O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Rocha responsabiliza Costa por “uma década perdida com estagnação económica e emigração dos nossos jovens”. Tem razão?

Política
O que está em causa?
Em entrevista ao Now, ontem à noite (18 de junho), o líder do Iniciativa Liberal sustentou a sua posição de não defender António Costa para a presidência do Conselho Europeu com a "sensação" que diz ter de que o antigo Primeiro-Ministro "fez perder quase uma década ao país" em vários setores. Entre eles, Rocha nomeou a estagnação económica e a emigração jovem. Mas o que dizem os números?
© Agência Lusa / Manuel de Almeida

Foi quando questionado sobre a posição do Iniciativa Liberal em relação à candidatura do ex-Primeiro-Ministro à Presidência do Conselho Europeu que Rui Rocha argumentou, em entrevista dada ontem (18 de junho) ao Now, que não consegue “dissociar de António Costa uma década perdida com estagnação económica, com emigração dos nossos jovens, com degradação dos serviços de saúde”.

Responsabilizando o ex-governante pela situação do país em vários setores, Rocha afirmou ter “esta sensação de que António Costa fez perder quase uma década ao país”.

Os dados suportam esta “sensação” do líder dos liberais?

No que toca à estagnação económica, já se tem afirmado por diversas vezes que o crescimento não é suficiente. Disse-o, por exemplo, o economista João Moreira Rato, em entrevista na CNN Portugal em maio de 2023, quando explicou que o crescimento não era suficiente “porque [o país] tem de recuperar capacidade de crescimento em relação à Europa”.

Entre 2015 e 2023, segundo os dados do INE, a taxa de crescimento real do PIB foi a seguinte: +1,79% em 2015, +2,02% em 2016, +3,51% em 2017, +2,85% em 2018, +2,68% em 2019, -8,30% em 2020, +5,48% em 2021, +6,83 em 2022 e +2,1 em 2023 (dados de dezembro de 2023 do Banco de Portugal).

E de acordo com o boletim económico de junho de 2024 do Banco de Portugal, “a economia cresce entre 2% e 2,3% nos anos de 2024 a 2026, um desempenho superior ao da área do euro”. Ou seja, um crescimento ligeiro, mas consistente ao longo desses anos e com a previsão de se manter até 2026.

Já no que diz respeito à emigração jovem, verifiquemos o que nos dizem os dados da Pordata que têm por base o Instituto Nacional de Estatística (INE) – “Estimativas Anuais de Emigração” – e apresentam os registos da emigração portuguesa por grupos etários, estando os jovens (universalmente considerados como tal até aos 30 anos de idade, exclusive) distribuídos por quatro categorias: menos de 15 anos; dos 15 aos 19; dos 20 aos 24 e dos 25 aos 29 anos.

Excluindo o primeiro grupo (por ser composto integralmente por dependentes), verifica-se que emigraram permanentemente em 2014 um total de 22.207 jovens. No ano seguinte, este valor caiu para os 18.117 jovens emigrantes permanentes. Recorde-se que António Costa assumiu o cargo de Primeiro-Ministro em novembro de 2015.

Os anos seguintes foram de quedas sucessivas, interrompidas apenas em 2020. Ora, em 2016, 2017, 2018 e 2019 emigraram, respetivamente, 17.568, 13.904, 13.575 e 13.236 jovens. Em 2020, primeiro ano de pandemia de Covid-19, saíram do país, de forma permanente, apenas 11.387 jovens, um valor que subiu, ainda que pouco, logo em 2021, para os 12.017 jovens. Esta ligeira subida é a única, até aqui, que poderia ir ao encontro do que afirmou Rui Rocha.

Prosseguindo para 2022, o último ano com dados publicados, verifica-se novamente uma inversão da tendência de queda que se registou nos primeiros anos do Governo socialista. Ainda assim, houve um corte para quase metade comparativamente a 2014.

Ainda que se incluísse a faixa etária dos 30 aos 34 anos nestas contas, a tendência manter-se-ia quase similar. O número foi caindo desde 2014, quando se registaram 29.245 jovens entre os 15 e 34 anos emigrados permanentemente, até 2020 quando se registou o menor número de jovens emigrantes nesta faixa etária: 14.496. A tendência mudou em 2021 quando subiu ligeiramente para 15.050 jovens emigrantes permanentes e reforçou-se em 2022 com 18.425 jovens nessa situação.

Tendo em conta estes fatores, e na ausência de dados mais recentes de 2023, o Polígrafo classifica esta alegação como “imprecisa”.

_______________________________

Avaliação do Polígrafo:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque