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Rede de bicicletas partilhadas GIRA exclui atualmente bairros desfavorecidos de Lisboa?

Sociedade
O que está em causa?
É verdade que o atual executivo de Lisboa tem vindo a anunciar novos projetos no sentido de promover o desenvolvimento da rede ciclável da capital. Mas será também verdade que a sua rede de bicicletas partilhadas GIRA permanece ainda ausente dos principais bairros desfavorecidos?

O alerta foi dado através de uma publicação na rede social Instagram por António Brito Guterres, investigador em Estudos Urbanos. Tudo com base num “conjunto de mapas” que expôs “há um ano e meio sobre a mobilidade leve de Lisboa” – ilustrando a abrangência da rede de “bicicletas e trotinetes elétricas” da cidade.

Uma das conclusões que Brito Guterres retirou da sua análise foi a de que as bicicletas GIRA, “um serviço público fornecido” pela autarquia, “não chegam a todo o lado”. O que fica de fora? “Chelas, Ajuda, Santa Clara, a parte da Alta de Lisboa do Lumiar, Horta Nova, Bairro Padre Cruz, realojamentos da Avenida de Ceuta, ou seja, são zonas com dezenas de milhares de pessoas onde estão concentrados muitos dos bairros sociais de Lisboa”, apontou o estudioso.

Além disso, notou que a rede GIRA “vai chegar ao Braço de Prata”, ainda que isso se deva, na sua ótica, “apenas aos novos empreendimentos de luxo aí construídos”. E concluiu: “Às vezes parece que na política não há direito à verdade. E a verdade é que este compromisso de exclusão em Lisboa é antigo e tem sido transversal a quem tem governado a cidade.”

Confirma-se que esta rede de bicicletas partilhadas continua a deixar de fora os bairros desfavorecidos de Lisboa?

Consultando o “site” da rede de bicicletas GIRA, concluímos que a localização das estações atualmente existentes é em tudo muito semelhante ao que nos indica o mapa apresentado por António Brito Guterres. Os locais que este aponta na publicação, conhecidos por serem locais onde residem franjas mais desfavorecidas da população, estão ainda, de facto, de fora da cobertura deste serviço – como pode ver na imagem que se segue.

Rede de bicicletas partilhadas GIRA exclui bairros desfavorecidos de Lisboa?

Em declarações ao Polígrafo, o investigador começou por citar, a título de exemplo, uma petição entregue na Assembleia Municipal de Lisboa pelos moradores de Marvila, que alertavam para o facto de a rede GIRA ainda não ter chegado à freguesia. Algo que levou o presidente da EMEL (Empresa de Estacionamento e Mobilidade de Lisboa), Carlos Silva, aqui citado pela agência Lusa, a anunciar que estão já previstas duas estações desta rede na freguesia já no primeiro semestre de 2024. 

“Mas dizer que vai chegar a Marvila é, na verdade, dizer que vai chegar à zona junto ao rio, porque existem aí uns novos empreendimentos”, notou António Brito Guterres, que considerou que existe um “planeamento da expansão desta rede que acompanha um pouco a gentrificação da cidade e os grandes projetos imobiliários”. 

Na ótica do especialista em Estudos Urbanos, estes dados comprovam que existe “uma sobreposição e uma correlação positiva, do ponto de vista matemático, entre as pessoas que têm várias exclusões”. Isto porque “quando se fala em Chelas, quando se fala na Alta de Lisboa, ou na Alta do Lumiar, são zonas, oficialmente, mais pobres da cidade”.

E, por isso mesmo, deixou uma acusação à autarquia: “Quando tem na sua mão um serviço que pode combater essa exclusão, não o faz.” Até porque muitos dos locais que mencionou na publicação, elaborou, como “Marvila, Chelas, Alta de Lisboa”, são “sítios muito densos, onde mora muita gente que trabalha na cidade” – e onde, por vezes, existem transportes públicos “mais escassos a nível de horário” e se verifica, até, a inexistência de estações do Metro.

Além disso, prosseguiu, “são zonas planas”. Isto é, “não há sequer nenhum tipo de atrito geográfico, que Lisboa até tem alguns, como se sabe”, que justifiquem a ausência deste serviço de bicicletas.

Para concluir, o investigador considerou ainda que esta opção política acarreta ainda falhas do “ponto de vista” estratégico. Isto porque “estas zonas, como são limítrofes da cidade – Marvila, Alta de Lisboa, até a Ajuda -, podiam ser zonas de entrada das pessoas na cidade que podiam ir até aí para apanhar depois a [rede] GIRA”.

Confrontada pelo Polígrafo sobre se existem dados mais atualizados sobre a abrangência da rede GIRA e se existem projetos no sentido de expandir a mesma – nomeadamente para chegar mais próximo destes bairros lisboetas mais desfavorecidos -, a Câmara Municipal de Lisboa explicou que o “plano de expansão da rede GIRA em Lisboa encontra-se em marcha e contempla investimentos no aumento do número de estações e de bicicletas”, de forma a “aumentar a área de cobertura no território”.

Contas feitas, desde o início do mandato do Executivo liderado por Carlos Moedas, “foram abertas 53 estações GIRA”, possibilitando que o ano de 2023 termine “com 155 estações ativas”. Para o próximo ano, a autarquia prevê ser capaz de “atingir um total de 184 estações ativas”  – ou seja, “mais 44 estações do que as previsões no arranque do sistema GIRA”, que previa a implementação de “140 estações e atingir um máximo de 1.410 bicicletas disponíveis no sistema”, tal como tinha sido noticiado em setembro de 2017 , quando a Câmara Municipal era ainda liderada pelo socialista Fernando Medina.

Além disso, os “planos iniciais” previam que a rede GIRA apenas contemplasse “zonas como o eixo central da cidade, a zona do Parque das Nações, a baixa da cidade e frente ribeirinha”. Sendo que agora, em “conjunto entre novas estações, a aquisição de 500 novas bicicletas e a eletrificação de 400 bicicletas convencionais”, a autarquia diz ser “possível chegar ainda durante este mandato a todas as 24 freguesias do Concelho de Lisboa sem exceção”, de forma a colocar “cada um dos cidadãos de Lisboa a menos de 10 minutos a pé de uma estação”.

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Avaliação do Polígrafo:

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