Várias publicações no Facebook e outras redes sociais estão a espalhar a informação de que 98% das ações da Rede Globo pertencem a um conjunto de países do Médio Oriente, nomeadamente o Bahrein, Líbia e Kuwait. Algumas dessas publicações são ilustradas por um desenho de Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, associado à seguinte mensagem: “Quando um homem sozinho consegue incomodar um império do mal, isso é sinal de que está agindo certo”.

“A Rede Globo pertence ao Bahrein, Líbia e Kuwait. A Rede Globo deve a esses países muito dinheiro através de empréstimos que foram feitos pelo Arabic Bank. Esses três países são donos de 98% da Rede da família Marinho”, pode ler-se na publicação. “Esses países são inimigos declarados do Qatar onde Bolsonaro esteve também além dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita, países esses que Bolsonaro acabou de fechar negócios milionários”, acrescenta-se numa das publicações, rematando que “quanto mais a gente souber a verdade dos motivos, mais condições teremos de defender Bolsonaro dessa corja”.

Trata-se de uma fake news que resulta da confusão entre as atividades da Rede Globo e do antigo Grupo Roberto Marinho - atualmente conhecido como Grupo Globo. A estação de televisão em causa enviou à Agência Lupa uma nota por e-mail desmentindo a informação veiculada pelas referidas publicações.

A Rede Globo é propriedade da família Marinho, mas não é o único ativo do respetivo grupo empresarial. A história referida na publicação remonta a 1983, quando o Grupo Roberto Marinho avançou com a criação do Banco Roma de Investimentos, o qual passou a ser conhecido como Banco ABC depois de se ter tornado uma associação económica com a Arab Banking Corporation. Atualmente, a família Marinho já não tem ações no Banco ABC Roma, uma vez que em 1997 vendeu à Arab Banking Corporation a totalidade da sua participação. A instituição bancária passou então a chamar-se Banco ABC Brasil, nome que ainda mantém atualmente.

De facto, a Arab Banking Corporation tem a sede no Bahrein e conta com o Banco Central da Líbia e a Autoridade de Investimentos do Kuwait como principais acionistas. Porém, a aquisição feita pelo banco árabe não foi à Globo, mas sim à participação que o Grupo Roberto Marinho detinha no Banco ABC Roma.

Este não é o único erro das publicações em análise: o Bahrein, a Líbia e o Kuwait não são inimigos declarados do Qatar e da Arábia Saudita. As relações de tensão que atualmente se vivem entre os referidos países do Médio Oriente são bastante diferentes (e mais complexas) do que está descrito nestas publicações.

O Qatar foi alvo de um bloqueio internacional liderado pela Arábia Saudita que, em 2017, cortou as relações por terra, água e ar com o país vizinho, acusando-o de financiar grupos terroristas e de ser aliado do Iraque. Esta decisão teve como base uma fake news, criada por hackers que publicaram declarações falsas do emir do Qatar no site da agência de notícias estatal, como explica a Al Jazeera. As declarações mostravam apoio ao Irão enquanto criticavam a política externa dos Estados Unidos da América (EUA).

Ao lado da Arábia Saudita estão os Emirados Árabes Unidos e o Egipto. No entanto, o Kuwait manteve boas relações com ambos os países e tem assumido um papel de mediador diplomático. Fora do conflito está a Líbia que não tem um governo centralizado único desde que Muammar al-Kadhafi foi derrubado do poder e, por isso, não toma partido nas disputas entre os países do Golfo Pérsico.

Também não se confirma que a Rede Globo esteja a "atacar Bolsonaro" por causa de um recente acordo de investimento firmado entre o Brasil e a Arábia Saudita, na sequência de um encontro entre o presidente brasileiro e o rei saudita, Mohammed bin Salman. Essa alegação já foi desmentida pela Boatos.org, plataforma brasileira de verificação de factos.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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