"Um dos perigos deste apelo à maioria absoluta é que nos podemos confrontar, daqui a poucos meses, com um Bloco Central com ou sem António Costa (...). É importante que nos lembremos que um boletim de voto não tem nem asteriscos nem letra miudinha. É preciso perceber cada voto para o que é que serve", afirmou Rui Tavares, cabeça-de-lista do Livre no distrito de Lisboa para as eleições legislativas, no debate de ontem à noite na RTP frente a António Costa, líder do PS.

No caso de o PS sair vencedor e contar com o apoio do PSD, Tavares acredita que o cenário é de perigo, "principalmente numa década em que vamos aplicar fundos europeus, em que temos uma oportunidade única para os aplicar, mas é preciso que haja uma maioria clara com uma estratégia para a execução desses fundos e é preciso que haja uma oposição forte. Ter os dois maiores partidos portugueses misturados no Governo com opacidades e interesses cruzados nunca é bom para o país".

Mas o que seria positivo, afinal, para Tavares? "Nós olhamos para o que se passa aqui em Espanha, que acabou de aprovar o Orçamento: 15 partidos, entre Câmara Baixa e Senado, participaram nesse Orçamento", realçou o representante do Livre, que enumerou também algumas das conquistas do país vizinho resultantes dessa aprovação e que só foram possíveis porque, na questão das condições de vida das pessoas, "os partidos diferentes têm respostas diferentes".

Nesse sentido, exemplificou: "Em relação a, por exemplo, porque é que se passa tanta frio nas casas em Portugal? O PS tem um programa, e bem, que em certas condições devolve 85% dos gastos. Na Itália existe um programa que devolve 110%. Porque é que, por exemplo, temos um terço dos estudantes universitários a temer abandonar a universidade por questões financeiras? Temos que rever o modelo de financiamento de Ensino Superior de maneira a que possamos, finalmente, abolir as propinas e ter um fundo de apoio aos estudantes do Ensino Superior. O Livre tem essa proposta".

  • Costa destaca que "o rendimento global das famílias subiu 25% nos últimos quatro anos". É verdade?

    Aberta a série de debates que antecedem as eleições legislativas de 30 de janeiro, os primeiros a estrear as cadeiras da RTP foram António Costa e Rui Tavares, em representação do PS e do Livre. O partido do atual primeiro-ministro até se coligou com o Livre na autarquia de Lisboa, mas Costa expressa agora a vontade de conquistar uma maioria absoluta no Parlamento. Mesmo que isso implique dar a volta aos números reais do rendimento global das famílias portuguesas.

Ora, sendo verdade que as dificuldades financeiras empurraram vários alunos do Ensino Superior para a corda bamba, o principal motivo das ponderações dos últimos meses tem sido a pandemia de Covid-19. Ainda assim, os números indicados por Tavares não estão sequer próximos da realidade portuguesa. Sim, "um terço dos alunos cogita abandonar a escola diante do coronavírus", mas estes são dados recolhidos no Brasil.

Em Portugal, as conclusões de uma consulta promovida por 11 associações e federações académicas entre 24 de março e 10 de abril deste ano, os dados mais recentes de que há nota, transformam em números as respostas de 4.013 universitários que frequentam licenciaturas e mestrados em instituições de todo o país.

De acordo com esse inquérito, os estudantes que já pensaram em desistir do Ensino Superior por razões económicas são 7% do total (muito distante de um terço). Mais, 20,1% dos estudantes inquiridos admitiu que, depois de pagar as despesas fixas (propina, transportes, habitação), sobram menos de 50 euros. E 24,9% diz não ficar com mais de 100 euros.

"Perante este cenário, quase um quarto dos universitários dizem ter dificuldades em suportar a frequência no ensino superior e 7% admitem ponderar deixar de estudar por questões económicas, um número que as associações académicas consideram ser o mais preocupante", informou a Agência Lusa, em notícia sobre este estudo promovido por associações e federações académicas de Lisboa, Porto, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Interior, Évora, Algarve, Açores e Madeira, além da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico.

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Nota editorial: Depois da publicação deste artigo, Rui Tavares pronunciou-se na sua conta pessoal de Twitter, referindo que se tratou de um "engano" e que "o dado que queria mencionar, e que com a pressão para terminar a resposta verbalizei mal, é que um terço dos estudantes que abandonaram o Ensino Superior o fizeram por falta de dinheiro". Esta informação, tal como o Polígrafo agora confirma, é de facto verdadeira e faz parte das conclusões de um estudo Fundação Francisco Manuel dos Santos. São no total 32%. Esta nova informação não altera a classificação deste artigo.

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