O título é enigmático: "Irá Costa chamar selvagem a este camarada de partido, tal como fez com os enfermeiros?" Trata-se de uma publicação recente da página "Portugal Glorioso", já com milhares de partilhas nas redes sociais. "Os grupos privados de Saúde, agora representados por um ex-assessor do secretário-geral do PS, querem mais e mais dinheiro", destaca-se no texto.

Segue-se um "meme" com uma citação atribuída a Paulo de Morais, candidato à Presidência da República derrotado nas eleições de 2016 (obteve então cerca de 100 mil votos, ou 2,16% do total, quedando-se na sétima posição) e atual presidente da Frente Cívica, Associção de Intervenção Cívica. Eis a frase em causa, acompanhada por uma fotografia de Óscar Gaspar: "Os grupos privados de Saúde (...) são dirigidos por Óscar Gaspar, secretário de Estado da Saúde do Governo de Sócrates".
O artigo prossegue, repetindo as mesmas ideias: "Os grupos privados de Saúde que ameaçam suspender o acordo com a ADSE são dirigidos, ao nível nacional, por Óscar Gaspar (...) Os privados, agora representados por um ex-assessor do secretário-geral do Partido Socialista, querem mais e mais dinheiro".
Licenciado em Economia, Gaspar foi assessor do Grupo Parlamentar do PS entre 1997 e 1999 e chefe do gabinete do secretário de Estado Adjunto e do Orçamento entre 1999 e 2001. Mais tarde, depois de uma passagem pelo Conselho de Administração da Metro Mondego, além de uma colaboração com a Iberdrola, exerceu as funções de assessor económico do primeiro-ministro José Sócrates, entre 2005 e 2009.
E depois lança as seguintes questões: "Irá António Costa chamar selvagem a este camarada de partido, tal como fez com os enfermeiros?"; "Irá ceder à pressão e pagar mais aos Hospitais Privados, quando o Governo afirma que 'não há dinheiro' para nada?"; "Será isto afinal uma guerra de poder dentro do PS?"; "E no meio disto tudo, alguém se preocupa com os doentes?" As citações são fidedignas, pois o próprio Paulo de Morais partilhou esta publicação na respetiva página da rede social Facebook.

Vários leitores do Polígrafo pediram para verificar se as alegações sobre Óscar Gaspar são verdadeiras. De facto, Gaspar é o atual presidente da direção da Associação Portuguesa de Hospitais Privados (APHP). Entre os membros da APHP estão hospitais e clínicas dos principais grupos privados de Saúde, os mesmos que têm declarado publicamente a intenção de cessar os acordos que mantêm com a Assistência na Doença aos Servidores Civis do Estado (ADSE), subsistema de proteção na saúde para funcionários públicos.
Licenciado em Economia, Gaspar foi assessor do Grupo Parlamentar do PS entre 1997 e 1999 e chefe do gabinete do secretário de Estado Adjunto e do Orçamento entre 1999 e 2001. Mais tarde, depois de uma passagem pelo Conselho de Administração da Metro Mondego, além de uma colaboração com a Iberdrola, exerceu as funções de assessor económico do primeiro-ministro José Sócrates, entre 2005 e 2009. Seguiu-se o cargo de secretário de Estado da Saúde, entre 2009 e 2011, no segundo Governo liderado por Sócrates, até à queda resultante do pedido de resgate financeiro.
José Sócrates "apadrinhou" a entrada de Óscar Gaspar no Governo
Posteriormente, de 2011 a 2014, Gaspar foi assessor económico do então secretário-geral do PS, António José Seguro. Dedicou-se a partir de então ao setor privado, tornando-se diretor de relações externas da MSD Portugal. Assumiu depois a presidência da APHP e também a vice-presidência da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

Em suma, é verdade que Óscar Gaspar representa os interesses dos maiores grupos privados de Saúde, ao exercer a presidência da APHP. Também é verdade que foi secretário de Estado da Saúde no segundo Governo de Sócrates e, mais tarde, assessor do secretário-geral do PS (na altura, Seguro). Estes são os factos verificáveis, pois o resto do artigo tem uma componente subjetiva, de opinião pessoal e interpretação política do autor. No que concerne aos factos, referentes ao percurso profissional de Gaspar, confirma-se que são verdadeiros.

Nota: este artigo foi atualizado às 11h22, com a correção de uma informação: ao contrário do que, por lapso, afirmámos em título, Óscar Gaspar não foi assessor económico de António Costa. Foi, isso sim, assessor de António José Seguro, também ele líder do PS, como sempre constou no texto.

Avaliação do Polígrafo:

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