"Estudo: Trabalhadores da saúde totalmente vacinados carregam 251 vezes a carga viral, representam uma ameaça para pacientes não vacinados, colegas de trabalho", lê-se no título de um artigo que tem sido partilhado pelas várias redes sociais, desde o final de agosto.

Logo a seguir do título está escrito: "Um artigo pré-impresso do prestigioso Grupo de Pesquisas Clínicas da Universidade de Oxford, publicado em 10 de agosto no The Lancet, constatou que indivíduos vacinados transportam 251 vezes mais a carga do coronavírus nas suas narinas em comparação com os não vacinados."

"​​Só não vê quem não pesquisa", alega um dos utilizadores do Facebook que partilha a informação.

Mas é verdade?

Não. O estudo citado no texto intitula-se de "Transmissão da variante delta do SARS-CoV-2 entre trabalhadores de saúde vacinados, Vietname", publicado no dia 10 de agosto de 2021. Nesse preprint, ou publicação não revista por pares, os investigadores apresentam os resultados de um estudo de infeções pela variante delta do SARS-CoV-2 numa equipa médica de um hospital especializado no tratamento de doenças infecciosas no Vietname. Toda a equipa tinha sido inoculada com a vacina da AstraZeneca.

De 11 a 25 de junho de 2021, 69 dos 900 trabalhadores dos hospital testaram positivo à Covid-19 e todos foram infetados com a variante delta. Dos 69, 62 fizeram parte de um ensaio clínico. Desses infetados, 49 eram pré-sintomáticos (o indivíduos infetados que podem infetar outros antes de desenvolverem sinais e sintomas de Covid-19), mas apenas um precisou de receber oxigénio.

Também não é verdade que tenha sido publicado pela revista científica "The Lancet". A versão preliminar do artigo científico, que não foi revisto por pares, foi divulgada numa plataforma dentro do site da "The Lancet", numa zona específica para esse tipo de trabalhos. A revista científica deixa bem clara a diferença entre os preprints e os artigos devidamente revistos e publicados na revista.

"As publicações disponíveis aqui não são publicações da revista "The Lancet" e não estão necessariamente a ser examinadas pela "The Lancet", sublinha a revista que também alerta que os "resultados não devem ser utilizados para tomada de decisões médicas ou de saúde pública e não devem ser apresentados a um público não familiarizado sem destacar que são preliminares e que não foram avaliados por pares".

O número "251" apresentado nas publicações aparece no resumo do estudo: "A carga viral nos casos de infeção pela variante delta era 251 vezes mais elevados do que a [carga viral] daqueles casos de infetados por estirpes antigas, detetadas entre março e abril de 2020." Ou seja, não é possível comparar as pessoas vacinadas e não vacinadas infetadas com a mesma variante do vírus no mesmo espaço temporal. Estuda-se, na verdade, a carga viral dos vacinados infetados com a variante delta, relativamente aos registos conseguidos no início da pandemia.

"O objetivo desse artigo é comparar a carga viral nas pessoas contaminadas pela variante delta com relação àquelas que haviam sido contaminadas em 2020 com as variantes iniciais. Os investigadores descobriram que as pessoas contaminadas pela variante delta tinham 251 vezes mais carga viral do que as infetadas um ano antes", explicou Frédéric Altare, imunologista e diretor de investigação no Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm) de França, contactado pela equipa de verificação de factos da Agence France-Presse (AFP).

Jean-Daniel Lelièvre, chefe do serviço de doenças infecciosas no Hospital Henri-Mondor de Créteil, em França, disse também à AFP que "comparar as cargas virais de pessoas vacinadas com as de pessoas que não estão vacinadas e não utilizar as mesmas estirpes virais equivale a comparar peras e maçãs".

  • Vacina contra a Covid-19 pode comprometer o sistema imunitário? (COM VÍDEO)

    Está a ser difundido nas redes sociais um artigo no qual se destaca que "a vacina para a Covid-19 pode comprometer o sistema imunológico", apontando para um suposto estudo que terá concluído que "as vacinas para a Covid-19 destinadas a induzir anticorpos neutralizantes podem sensibilizar os destinatários da vacina para doenças mais graves do que se eles não fossem vacinados".

No mesmo sentido, Yves Buisson, epidemiologista e membro da Academia de Medicina de França, respondeu à AFP que "as amostras dos vacinados são colhidas um ano depois, com uma variante diferente muito mais infecciosa e que se propaga muito mais rápido, e todos com, provavelmente, métodos de PCR quantitativos [testes de PCR que permitem avaliar a carga viral da amostra], que evoluíram depois de um ano".

"As diferenças na carga viral foram impulsionadas pela capacidade de a variante delta causar cargas virais maiores, não tinham nada a ver com o status de vacinação do indivíduo infetado. Assim, a alegação de que os indivíduos vacinados carregam 251 vezes a carga do SARS-CoV-2 no aparelho respiratório em comparação com as pessoas não vacinadas é "uma deturpação dos dados", explicaram os próprios autores do preprint em comunicado.

Em suma, é falso que um estudo científico da Universidade de Oxford comprove que a carga viral é 251 vezes superior em pessoas vacinadas do que em pessoas não vacinadas. A ideia foi desmentida por vários especialistas e pelos próprios autores do estudo. Além disso, o artigo também não foi publicado pela revista "The Lancet".

__________________________________________

Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

Siga-nos na sua rede favorita.
Falso
International Fact-Checking Network