A perda de olfato é um dos sintomas mais frequentes dos pacientes de Covid-19 – cerca de 65% dos infetados refere ter experimentado ausência momentânea deste sentido e também do paladar, segundo um estudo publicado na JAMA. Este fenómeno tem sido estudado desde o início da pandemia e, recentemente, foram publicados dois artigos científicos onde são apresentadas novas evidências para justificar a anosmia – nome dado à perda de olfato – em pacientes infetados com o novo coronavírus.

Num dos estudos, publicado a 18 de agosto no "European Respiratory Journal", os investigadores identificaram a presença de ACE-2 – a proteína a que o SARS-CoV-2 se liga e que funciona como condutor do vírus no organismo – no epitélio olfativo, a região nasal que deteta os odores. O epitélio olfativo é uma das zonas da cavidade nasal, a par com o epitélio respiratório. Este último é responsável pelo trato respiratório e é aqui que se acredita ocorrer a humidificação do ar que é inspirado.

A equipa de investigadores analisou conjuntos de tecidos celulares de 23 pacientes não infetados com a Covid-19, retirados da parte de trás do nariz e da parte superior da traqueia durante cirurgias nasais. Utilizando corantes fluorescentes, os cientistas conseguiram identificar e comparar os níveis de ACE-2 presentes nas diferentes regiões nasais, identificando no epitélio olfativo uma concentração de ACE-2 entre 200 a 700 vezes maiores do que em outros tecidos do nariz e da traqueia.

Artur Condé, otorrinolaringologista e presidente do Colégio de Otorrinolaringologia da Ordem dos Médicos, explica ao Polígrafo que “foram feitos estudos de colheita da mucosa do tecido da região olfativa do nariz e constatou-se efetivamente a presença de uma grande quantidade dessa enzima, que também existe no aparelho respiratório baixo, na região alveolar e nos brônquios”. A ligação do vírus às células do epitélio olfativo que contêm esta proteína permite que o vírus se multiplique e se espalhe pelo organismo do paciente, tendo esta região como ponto de partida.

Esta descoberta não se limita a explicar o fenómeno da anosmia, mas é também importante para perceber como o novo coronavírus entra no organismo. Os autores explicam que “este epitélio é uma zona muito fácil de ser alcançada por um vírus, já que não está localizado no fundo do corpo”. E acrescentam que “os níveis muito altos da enzima” que foram encontrados “podem explicar por que é tão fácil apanhar a Covid-19”.

Esta descoberta não se limita a explicar o fenómeno da anosmia, mas é também importante para perceber como o novo coronavírus entra no organismo.

 O epitélio olfativo poderá ser uma forma de entrada do SARS-CoV-2 no organismo, mas não será a única: “Se nós inspirarmos ar ambiente que tenha partículas em suspensão do vírus e este for diretamente para a região brônquica”, poderá existir contágio, explica Condé.

“Nessa zona, também existem as referidas proteínas às quais o vírus se vai poder ligar para entrar na célula humana”, acrescenta o otorrinolaringologista. Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos, esclarece que o facto de existirem muitos recetores na região olfativa permite ao vírus “entrar nas células e multiplicar-se com mais facilidade”, o que faz com que “atinja com mais facilidade cargas virais que lhe permitem ser facilmente transmissível”.

Este artigo aponta também a existência das proteínas ACE-2 na região olfativa como a justificação para a ocorrência da anosmia. A perda de olfato “em princípio é uma questão local”, diz Froes. O pneumologista esclarece que as “próprias células, ao serem destruídas e atingidas, deixam de ter a capacidade de exercer a sua função que é captar as diferenças de olfato”. Na maior parte dos casos, o olfato é recuperado após a infeção por Covid-19 estar resolvida, podendo levar entre quatro a seis semanas, segundo avançam os investigadores de Harvard.

Corona Covid

Inicialmente, foi colocada a hipótese de a perda do olfato estar relacionada com problemas neurológicos causados pelo SARS-CoV-2. Porém, um artigo, publicado a 31 de julho na Science Advanced por uma equipa da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, identificou as células específicas do epitélio olfativo que contêm a maior concentração da enzima ACE-2. Os investigadores chegaram à conclusão, por meio de análises genéticas, que o recetor do vírus estava presente nas células de suporte e não na região dos neurónios sensoriais.

Sandeep Robert Datta, professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e um dos autor do estudo, explica que estas descobertas “indicam que o novo coronavírus muda o sentido do olfato em pacientes sem infetar diretamente os neurónios”. Ou seja, esta descoberta coloca de parte a hipótese de que o vírus atinge o sistema neurológico sensorial – em particular a região responsável pelo processamento dos odores – como se pensava. “Acho que é uma boa notícia, porque uma vez que a infeção desaparece, os neurónios parecem não precisar de ser substituídos ou reconstruídos do zero”, acrescenta o investigador.

Estudo “indica que o novo coronavírus muda o sentido do olfato em pacientes sem infetar diretamente os neurónios”.

“Quando o vírus invade o sistema nervoso central vai provocar uma doença neurológica. É o que acontece com todos os vírus”, sublinha Condé. O SARS-CoV-2 “não entra nas células nervosas porque se entrasse nas células nervosas da fenda olfativa, o vírus iria provocar, primeiramente, uma lesão neurológica, eventualmente uma meningite vírica. Isso não acontece”, explica o otorrinolaringologista.

Porém, há casos registados de pessoas que não conseguiram recuperar a capacidade de cheirar. Segundo a "Agência Lupa", alguns especialistas sugerem que a anosmia permanente pode estar relacionada com a “tempestade de citocinas”, uma ação exagerada do sistema imunológico para atacar o vírus que provoca danos nos tecidos celulares e nos órgãos. Ainda assim, são necessários mais estudos para que esta hipótese seja confirmada.

Avaliação do Polígrafo: 

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Verdadeiro, mas...
International Fact-Checking Network