Em confronto de ideias desde a semana passada, altura em que foi conhecido o chumbo do Orçamento do Estado (OE) para 2022, Rui Rio tem recorrido a todos os argumentos para adiar as eleições internas no partido de que é líder e chegar às legislativas no cargo que ocupa desde 2018.

O seu maior obstáculo é Paulo Rangel, que pretende que as eleições se mantenham marcadas para dia 4 de dezembro, mas que tem sido escrutinado no Twitter por afirmações proferidas em 2019, durante uma situação semelhante.

Um tweet publicado durante a manhã de ontem, dia 2 de novembro, onde é anexado um vídeo de Rangel em entrevista ao “Programa das 9”, transmitido na TVI24, expõe a suposta incoerência do candidato à liderança do PSD, que em janeiro de 2019 dizia: "Então nós vamos estar a fazer um discussão interna, por mais atrativa e interessante que seja, enquanto os outros partidos estão em campanha eleitoral?".

Rui Rio não demorou a replicar a acusação. Ainda durante a tarde de terça-feira, o social democrata escreveu na sua conta pessoal: "Em 2019 não era possível fazer eleições internas por estarmos a quatro meses das europeias. No Conselho Nacional não havia problema, porque não ia haver legislativas. Agora, há legislativas dentro de três meses, mas já se pode misturar tudo."

Rio anexou ao tweet uma notícia do jornal "Observador", de 11 de janeiro de 2019, que confirma a posição de Rangel perante a proposta de Luís Montenegro no sentido de serem marcadas eleições diretas em vésperas de período eleitoral. "Para o antigo candidato à liderança do partido, 'não é normal' que 'em pleno período eleitoral', se lance uma discussão destas. 'Vamos estar a fazer uma discussão interna enquanto os outros partidos estão a fazer campanha eleitoral', afirmou", lê-se no artigo em causa.

Antes de mais, é necessário entender as circunstâncias em que Paulo Rangel proferiu as declarações supracitadas. Em janeiro de 2019, quando Luís Montenegro se afirmou como candidato à liderança do PSD e propôs a Rui Rio eleições internas, que acabaram por acontecer apenas um ano depois e viram Rio reeleito com 53%, o PSD enfrentava uma grande crise interna. O país, por sua vez, estava a apenas quatro meses das eleições europeias, que tiveram lugar a 26 de maio desse ano.

As legislativas, marcadas para 6 de outubro, ainda não afetavam o calendário interno do PSD, mas não é claro que Rangel se estivesse a referir a umas ou a outras. Ainda assim, quando Rui Rio negou a Montenegro as eleições diretas antecipadas, Rangel elogiou o presidente do seu partido, afirmando que "abrir uma crise política em pleno período eleitoral, a meio do mandato, sem haver nenhum acontecimento excecional, sinceramente é algo que é inédito e não é bom nem é positivo".

"Julgo que hoje o presidente do partido, de uma forma muito clara e determinada, pôs as coisas no seu lugar, mostrou bom senso, sentido de Estado, sentido de responsabilidade, mas, ao mesmo tempo, coragem no sentido de dizer: então vamos clarificar as coisas e arrumar esse assunto", acrescentou ainda o eurodeputado.

  • Rangel diz que intervalo entre últimas dissoluções da AR e novas eleições foi de quatro a cinco meses. Tem razão?

    Na primeira entrevista depois do anúncio oficial da candidatura à liderança do PSD, esta segunda-feira na TVI e TVI24, Paulo Rangel referiu-se à crise política como um cenário pouco provável, não devendo por isso interferir na agenda do PSD. Lembrando os mais recentes casos de dissolução da Assembleia da República, o social democrata mencionou uma espera prolongada até às eleições que lhes sucederam, referindo que, a acontecer agora, a dissolução empurraria as legislativas para fevereiro ou março do próximo ano. As contas estão bem feitas?

Este ano, anunciada a candidatura à liderança do PSD, Rangel adotou uma postura diferente: Ainda que com Rio a remar para o lado inverso, com os mesmos argumentos utilizados em 2019, Rangel não quebra e quer mesmo seguir com eleições internas a poucos meses de eleições legislativas: "O PSD tem de honrar a sua tradição democrática e plural, tem de olhar para as eleições internas como um momento para debater o país e preparar as legislativas. Não precisamos de 'suspender' a democracia para ganharmos as legislativas", afirmou durante esta terça-feira aos militantes. Ainda assim, disse, é necessário que "o novo líder do PSD esteja legitimado pelos militantes e com o mandato para disputar de igual para igual e em plena força as eleições gerais, tornando-se no chefe do Governo" do país.

A decisão de antecipar o Congresso de janeiro para 17 e 19 de dezembro só será tomada no próximo sábado, bem como a de adiar as diretas no PSD, marcadas para 4 de dezembro. Numa carta endereçada aos militantes, a comissão permanente dos social-democratas afirma que a antecipação das eleições legislativas é uma "excelente oportunidade para o PSD aproveitar o bom resultado das autárquicas e ganhar essas eleições".

Nota editorial: Na sequência de várias interpelações de leitores, considerámos que a avaliação inicial deste fact-check - "Verdadeiro" - não era a mais rigorosa. Na realidade, a que melhor caracteriza o caso em análise é, na escala do Polígrafo, o "Descontextualizado". Isto porque estamos a comparar realidades que são muito díspares. Se é verdade que Rangel defendeu, em janeiro de 2019, que abrir uma disputa interna num momento em que se aproximava uma campanha eleitoral, não é menos verdade que: 1) Tratava-se de uma campanha para eleições europeias (e não para legislativas, como é este o caso); 2) O avanço de Luís Montenegro, a 11 de janeiro de 2019, ocorreu quando Rui Rio ainda não tinha completado sequer um ano de mandato (faltavam dois dias para isso acontecer), atropelando assim o calendário eleitoral "normal" do partido - um cenário totalmente diverso do atual, uma vez que o partido teria necessariamente de ir a eleições internas em janeiro próximo, quando Rui Rio terminaria o seu mandato. Ou seja, estamos, nas circunstâncias atuais, perante uma curta antecipação do calendário eleitoral "ordinário", decorrente das condições extraordinárias que a súbita marcação de eleições legislativas antecipadas colocou aos partidos. Pelo lapso na análise pedimos desculpas aos leitores. A atualização da avaliação foi feita no dia 8 de novembro às 13h02.

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