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Relatório sobre semana de quatro dias revela que apenas metade das empresas promete manter a redução horária?

Sociedade
O que está em causa?
Num "tweet" publicado na sequência da divulgação do relatório final sobre o projeto-piloto da semana de quatro dias de trabalho, faz-se uma análise aos resultados criticando "os populistas do costume" por se agarrarem a estes dados. Em simultâneo partilha-se um excerto de uma entrevista de Rui Tavares e compara-se cada argumento com os resultados.
© Shutterstock

“Sai o relatório final do piloto da semana dos 4 dias de trabalho, e eu fui ler! 41 empresas e 332 trabalhadores impactados. Ok, é um piloto. 109 empresas demonstraram interesse inicial em participar no piloto, mas 55 optaram por dizer, não, não é boa ideia, ficamos por aqui e não vamos participar”, começa por se indicar num tweet partilhado no dia 25 de junho.

Em causa o relatório final do projeto-piloto sobre a semana de quatro dias, divulgado no dia 24 de junho de 2024 no site do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) que é usado como contra-argumento num vídeo – partilhado na mesma publicação – que mostra um excerto de uma entrevista ao porta-voz do Livre, Rui Tavares, com imagens do relatório ao lado.

Na publicação detalha-se que “durante o piloto da semana dos 4 dias, quase 40% dos trabalhadores que participaram trabalharam 37h ou mais durante a semana (3% afirma ter trabalhado mais de 50 h por semana)” e que “estranhamente, durante o piloto, foram realizadas menos horas extraordinárias do que antes do piloto, o que se depreende ser decorrente do milagre da multiplicação dos peixes”.

Acrescenta-se ainda que “todos os trabalhadores ficaram no geral mais felizes de facto“, mas chama-se a atenção para “parcela de colaboradores que optou por procurar um segundo emprego quase que duplicou”.

Por fim, afirma-se que “das 41 empresas que entraram no piloto, metade promete manter o regime de redução horária“, mas as restantes “ou não vão manter” ou vão avaliar uma solução diferente. Em conclusão, acusa-se os “populistas do costume” de aproveitarem este estudo “para se agarrar com unhas e dentes a isto na caça ao voto” e que é “mais do mesmo”.

Confirma-se que apenas metade das empresas promete manter a redução horária?

Em primeiro lugar importa começar por esclarecer duas questões: a entrevista apresentada no vídeo que acompanha o tweet foi concretizada em janeiro de 2024 ao jornal “Público“, como se constata na página do jornal no YouTube. À data, o porta-voz do Livre debruçava-se sobre o relatório intermédio sobre o projeto-piloto da semana de quatro dias de trabalho que tinha sido publicado em dezembro de 2023 e oferecia “um balanço da segunda fase do projeto-piloto da implementação” da iniciativa, apresentando “dados preliminares sobre os efeitos nos trabalhadores”.

Em segundo lugar, os dados do relatório que são usados como contra-ponto às afirmações de Rui Tavares são posteriores, trata-se do relatório final do projeto publicado no dia 24 de junho.

Esse relatório final, aquele que é analisado no tweet, demonstra, na página 5 do documento, que no que diz respeito à intenção de manter o modelo da semana de quatro dias, a informação não está correta. À pergunta “vão manter uma semana de quatro dias”, 52,4% das empresas envolvidas no estudo apontaram que “sim, no mesmo modelo que o piloto”, 4,8% indicou que “sim, noutro modelo ajustado”, 23,8% relatou que também irá manter mas em “menor escala” e apenas 19% referiu que não continuará com este modelo.

Mas analisando ao detalhe este último relatório, há outras questões que não são claras. Nomeadamente o facto de os 332 trabalhadores “impactados” dizerem respeito às 21 empresas que participaram no teste entre junho e novembro de 2023. A estas 21 empresas somam-se mais 20 – perfazendo as 41 indicadas no tweet – que já tinham adotado este modelo previamente de forma autónoma, algumas das quais ainda em 2020. Somando os trabalhadores das 41 empresas, estão em causa mais de 1000 envolvidos.

Quanto à redução da carga horária em 13,7%, esta diz respeito ao universo das 41 empresas, mas no que diz respeito às 21 que participaram no teste piloto naquele período de tempo, a percentagem reduz-se para 12,3%. Confirma-se também que houve um aumento da parcela de pessoas que utilizou o tempo extra para concretizar um segundo trabalho, mas também houve um aumento das parcelas que dizem respeito a tempo familiar, voluntariado, atividade académica ou atividades culturais.

O estudo aponta ainda que “antes do projeto-piloto, 15,5% dos trabalhadores já dedicava horas do seu tempo livre a uma segunda fonte de rendimento, um número significativo” e que, ao fim de seis meses de teste, “o número de trabalhadores que dedicava horas a uma segunda fonte de rendimento aumentou apenas 1.5 pontos percentuais, chegando a 17%, o que representa um aumento marginal”.

Além disso, o número das empresas interessadas no projeto também apresenta algumas imprecisões. No total, 120 (e não 109) demonstraram interesse numa primeira fase do projeto, dessas apenas 45 avançaram para a segunda fase e já na terceira fase, que diz respeito ao teste decorrido entre junho e novembro, apenas 21 avançaram (uma das quais iniciou o teste apenas em julho, mas inclui-se no piloto dos seis meses).

Ora, o documento justifica ainda que “das 24 empresas que desistiram na segunda fase após terem seguido as sessões de formação, 22 responderam a um questionário de saída”. Nesse questionário, 20 relataram que “mantêm a expectativa de experimentar a semana de quatro dias no futuro”. Mais, “sete empresas esperam iniciar um teste em 2024 e cinco empresas estão a planeá-lo para 2025”.

Em suma, além da alegação de partida deste fact-check se verificar falsa, há outros detalhes no tweet que induzem em erro ou que não estão suficientemente claros. Por isso a contextualização de cada um dos pontos com base no relatório em causa.

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Avaliação do Polígrafo:

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