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Rita Matias no Now: “O legado de António Costa é milhões de pobres em Portugal”

Política
O que está em causa?
Na noite de estreia do novo canal de informação Now, em frente-a-frente com o eurodeputado Bruno Gonçalves do PS, a deputada do Chega insurgiu-se contra a "Agenda 2030", enumerando uma série de fracassos, nomeadamente ao nível da pobreza que aproveitou para lançar uma farpa sobre o "legado" de António Costa no cargo de Primeiro-Ministro. O que disse tem fundamento?
© Agência Lusa / Pedro Reis Martins

Discordaram em quase tudo, o recém-eleito eurodeputado do PS, Bruno Gonçalves, e a deputada do Chega, Rita Matias, no debate que protagonizaram ontem (17 de junho) na noite de estreia do Now, um novo canal de televisão focado na informação. Desde logo nas “questões da Agenda 2030” denunciadas por Matias, “porque é um manifesto de boas intenções, mas que depois na prática tem resultados desastrosos“.

E passou a exemplificar: “em nome da igualdade entre homens e mulheres, hoje eu vejo mulheres a perderem os seus lugares e verem homens biológicos retirarem esses lugares; a questão da promoção da paz, que é um dos objetivos, aquilo que nós vemos são guerras a despontarem no Médio Oriente, na Europa; aquilo que nós vemos no combate à pobreza, olhe, o legado de António Costa é milhões de pobres em Portugal.”

Para a dirigente do Chega, a conclusão é que “quanto mais se tenta implementar esta ‘Agenda 2030’, mais os cidadãos vão sentir restrições“. Ressalvando porém que não é contra os “objetivos” de desenvolvimento sustentável, mas sim “contra a forma de os atingir”.

Tem razão no que concerne ao suposto “legado” de António Costa?

No final de 2023, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou novos dados sobre o risco de pobreza em Portugal, mais concretamente os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2023 sobre rendimentos do ano anterior.

Esses dados “indicam que 17% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2022, mais 0,6 pontos percentuais (p.p.) do que em 2021. A taxa de risco de pobreza correspondia, em 2022, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos (por adulto equivalente) inferiores a 7.095 euros (591 euros por mês)”.

Representa um aumento em comparação com 2021, mas não com 2015, quando António Costa assumiu o cargo de Primeiro-Ministro. O facto é que a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) ascendia a 19% em 2015, tendo baixado para 18,3% logo em 2016, primeiro ano completo de governação de Costa.

Manteve aliás uma trajetória descendente até atingir o ponto mínimo de 16,2% em 2019, mas subiu novamente para 18,4% em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19. No entanto, em 2021 voltou a baixar para 16,4%.

No entanto, Matias poderia estar a referir-se à taxa de risco de pobreza antes de qualquer transferência social. “Considerando apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, 41,8% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza em 2022″, apurou o INE.

Ou seja, um decréscimo em comparação com 2021, quando a taxa de risco pobreza antes de qualquer transferência social era de 42,5%.

Também neste indicador, os dados do INE refutam a alegação de Matias: em 2015, a taxa de risco pobreza antes de qualquer transferência social ascendia a 46,1%.

De facto, baixou em todos os anos da governação de Costa (excepto em 2020) até chegar a um ponto mínimo de 42,4% em 2019 (aumentou para 43,5% em 2020, mas entretanto já voltou a cair para níveis historicamente baixos que não se registavam desde o início da crise do subprime em 2008.

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Avaliação do Polígrafo:

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