. Trata-se de uma fotografia datada de 1913, na Alemanha, parte integrante do arquivo da agência Süddeutsche Zeitung Photo, com sede em Munique.

"Uma nova moda do véu. A guerra nos Balcãs criou uma moda nova e peculiar. Atualmente, as mulheres usam o véu cobrindo o nariz, utilizado na Turquia desde há séculos", descreve-se na legenda da fotografia original. Importa salientar que a referida guerra nos Balcãs ocorreu entre 1912 e 1913.

Questionado pela AFP Checamos, Sven Riepe, porta-voz da agência, confirma que a fotografia foi captada em 1913 e não durante a pandemia de 1918. "A descrição original desta fotografia indica que os véus que cobriam o nariz estavam na moda entre as mulheres após a guerra nos Balcãs", explica.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

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